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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


01.01.12

À mesa do café esperava por ti,
Mergulhava num livro de António Lobo Antunes e ficava lá até que via a aproximação da tua sombra e puxavas silenciosamente uma cadeira e te sentavas e me olhavas, e finalmente vinhas visitar-me e finalmente pegavas na minha mão,
À mesa do café esperava por ti e eu imaginava-te num sorriso junto ao tejo quando eu passeava distraidamente e mergulhava nas lágrimas do rio e me sentava a junto a ele a fumar cigarros e quando terminavam os cigarros desenhava o teu rosto na água, e quando terminavam os cigarros pintava os teus lábios na neblina que me ofuscava a visibilidade, e ao longe, e ao longe a ponte desaparecia em pedacinhos de silêncio, e eu ficava lá,
- E vinte anos depois ainda mergulho nos livros dele,
Via a aproximação da tua sombra e puxavas silenciosamente de uma cadeira e te sentavas e me olhavas,
- Hoje não preciso de te esperar porque hoje já vives dentro de mim, e quando terminavam os cigarros ele pegava nos meus lábios e pintava-os de azul e quando me olhava ao espelho, e quando me olhava ao espelho tinha o mar na minha boca,
Gosto de ti diz-me ela antes de adormecer, gosto de ti antes de eu mergulhar nos livros dele e puxar de uma cadeira silenciosamente à mesa do café esperava por ti e ficava lá e te sentavas e me olhavas e oiço a tua voz Gosto de ti,
- E vinte anos depois ainda mergulho nos livros dele,
E ao longe a ponte desaparecia em pedacinhos de silêncio, e eu ficava lá a ver o mar pintado nos teus lábios e eu hoje sentado à mesa do café a mergulhar num livro dele e espero que acordes amanhã e pegues na minha mão e que o mar que pintei nos teus lábios esteja lá,
- Claro que sim seu parvalhão Amanhã vou acordar e o mar nos meus lábios à tua espera na mesa do café, e puxo silenciosamente uma cadeira e me sento e te olho, e finalmente vou visitar-te e finalmente pegas na minha mão e o mar que pintaste nos meus lábios abraçar-se-á à tua boca,
Gosto de ti antes de adormecer quando oiço a voz dela,
- Gosto de ti,
Quando oiço a voz dela e eu com um livro dele na mão espero que ela amanhã acorde e abra os olhos e me olhe e,
- Gosto muito de ti,
E nos lábios dela continue lá o mar que pintei,
- Claro que sim seu…
E ela amanhã acorde e pegue na minha mão.

(texto de ficção)

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