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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


28.02.13

Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,

(acreditei que o seno ao quadrado de alfa mais o co-seno ao quadrado de alfa o resultado é um, incrível, como se a tangente de trinta graus não fosse raiz de três sobre dois),

Dir-me-ás que o triângulo isósceles do segundo esquerdo é loucamente apaixonado pelo triângulo equilátero do rés-do-chão frente, e que são felizes, diria até

Muito,

E tal como o triângulo rectângulo do quinto direito ama loucamente o triângulo isósceles do quatro esquerdo, a hipotenusa ao quadrado é igual à soma dos quadrados dos catetos, e também eles, apaixonados pelo perímetro do círculo com o raio igual à paixão, e se

A paixão ao quadrado é igual ao amor, logo

Qual será a raiz quadrada da paixão?

Não sei nada dessas coisas, tal como nunca percebi o silêncio dos nossos vizinhos que se amam loucamente e têm medo de o assumir, palhaços e palhaços, dentro de um circo denominado tesouro absorto das palavras proíbas, custava-lhes dizerem ou escreverem ou simplesmente no átrio da escola com um ripa de madeira, desenharem na terra húmida

Amo-te Teresa,

(o autor deste texto não ama e tão pouco conhece fisicamente uma Teresa, e é apaixonado por triângulos rectângulos e círculos de luz)

Amo-te Teresa, e enquanto ele escrevia na parede lateral esquerda do átrio da Igreja Matriz, não sendo ela, a matriz, nem quadrada, nem diagonal, nem outra coisa alguma

(apenas o devaneio de um louco que julga ter piada com as porcarias que escreve)

Apareceram treze linda flores de nome Teresa,

Nunca acreditei que no jardim do amor existissem tantas e lindas

Figuras geométricas,

Complexas coxas, finíssimas fronteiras de carne e osso, da pele, escurecida como a água depois de cair a noite sobre o mar, libertava-se um distinto livro de poemas com pétalas vestidas de cubos e hipercubos

(E se eu em vez de amar uma Teresa amasse um hipercubo?)

Com madeixas triangulares, e percebi que ele resolvia as equações do terceiro grau como se elas fossem simples flores, pertences ao jardim do amor, e mesmo assim, elas, elas acreditavam que

(Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,)

Quando se cai nos braços de uma Teresa qualquer; Cravo, Rosa, Crisântemo ou outra qualquer figura geométrica.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


27.02.13

Uma rua fina e escura levar-me-á até ti, acredito eu, depois a manhã clareá e iluminar-se-á de gotinhas de orvalho, bolas de fogo e réstias de plantas carnívoras como antes de chegarem as palavras do livro destinado ao empobrecimento da floresta, por cada árvore uma andorinha, uma andorinha dorme ao som dos enclaves solstícios que da parede em gesso da sala de jantar sorriem, como sorriam, antes de partires, as poucas lâmpadas que sobraram do naufrágio nosso querido corredor de arreia, foi-se a maré sabática como os perfumes das outras rosas, as falsas, de papel, e depois

Embalsamadas e exportadas para dentro do teu peito,

É isto o amor cansado nas tardes de Inverno, de uma lareira vêem-se os olhos teus comestíveis como os grãos de pólen dos doces lábios da poesia, e se eu te pedisse

Escrevias-me um poema?

Não, claro que não, nunca, nunca escrevi poemas, nem palavras, nada, rigorosamente

Nada,

Muitas

Nada debaixo da tua saia de chita com borboletas azuis,

Muitas outras e algumas são mulheres, entre pilares de sémen e vigas encastradas nos púbis dilacerados das noites vagabundas, descobri, e talvez já o soubesse, que a nossa lareira apaixonou-se pelas chamas incandescentes dos pedaços de oliveira que iluminam as nossas, e sabíamos

Nada,

Que iluminam as nossas mãos quando os pedestais dos arbustos complexos e outras vezes, maldosos nos pensamentos, uma rua fina e escura, levar-me-á até às encostas latejantes do xisto metafisico, só, completamente só, como as tuas pernas antes de eu as acariciar invisivelmente dentro das sombras do néon com sabor a morango, e lá fora

Gemes,

Gritas como os fios de arame que suspendem a velha videira do extinto orgasmo literário,

Sou assim, dizes-me enquanto te dispo no silêncio dos poemas de AL Berto, e detesta-lo, como eu odeio os pinheiros ranhosos dos montes vadios, como as pedras, o sol que mergulhará nos seixos onde poisam os teus seios de espuma, e acredita

Nada,

Me excita como as luzes submersas de uma tenda de circo,

Nada,

Como procurar-te nos cubos de gelo estacionados ao fundo da rua fina e escura, como os lençóis com que te cobres nos infinitos sótãos de chuva, odeio-te escrevias-me nos braços também eles finos, e tal como a rua, escuros, sombrios, distantes, adormecidos, mortos, malvados ruídos das ranhuras que as livrarias provocam nas ocas cabeças de gesso onde está suspenso um crucifixo de madeira banhado a oiro, e sorris-me pela vigésima vez, como a primeira, fotocópias e fotocópias e fotocópias, eu

Tento parar os ruidosos sussurros das Madames em Flor, e não admira que o autoclismo tenha deixado de funcionar, o autocarro engasgou-se num buraco rendado no pavimento atropelado pelas rimas dos versos quando lá dentro, da casa voadora, uma laranja sobrevoa as teias de aranha dos aclamados uivos que os vidros e os cortinados desenham na cidade do lixo, e dançavas embrulhada nos braços de aço do comboio enferrujado entre sílabas clandestinas, de rio em rio, pela primeira vez sorrias-me dançando sobre nós uma penumbra acetinada de papeis diversificados, nas cores, nos sexos, nas bocas antes de entrarem nelas as grandessíssimas aldrabices do cigano com estabelecimento comercial num dos arruamentos transversais da rua fina e escura,

E nada,

Muitas

Nada debaixo da tua saia de chita com borboletas azuis, e ouvíamos o mar nas distantes laranjeiras dos montes solidificados pela bruma, pela espuma, pela

Nada em ti que me sirva, a não ser, os malditos telhados com estrelas cinzentas que os cigarros multiplicavam na ardósia pendurada na mangueira abandonada, lá fora, no velho quintal da casa em ruínas, só, só como eu

Como tu,

Sentados sobre esqueletos de livros, e saliva dissipada pelas tristes palavras de ontem, só como eu, como tu, sem sabermos como explicar aos transeuntes da rua fina e escura, que o amor, entre nós, sempre

Muitas,

Existiu como existem as noites de chuva, de frio, neve, e calor chamado prazer, ou

Húmidas estátuas de arame,

Na tua cama acorrentada aos grandes blocos de granito da montanha dos sonhos...

Pela tua fina mão em anéis de prata.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

 


26.02.13

Não saberia esquecer-te se eu pudesse recordar-te, saciar-me com a tua boca quando nada alimenta as manhãs de Inverno, eu, invento o tempo, o dia, desenhando a noite no teu corpo ensonado, procuro-me misturando a insónia com os delírios das palavras incandescentes, húmidas quando derretidas nas planas pistas de veludo onde dormes eternamente, e esperas-me, e escreves-me livremente nas paredes da solidão liquefeita, e uma asa de papel vai esconder-se dentro de uma nuvem de prazer,

(começo a não perceber o que escrevi apressadamente num pedaço de papel sobre os joelhos),

Esqueço o orgulho, escondo a tristeza, pego no telemóvel e marco o teu número, uma voz de chocolate diz-me que...

O número que marcou não se encontra atribuído,

E eu, começo, a cada milímetro que me aproximo do rio, a acreditar, a acreditar que afinal

Nunca exististe, tal como eu, que pertenço aos assombrados murmúrios das distantes letras de sabão, inventaste-me louco para te distanciares de mim, inventaste-me a miserabilidade pela mesma razão da loucura, e depois queres fazer-me acreditar

Que a lua é quadrada, que as pedras são as lágrimas das estrelas, e que o mar, e que o mar vive num buraco com grandessíssimas hélices de vidro, como o amor, clandestino, debaixo de uma árvore, ao lado da árvore vive uma casa, dentro da casa uma mulher com cabelos de vento, e dentro dos cabelos de vento

(começo a não perceber o que escrevi apressadamente num pedaço de papel sobre os joelhos), o número que marcou não se encontra atribuído, e depois querem fazer-me acreditar que a noite é negra, que as cidades têm ruas sem saída, e que nas calçadas habitam pedaços de cartão onde se embrulham homens, mulheres, crianças

Pode lá ser possível,

E dentro dos cabelos de vento uma gaivota com lágrimas de Primavera traz-nos livros que o cacilheiro náufrago derramou sobre o Tejo, poemas, frases, palavras sem nexo como as árvores do quintal de Carvalhais, coisas, poucas, algumas, o sangue derramado na secretária imaginária que a mulher com cabelos de vento

Dentro da casa, uma cadeira, duas mesas de madeira, dois tristes corações com lâmpadas de halogéneo, do electrocardiograma nada a salientar, normalíssimo, o RX pulmonar apenas algumas sombras, provavelmente devido ao dia com alguma nebulosidade, como as janelas quando vêm as marés de azoto e roubam do parapeito os discretos vasos de cerâmica, (Nunca exististe, tal como eu, que pertenço aos assombrados murmúrios das distantes letras de sabão, inventaste-me louco para te distanciares de mim, inventaste-me a miserabilidade pela mesma razão da loucura), e hoje apetecia-me um Sábado louco sobre a mesa de uma cave no interior de uma ruela escura, suja e imunda, como os navios regressados de ontem,

Perdi-me nas clareiras tuas faces pontiagudas, e dos alicerces teus lábios, uma corrente de aço não me deixa aproximar, e quando me perguntam o que tenho a declarar, respondo

Nada, Excelência, apenas que se faça justiça,

E assim foi,

(Não saberia esquecer-te se eu pudesse recordar-te, saciar-me com a tua boca quando nada alimenta as manhãs de Inverno, eu, invento o tempo, o dia, desenhando a noite no teu corpo ensonado, procuro-me misturando a insónia com os delírios das palavras incandescentes, húmidas quando derretidas nas planas pistas de veludo onde dormes eternamente, e esperas-me, e escreves-me livremente nas paredes da solidão liquefeita, e uma asa de papel vai esconder-se dentro de uma nuvem de prazer),

Qual será a raiz quadrada do AMOR?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


25.02.13

Das raízes dos teus olhos, há o vento campestre, triste, e ausente, há as campânulas de silêncio embainhadas nos sabres lentos da insónia, há, havia ontem palavras por escrever, escritas depois da montanha em sonolência começar a descer, a descer, a descer como descem os corpos embalsamados que poisam nos jardins sem secretismos lábios em beijos, ou

Os nossos delírios anseios,

Os bolos de chocolate sobre a mesa na sala, deixamos de ter iluminação artificial, por opção própria, a mesa espera pacientemente pelo regresso dos convidados ossos com chapéus de pólen, uma criança, a filha da Alice, insignificante sorriso com espinhas e restos de morango, ela dança, ela está alegre, e porquê?

Apenas

Talvez

Ainda não percebi se o faz por ser louca, indesejada, ou, ou porque amanhã vai receber das mãos do tio Augusto um livro de COLETTE “GIGI”, está lindíssima a mulher da capa a olhar para as janelas? Da cidade em desalinho, a elegância das palavras, dos sons, dos automóveis camuflados de ervas daninhas,

(não sei se conseguirei sorrir depois de ler o jornal)

Uma tristeza em desenhos alicerça-se no meu peito, uma mulher com cabelo preto e lábios elegantes, lança-me um corda com inúmeros nós, muitos, infinitos, como os anzóis que o rio come e depois acordam debaixo das pedras pintadas de fresco

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”

Distraidamente, sempre eu distraidamente, sento-me no alegre banco de jardim acabo de nascer, as ripas de madeira como se existisse entre eu e elas um pedaço papel-químico, transportam-se para as minhas agastadas calças de ganga, velhíssimas, e robustas, como os petroleiros que atravessam o Tejo e depois acabam por se esconder num qualquer bar de uma ruela inconsciente da Lisboa perdida numa simplificada folha de papel, queixavas-te dos sons nocturnos das asas em voos rasantes das gaivotas embrulhadas em fome, sede, e falta de dinheiro,

Ouviam-se os sucessivos suicídios dos cigarros de enrolar contra os rochedos,

Como as árvores quando desistem de viver,

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”, (NÃO SEI SE CONSEGUIREI SORRIR DEPOIS DE LER O JORNAL), e ela acredita na ressurreição,

GIGI olha-nos, GIGI grita-nos, GIGI deita a cabeça no teu colo construído de verdes e iluminados pensamentos como uma candeia a petróleo que encontramos dentro da parede da cozinha, quando, alguns meses antes da nossa partida, no interior da espessa parede de xisto ela esperava pelo teu sorriso, e pergunto-me

Porque todos e todos necessitam do teu sorriso apenas meu? (saberá uma rosa o que é o amor e o quanto ele é fodido?), e

E,

(Das raízes dos teus olhos, há o vento campestre, triste, e ausente, há as campânulas de silêncio embainhadas nos sabres lentos da insónia, há, havia ontem palavras por escrever, escritas depois da montanha em sonolência começar a descer, a descer, a descer como descem os corpos embalsamados que poisam nos jardins sem secretismos lábios em beijos, ou), ou GIGI transformar-se-á em estrela de luz com olhos de papel de muitas cores, ou, eu, com mandíbulas de aço inoxidável roubo a lua

Ofereço-te-a,

Ou

E,

Peço aos trapezistas das noites ausente de ti, e procuro-me dentro do teu corpo liquefeito, que a fórmula da paixão escreve-se nos muros finos e altos entre os edifícios da cidade velha, há ruas com reumatismo e ensonadas com pingos de asma, há ruas com dores diversas nos diversos ossos em diversas noites, de diversos dias, quando as semanas se escoam como líquidos termodinâmicamente estáveis, e sinceros na esbelteza das asas de cartolina de uma mulher escondida numa das ruas anteriormente descritas, como as ratazanas, e há ruas como há pássaros, há crianças como há cadáveres, na minha nossa velha cidade com telhado de areia,

E procuro-me no interior de um círculo de coxas com cubos de púbis, geometricamente a manhã acorda só para nós, mas ambos sabemos que a falsidade habita no exterior de uma janela de vidro, sobre um telhado de zinco, no quinta juntamente com pedaços de capim, húmidas pedras em húmidos orgasmos entre as palavras e os desenhos pintados nos teus seios de amêndoa,

Ou

E,

“CUIDADO – PINTADO DE FRESCO”,

(E procuro-me dentro do teu corpo liquefeito, que a fórmula da paixão escreve-se nos muros finos e altos entre os edifícios da cidade velha, há ruas com reumatismo e ensonadas com pingos de asma, há ruas com dores diversas nos diversos ossos em diversas noites, de diversos dias)

Como o amor das rosas em papel.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


25.02.13

Procuro-me dentro de ti

como se fosse uma simples fatia de bolo

penso nas indecisas chamas da lareira acesa

e entre nós

começam a sorrir as acácias e os crisântemos

e cada pedacinho de mim

saltita como uma gota de água

em prazer

deslizando na tua pele

e sinto-me em perfume

dentro do teu corpo

como a fome insaciável das tuas mãos de seda amanhecer.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


24.02.13

Hotel da Torre. Novembro de 2004.

Abro a janela, é madrugada e não vejo o sol, fumo os meus primeiros três cigarros matinais, um ritual que eu acreditava que só terminaria quando eu morresse, até ao momento não morri, e perdi o ritual dos três cigarros, como perdi tantas outras coisas, ao longe oiço o soluçar do Tejo quando é invadido pelos olhares dos mendigos, descem alguns automóveis a pequena calçada até ao jardim, está escuro ainda, dormes, embrulhada num lençol branco bordado a rimas com sabor a saudade, volto a olhar através da janela, os poucos automóveis, as poucas pessoas, as poucas gaivotas, de um Sábado de Novembro, começam vagarosamente a acordar, de soslaio olhas-me e perguntas-me

Que horas são, meu querido?

Finjo estar também a dormir, encostado à paisagem, e respondo-te que são cerca das sete horas e que o dia está lentamente a acordar, só e triste,

Viras-te de encontro à sombra ténue da projecção da vidraça na parede do quarto, deixas, lentamente, cair a cabeça sobre a almofada de areia que trouxemos do mar, e voltas a adormecer, docemente, como as nuvens que se avizinham, e que repentinamente estão sobre nós,

(preciso de dizer-te que será a última noite nos teus braços),

Covardemente não o faço, não o digo, e vou acendendo os cigarros últimos que restam dentro de uma caixinha de madeira, deixar-te um bilhete sobre a mesa-de-cabeceira? Nunca o faria...

Uma picareta se sonho invade-me e absorve-me, encerro a janela, e de um duche rápido, desço as escadas e apronto-me para mais um dos meus rituais, os meus dois primeiros cafés do dia, um Sábado de Novembro, triste, encharcado com as plumas da noite anterior que aos poucos tinha terminado, e eu sabia-o, e eu sempre o soube

Que era o último Sábado de Novembro,

E fique sentado numa mesa de café a olhar a luz ofuscante do começo de uma manhã entristecida, cansada, e sem vontade de regressar ao Hotel da Torre, mas regressei, e depois despedi-me da tua eterna sombra no meio de um feira de velharias, disse-te adeus, e apeteceu-me comprar um chapéu dos militares da antiga URSS, não sei porque o não fiz.



Belém. Setembro de1971.

Do outro lado da margem, sentado no chão e de pernas cruzadas, um militar vestido com roupa civil fumava cigarros e olhava longínquo o rio acabado de adormecer, começava lentamente a descer a noite sobre uma Lisboa escura, triste, uma Lisboa onde os machimbombos se chamavam autocarros, onde tantas outras coisas se chamavam tantas outras coisas, uma Lisboa à espera de um miúdo com hábitos de brincar debaixo das mangueiras, um miúdo que acreditava que os papagaios de papel eram jangadas de vidro com ventosas para as mulheres (crescidas) colarem no pescoço, um miúdo, um miúdo encavalitado nas grades de um navio prestes a encostar-se ao Terminal de Cruzeiros da Rocha de Conde de Óbidos, um miúdo dentro de uma caixa de madeira com destino aos socalcos do Douro,

Um miúdo com saudades do mar, e das tardes com os cheiros da terra húmida e do capim depois das chuvas.



Belém. Agosto de 1987.

Diziam-nos que a morte era um telefone com linhas cruzadas, marcava o respectivo número e do outro lado da linha, sempre, quase sempre, uma menina com voz de cravo vermelho dizia-me

Peço desculpa, mas deve ser engano,

Engano, questionava-me,

Engano como?

Se tinha sido este o número que ela na noite anterior escreveu num pedaço de guardanapo, que eu, que eu fiz questão de guardar religiosamente na algibeira, juntamente com os cigarros e o isqueiro, e as poucas moedas que sobejaram, como

Como engano?

Ouvia-as passearem-se no distante corredor, e fica na dúvida

(serão ratazanas ou estou a sonhar?)

E percebi que não estava a sonhar quando uma noite, muito avançada, regresso de um voo nocturno e vejo um camarada meu com uma ratazana espetada na ponta do cabo de madeira de uma vassoura a que tinham subtraído um pedaço de madeira, ela balançava, esguichava, estrebuchava, até que

Morreu sem perceber que a morte é um telefone com linhas cruzadas.



Hotel da Torre. Novembro de 2004.

Depois de observar durante alguns longos segundos o chapéu de um antigo militar da EX-URSS e que acabei por não comprar, pensei

Quem, imaginei um louco sempre embriagado com vodka com aquele chapéu na cabeça, pensei nos berros os oficiais também eles embriagados, pensei nos campos de trabalhos forçados na Sibéria, pensei

Não pensava,

Desculpas para me esquecer da tua partida, depois quis comprar um pequeno cachimbo de madeira, peguei nele, manuseei-o como se fosse uma peça de porcelana em risco de ruir, e com todo o cuidado lembrei-me de quantas bocas tinham aprisionado o bocal, achei um nojo e acabei por me virar para uma pilha de livros, velhos, muito velhos, depois

Pedaços de latão em imagens a preto e branco, soldados com braços de prata e línguas mergulhadas em sexos murchos quando a penumbra das sílabas entra pela janela, e

Apetecia-me esquecer-me, apetece-me esquecer

Que aquele Sábado de Novembro de 2004 nunca existiu, como nunca existiu o Setembro de 1971, nem o Agosto de 1987,



Alijó. Fevereiro de 2013

E hoje,

Não sei se algum dia existiu um cidade chamada Lisboa com um rio de nome Tejo e um local lindíssimo com o nome de Belém,

Duvido.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


24.02.13

Desenho letras no muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tenho medo, pergunto-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

Poisadas nos mamilos da sede, sem que eu perceba onde fica o bosque, e a canção que é filha do bosque, e os pássaros, e os restantes muros

Desenho letras nas tuas coxas, e tenho o medo, e a vaidade, e tenho o sentido que não sinto, e depois, sento-me sobre o papel amarrotado das tardes violentas que os segredos do Inverno inventam nas tuas pequenas mãos, tenho pena

Dos teus ínfimos dedos, esbeltos, finos, e transparentes,

Como a água dos rios sem nome, sem destino, livremente correndo até ao mar, correndo, correndo, regressando os pinheiros mansos das eternas manhãs sem vidros nas janelas que têm visão nocturna para as rochas tuas coxas, aquelas

Onde desenhas letras? Exactamente, meu amor, essas mesmo, um muro de carne e sedução, curvadas à direita, e à esquerda, embebidas às vezes, ou sempre, no desejo infinito coração com sílabas de pétalas agrestes, como os livros tristes e cansados dos homens sem nome, sem vida, sem viabilidade económica, sós, e abandonadas

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas, e algumas delas, poucas, que se escondem nas pedras pequeninas dos teus dóceis dedos de fio iluminado pelos lábios da lua, escrevo as letras que desenho nas tuas coxas, preocupo-me, muito, e pergunto-me

E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?

Gostava das tuas mãos quando me desenhavam letras nas minhas coxas, recordas-me as árvores da nossa infância, a minha, a tua, separadas por um muro alto e fino de cimento armado, eu atirava pedras para o teu território, tu, mais amoroso, atiravas-me rosas em papel, uma tarde, furiosa, eu, parti-te a cabeça com uma pedra, fiquei triste naquele momento, depois, durante a noite, sorri, sorri, sorri até que percebi o que era o amor, a paixão e as pedras não serviam apenas para partir cabeças de meninos mimados, filhos únicos, as pedras também serviam para eu perceber o que era a paixão

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas,

E,

Invejava a pontaria da avó Silvina e do tio Serafim, lançavam pedras e caiam estrelas do céu, ao revés, eu, lançava uma pedra contra uma árvore (alguém durante a noite escreveu EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989) onde brincava um pássaro, e partia o vidro da janela da escola, nunca, nunca tive jeito para o lançamento de pedras e para jogar à bola, e meu Deus, Meu Deus... quantos vidros estilhaçados, quantas espigas de milho esmigalhadas, mas estrelas, não estrelas, nunca tive uma estrela, e por quem?

(E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?),

E invejava as letras desenhadas nas coxas que fugiam como os barcos, leves, com o vento, escorregadios como lânguidos gemidos de orvalho, sentíamos as luzes dos livros embrulhados nas tristes maçãs da macieira do quintal, e subíamos pelas escadas da insónia até chegarmos ao varandim com janelas de sangue onde às vezes dormiam os vampiros, os verdadeiros, aqueles que nos chupavam o sangue antes de adormecermos, os mesmos, aqueles que nos roubaram os sonhos, e sempre belas as fotografias a preto e branco, e um dia, desceremos das nuvens, vamos calçar os sapatos com biqueira pontiaguda e com salto alto que deixamos junto ao Tejo, e talvez, e talvez sobre uma mesa estacionada num dos bares de Cais do Sodré, EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989, desça de uma árvore de casca grossa, difícil de decifrar, como as equações com integrais que resolvíamos sentados num banco de jardim, debaixo de uma...

E sobravam-nos, não poderei dizer sempre, mas quase sempre,

Letras do muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tinha medo, perguntava-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


23.02.13

Liberto-me das flores

dos espinhos em sítios distantes

como os amores

os amantes

liberto-me das pedras falantes

dos gritos distintos e ausentes

liberto-me dos corpos húmidos das manhãs de Primavera

como sempre ontem adormecia no teu colo imaginário

e tão bela

ela

dentro do aquário

como os lábios de um louco milionário...

 

Liberto-me das palavras não me pertencerem

e das asas as gaivotas enlouquecerem

liberto-me sem perceberes que sou louco e apaixonado

pelos livros com braços abraçados

e pelos livros com os olhos cansados

liberto-me da noite solitária entre o mar e o barco ancorado,

 

Liberto-me da ceia

infinita seara de mendigos com cerveja

liberto-me da cereja

dentro de um pão

que semeia

a triste ilusão

de um pobre coração

acreditando acreditar nas janelas de vidro do casarão.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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