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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

...


31.12.12

O trânsito infernal, o (pára arranca) leva-me a imaginar uma rua sem saída, e muitas pessoas a caminharem em direcção, não sei, e não mo perguntes

Em direcção ao vazio,

Ao nada, ando uns míseros milímetros, agacho-me, sinto o próprio vazio da rua sem saída a coexistir dentro de mim, ruas, pessoas

Em direcção ao vazio, nuas

Muitas pessoas,

Em direcção ao vazio, os edifícios agachados também, tal como eu, e as árvores voam, fogem para longe, levam as folhas e as flores, muitas pessoas

Vazio,

Que transportam pele e osso, quilogramas de lixo cinzento, cigarros made in China, com sabor a Primavera, procura nos bolsos, não as encontra, as chaves, de casa, do carro, procuro-os nos bolsos

Os edifícios, não os encontro, os carros, as casas, procura nos bolsos as pessoas, fugiram, deixaram de pertencer à rua B do número trinta e três, outra vez, repita comigo

Trinta e três, rua B, quito esquerdo, e ela repetia, Trinta e três, rua B, quito esquerdo, abria as asas e começava a voar sobre a cidade, deixei de a ver, deixei de a ouvir

Perguntas-me se à cidade ou a ela, à rua B

E eu simplesmente tinha saudades, da rua B, dos alicerces, as pessoas, os pássaros, o trânsito infernal, o (pára arranca) leva-me a imaginar uma rua sem saída, e muitas pessoas a caminharem em direcção, não sei, e não mo perguntes, hoje, não, amanhã talvez, saio de casa, sais de casa, encontras no bolso...


31.12.12

Há dias que nascem ao contrário

como a cidade dos sonhos

com ruas sem saída

e medos medonhos

 

há dias que nem chegam a nascer

e morrem

desaparecem dentro dos cubos de granito

infelizes e tristes que sofrem

 

as melodias assombradas da madrugada

há dias que são os dias de nada

dias simples em palavras desertas

há dias e dias e companhia limitada

 

dias de sofrer

dias capazes de me comerem antes do pequeno-almoço

dias há entres dias e noites de escuridão

os dias sozinhos e tristes à deriva num baloiço...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

 

...


30.12.12

Refugiavas-te nas minhas mãos, tinhas medo do sono, inventavas pássaros na copa das árvores como se fossem, elas, as copas, as árvores, poemas de melancolia, sem sentido, doentes mentais agachados em enormes corredores de dor, de insónia, poemas de amor inventavas nas planícies agrestes dos sorrisos do vento, tombavam as espigas de trigo, tombavam os teus seios oprimidos, encarcerados como jardins suspensos nas varandas de um quinto andar numa rua sem saída, na cidade desgovernada, cansada, tu, nas minhas mãos

Disfarçada de palavras,

Tu,

Inventavas-me e tinhas medo do sono, desenhavas comboios nas paredes de um quarto escuro, sem janelas para o rio, ouviam-se os gemidos tranquilos dos indesejados papeis de parede, velhos, sujos, crucifixos de madeira que uma velha mão esqueceu, deixou antes de partir,

Tu

Disfarçada de palavras, tu, disfarçada de cansadas madrugadas que uma caixa de cartão guarda religiosamente como se fossem um tesouro, e são apenas madrugadas, sem destino, sem enormes corredores de dor, de insónia, poemas de amor..., sem nomes, moradas, números de polícia, poemas, poemas de poemas com molho de tomate, o vinho pode ser o normal, o vinho da casa, pão, uma sopinha, caldo de cebola, pode ser, porque não,

Tu,

disfarçada

De palavras...



(não revisto)

 


30.12.12

Os regressados

desgraçados vãos de escada do limite infinito orifício do desejo

que do varandim de uma cidade

cresce e cresce e cresce

entre árvores e solidões

no mais ínfimo momentâneo momento a dois

uma equação prisioneira na ardósia tarde sem história

e deus na saudade que as palavras provocam nas línguas de mel

os regressados

desgraçados vãos de escada

que a madrugada esconde nos caixotes de lixo que os homens maus inventaram

e construíram silenciosamente no jardim em frente ao poço da morte

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó


29.12.12

Bates-me à porta, pedes-me silêncio, agachas-te nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, fazemos um refresco de solidão, abrimos um livro, pode ser aquele, sabes?

O Medo

Exactamente esse, O Medo de “AL Berto”, e sentimos o tempo escoar-se, e sentimos o mar a entrar pela janela, sentamos-nos, um sobre o outro, ouvimos as melancólicas palavras que o rádio a pilhas em pequenos vómitos, lança contra o gesso doente e sujo, de que são constituídas as paredes da nossa casa, um jazigo com duas assoalhadas, perdido no murmúrio cemitério da saudade, sentamos-nos

O Medo,

Bates-me à porta, pedes-me silêncio em troca de abraços, pedes-me beijos por palavras sem destino, palavras cansadas, múmias embalsamadas, pedes-me silêncio, O Medo, perdido, achado, Sabes?

Exactamente esse, esse malandro apaixonado, esse malfadado sorriso que deixaste sobre a mesa, quando partiste, exactamente esse, bates-me à porta, desassossegas-me nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, sinto-te e sentamos-nos, sentas-te em mim, e

Eu abro os olhos parecendo um barco às curvas em despedidas paixões, precisas dos meus braços, não os tenho, perdão, levou-os o vento quando subtraído às páginas loucas de “O Medo”, tu, eu, nós

Com Medo...

Que o medo, sinto-o, amarfanho-o, e embalsamadas todas as gaivotas que os teus lábios mar deixam adormecer, nos lençóis imaginas o pôr-do-sol, nos lençóis

O Medo, cinzento, feliz, contente, tantas e tantas e tantas palavras indesejadas, tantas, tantas e tantas e tantas palavras amadas, odiadas, palavras

Com Medo

O menino,

Bates-me à porta, pedes-me silêncio, agachas-te nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, fazemos um refresco de solidão, abrimos um livro, pode ser aquele, sabes? A janela sobre o Tejo, barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus

Medos,

Os meus olhos sabendo eu que sou cego, os meus livros sabendo eu que não tenho, e nunca tive, e não quero ter

Livros?

Paixões como têm os barcos, aqueles que vejo quando abro a janela

Perdão,

Quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas ladeiras inclinadas da cidade dos anjos, e lembras-me as cidades em combustão na lareira que o amor invisível acendeu nas varandas encastradas que o Tejo come, e a noite

Perdão

E a noite consome, ressaca, dói, murcham as palavras do doente e sujo, de que são constituídas as paredes da nossa casa, um jazigo com duas assoalhadas, perdido no murmúrio cemitério da saudade, sentamos-nos, e comemos-nos

Roças o cobertor imaginário no teu corpo de plasticina, deitas-te sobre a tela branca, completamente nua, completamente branca, e comemos-nos, e dançamos abraçados a tubos de acrílico, e dançamos abraçados aos pincéis de fina estampa encaracolada os musgos embrionários dos teus seios, mamas de orvalho que a noite tanto adora, dançamos-nos, e

Comemos-nos,

Sem percebermos que lá fora, chove, sem percebermos que lá fora, Raios

O Medo,

Que lá fora, oiço os teus gélidos gemidos,

Comemos-nos,

No medo, que eu, que tu, que nós

Sentamos-nos e comemos-nos na Paz de Cristo, quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas loucas cidades de amar,

E o medo,

Que eu, com mãos e braços e boca e

Quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas

Abelhas ínfimas manhãs, que nós

O Medo,

Que lá fora, oiço os teus gélidos gemidos,

Comemos-nos,

No medo, que eu, que tu, que nós

Sejamos apenas um sonho, ou pior do que isso, que nós

Sejamos apenas um espelho perdido na paixão, roças o cobertor imaginário no teu corpo de plasticina, deitas-te sobre a tela branca, completamente nua, completamente branca, e comemos-nos, e dançamos abraçados a tubos de acrílico, e dançamos abraçados aos pincéis de fina estampa encaracolada os musgos embrionários dos teus seios, mamas de orvalho que a noite tanto adora, dançamos-nos, e

Comemos-nos.



(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó


29.12.12

Deixo as tuas verdes asas

incendiarem-se nas palmas mãos do silêncio vulcão

que o amor provoca nas janelas com coração

e braços de mar

as imagens de navegar

dentro dos olhos amordaçados

que o livro provoca nas palavras sem destino

e que não regressam

nunca

nunca mais

aos teus cabelos de Primavera

nunca mais,

 

Chora o pobre menino

das raízes desenhadas na areia fina de Dezembro empobrecido

a garganta murcha

e a saliva dissocia-se dos mendigos peitos de alecrim

que ela poisa sobre os lençóis de tecido bordado em noites de insónia

batem

à porta

batem à porta as mãos do silêncio vulcão

que o amor em amordaçados desejos

e abraços lábios

sufoca

sobriamente os candeeiros pintados de preto no centro da cidade.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó


28.12.12

Ínfimas películas de tristeza que o vento trazia, adormeciam, depois, sobre as águas dilatadas que a nuvem número três deixou escorregar sobre o oleado que cobria o grandioso espectáculo de circo, famosíssimo pelos seus artistas, nacionais, e internacionais, trapezistas, malabaristas, e os afamados palhaços, curiosamente recordo-me quando me sentava numa cadeira de plástico, ainda ninguém tinha entrado, e eu,

Deliciava-me com a solidão do espaço circular que brincava à minha volta, cruzava os braços, ele, e docemente colocava a sua cabeça no meu ombro esquerdo, eu, eu sorria, e desacreditava-me que seria possível encher todo aquele espaço, e minutos depois

Ouviam-se os disparatados sorrisos dos pequenos cães amestrados, vindos expressamente da URSS, não sei, mas a verdade é que deixei de ouvir falar dela,

Morreu,

Não sabia que os caninos tinham morrido, e ele diz-me que não, e eu, não o quê?, não, os caninos ainda vivem, com algumas atrozes, mas vivem, quem morreu foi a URSS, respondi-lhe

Coitadinha, Paz à sua alma, que mais eu lhe podia dizer, e pergunto-me a vossa confusão quando há pouco escrevo que estava só dentro da tenda do circo, ele, e docemente colocava a sua cabeça no meu ombro esquerdo, eu, eu sorria, e desacreditava-me que seria possível encher todo aquele espaço, e minutos depois

Ele desaparecia do meu imaginário, acendiam-se os holofotes da glória e da fortuna, ao longe o comboio deslizava suavemente sobre o pavimento improvisado quando da montagem dos milhentos ferros e ferros e companhia falida, aproximava-se do banco de jardim onde me sentava, sentia

Ouvia-se perfeitamente o cheiro do rio dentro das clarabóias das paixões proibidas pela loucura, das flores felizes, e infelizes, a tristeza

Aos trambolhões da nuvem número três, tempos depois, privatizada, deixou de chover, morreram todos os comboios e todos os circos e todos os jardins, ele, e

E docemente colocava a sua cabeça no meu ombro esquerdo, eu, eu sorria, e desacreditava-me que seria possível encher todo aquele espaço, e minutos depois,

Morreu,

Não sabia, sempre pensei que tinha sido privatizada,

E paz à sua alma,

Amém,

Eu

Também, respondia-lhe, morreu, vendem-se laranjas, vendem-se livros, quadros, ele

E docemente colocava a sua cabeça no meu ombro esquerdo, eu, eu sorria, e desacreditava-me que seria possível encher todo aquele espaço, e minutos depois

Fingia que eu era um estranho, louco, pouco, talvez dizimado pelas sombras das noites cobertas por um oleado de vidro, estrelas em pétalas azuis suspensas nas orelhas das madames à porta do cabaré, e sempre que lhe perguntava

Quem é?

Respondiam-me,

Não sabemos, não sabemos

Ínfimas películas de tristeza que o vento trazia, adormeciam, depois, sobre as águas dilatadas que a nuvem número três deixou escorregar sobre

Não sabemos,

Morreu,

Não sabia, sempre pensei que tinha sido privatizada,

E paz à sua alma,

Amém,

Eu

Também, sempre que posso, sempre que me deixam, ele

Morreu,

Não sabia, sempre pensei que tinha sido privatizada,

E paz à sua alma,

Amém,

Eu.



(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó


28.12.12

Em caso de dúvida, não hesite, e consulte

O meu médico ou farmacêutico,

Abençoados aqueles que jaziam pelas ruas de uma cidade sem fronteiras, portagens, ou

Que tem o meu médico?

Em caso de dúvida, eu não hesito, pego no telefone, com os dedos tremendo como quando de longe chegam aqui as tempestades e arrasam tudo e todos, não hesitei, marquei, os dedos fugiam-me e o telefone aborrecido, amuado, desistiu de me ouvir

Do outro lado la linha a voz de cegonha, Desculpe mas deve ser engano, Não sou, E nunca fui

Em caso de dúvida, não hesite, e consulte

O seu médico,

Pensei

Estarei enganado, ou não tenho médico, ou não estou doente, ou melhor ainda, felizmente não tenho dúvidas, que feliz tua eras antes de nasceres, enquanto brincavas nos rios infinitos da loucura encarnada, inventavas cartas de amor, que quase sempre

Pensei

Nunca chegavam ao destino, sem destino, o menino, a menina, pensei

Em caso de dúvida, eu não hesito, pego no telefone, com os dedos tremendo como quando de longe chegam aqui as tempestades e arrasam tudo e todos, não hesitei, marquei, os dedos fugiam-me e o telefone aborrecido, amuado, desistiu de me ouvir

O seu médico ou farmacêutico, e dou-me conta que nem tenho um nem tenho o outro, apenas um, um miserável esqueleto com duzentos e seis ossos, bicos de papagaio, pedras no rins, dois parafusos soltos na cabeça, uma roda dentada com os dentes quebrados e em lista de espera no dentista, como tantos outros, à espera

Deseja alguma coisa?

Respondia-lhes, pensei, é melhor ficar calado, respondia-lhes que não, não preciso de anda obrigado, está tudo bem, estou desempregado, sem trabalho, sem dinheiro, literalmente fodido, mas felizmente que estou bem e não preciso

Em caso de dúvida

O meu médico ou farmacêutico,

E eu hesitei, cansei-me, deixei de pertencer à lista dos disponíveis, sou um zumbi, uma sombra que olha o Tejo, e vê barcos de papel com flores no cabelo, rosas, em lista de espera, as listras pintadas de fresco

Cuidado, não pisar,

E

E eu

Pisei,

E

E eu

hesitei,

Até que uma alma caridosa me meteu dentro de uma caixa de madeira, tapou-me com um cobertor em segunda mão, e

E

E eu

Pisei,

E

E eu

hesitei,

E deixei de ser um cadáver em putrefacção, e sou feliz.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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