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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


24.04.12

Foder todas as palavras que escrevo
escrever todas as coisas que fodo
sem saber
não percebendo
que nas palavras de escrever
há um verbo moribundo
um corpo achatado
não sabendo
que todo
que todo o poema está doente
sofrendo
sofrendo nas sílabas do enforcado
foder todas as palavras que escrevo
e não sei
e não se devo
e não sei se devo desistir deste mundo...

escrevo
sem saber escrever
escrevo sem saber escrever
foder
foder todas as palavras que escrevo
em todas as coisas que fodo

que todo o poema está doente
que todo o poema está doente e não sente
não sabendo
sofrendo
não sabendo sofrendo
que todas as palavras que fodo
de todo
não são gente

são palavras
não sabendo
sofrendo
são palavras felizmente.


24.04.12

Vou ao café
fico de pé
procuro na algibeira
a maldita carteira

olho a empregada
meia destrambelhada
tanta gente
porque hoje é feira
procuro na algibeira
a maldita carteira
fico de pé
e não tomo café

contente

enrolo um cigarro
à porta do café
em pé
pego na mortalha
e o canalha
um cabrão ao passar
sem me olhar
(este filho da puta está a fazer um charro)
olho a empregada
meia destrambelhada

(Vou ao café
fico de pé
procuro na algibeira
a maldita carteira)

e o mesmo cabrão
sem coração
o canalha que passou sem me olhar
a murmurar...

(é preciso ter fé)

vai ter fé ao caralho
(porque para tomar café
preciso da carteira
na algibeira)
recheada
como a empregada
destrambelhada.


23.04.12


Vivo na cidade dos beijos,
- Querido Francisco, as coisas por aqui vão cada vez pior, sonhei com uma placa onde jazia o número 1029, Acreditas?, com os últimos cinco euros que me restavam comprei uma fracção da lotaria com este número, Acreditas? Não saiu, nada, portanto os sonhos basicamente são uma treta, sonho com gajas que nunca vi na vida, tão pouco sei se existem, coisas estranhas, esquisitas, e o 1029 em vão... Sim meu querido, Azar ao jogo Sorte no...
vivo na cidade dos beijos, Azar ao jogo Sorte no inferno que são as ruas da cidade dos beijos, e o 1029 não saiu, pego no número e transformo-o numa matriz e obtenho triângulos rectângulos, coisas esquisitas e sem nexo, números, matrizes, equações, triângulos, muitos triângulos,
-querido Francisco
vivo na cidade dos sonhos, e ao fundo da rua vejo o rio do desejo, entre as duas margens a ponte enfeitada com lábios vermelhos, e o cabrão do 1029 não saiu, e o cabrão do 1029 numa placa de silício a martelar-me a cabeça,
- querido Francisco, as coisas aqui vão cada vez pior, sonhei...
Não meu querido, não saiu o cabrão do 1029.


23.04.12

Nunca soube o significado da palavra MAR
nunca vi o mar
e o amor
com dor
ao acordar
e o amor com dor
embrulhado nos lençóis da maré
amar
amar sem fé
amar amar
o mar
quando nos olhos de uma flor
com dor
quando nos olhos de uma flor
o amor
amar
o amor finge adormecer
eternamente
com dor
eternamente ausente
nas pálpebras do amante
sofredor

escrever

o amor
e o mar
o amor com dor
amar
a dor
sem mar

eternamente ausente
não sente
o amor sem mar
amar sem dor
o amor...
o amor sofredor.


23.04.12

Procuro-te nas almofadas da noite
entre os lençóis do mar
oiço-te embrulhada nas ondas
a brincares com as minhas palavras...
oiço-te e não consigo ver-te
e não consigo tocar-te
porque o mar em revolta
à minha volta
roubou-me o sonho
e cerrou as janelas do meu pôr-do-sol
e até a lua deixou de brilhar
e as palavras com que brincas
aos poucos desaparecem antes de acordar a madrugada
tal como eu
um louco
suspenso entre as sandálias
e os calções de infância
um louco
tal como eu
que não consegue tocar-te
que não acredita no céu
um louco
tal como eu
às voltas com o caderno da solidão
onde escrevo
onde semeio as minhas lágrimas
e escondo
um louco
tal como eu
e escondo o meu coração
de titânio
de xisto
de argamassa
um coração estupidamente só
um coração
ao abandono
sem dono
sem destino
desde menino
sentado num banco de jardim
à tua espera
(oiço-te e não consigo ver-te
e não consigo tocar-te
porque o mar em revolta
à minha volta)
sem dono
sem destino
eu um louco
que não consegue tocar-te
sentado num banco de jardim
o meu coração
a escrever versos no caderno da solidão
assim
eu tão só
tão pouco
um louco
assim
assim entre os lençóis do mar
e as noites de inferno
onde te oiço
a vasculhar o meu caderno da solidão
onde escrevo
e semeio
os guindastes da vida...


22.04.12

As mãos
em desejo
os lábios à procura do beijo
quando a boca
nas mãos
quando a boca
se alimenta da madrugada
tão louca
ou quase nada
as mãos
em desejo
coisa pouca
à procura do beijo
as mãos
em desejo
entre lábios sem jeito
e uma boca amargurada
se alimenta da madrugada
em desejo
ou quase nada
coisa pouca
a boca
as mãos em desejo
à procura da cidade
na boca
o beijo
coisa pouca
sem maldade
entre lábios sem jeito
as mãos
as mãos entrelaçadas no leito
as mãos sem vaidade
na boca
na boca louca
o beijo
em desejo
na cidade
na cidade mergulhada na madrugada
coitada
coisa pouca
a boca
em desejo
as mãos
sem nada
sem nada descendo a calçada
coitada da boca
louca
amargurada...

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