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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.03.13

foto: A&M ART and Photos

 

Não sofro, não choro, sou uma pedra perdida sobre o muro que separa a noite, do dia, faço parte da engrenagens fronteiriça, sou o arame-farpado, as ripas de madeira onde se esconde o sol, o teu sol, meu querido, sou a lâmina de aço inoxidável, pronta a decepar as flores e as árvores, os peixes e o teu mar, não sofro, não choro, às vezes, esqueço-me, dizem-me

Deve ser da idade,

Que tenho coração, poiso a mão no teu peito e nenhum batimento, silêncio absoluto, como quando se liga o interruptor de um candeeiro, e a luz, que entre o ondulatório e a corpuscular, obviamente, demito-o

(grande General)

Prefiro a onda-partícula, obviamente

(demito-o)

E não chora ele, não sofre, não sonha e não ama, ele é um fantasmas constituído por água, carbono e restos de tabaco, e nunca

Obviamente,

Adormeceu nas vegetações esquecidas dos calendários suspensos num prego enferrujado na parede da cozinha, ele não percebe que ela, a janela virada para o quintal, deixou de abri quando a tragédia entrou naquela casa

(qual tragédia)

Grega?

Obviamente... (demito-o) como todos os incompetentes o deviam ser; demitidos, mas existe o medo, mas ele esconde-se quando regressa a noite do outro lado do rio, do local onde está sentado ouvem-se os automóveis esfomeados e apressadamente entram no esófago, atravessam em marcha lenta o estômago, e entre curvas e contracurvas, percorrem o intestino a passo de caracol, que porcaria de vida, oiço-a

(obviamente, demito-o)

Oiço-a quando procura as minhas mãos, e o trânsito entupido dentro de mim, até que a cidade se abre aos transeuntes do outro lado do rio, e alguns automóveis esperam, desesperam, até que a rua

(Não sofro, não choro, sou uma pedra perdida sobre o muro que separa a noite, do dia, faço parte da engrenagens fronteiriça, sou o arame-farpado, as ripas de madeira onde se esconde o sol, o teu sol, meu querido, sou a lâmina de aço inoxidável, pronta a decepar as flores e as árvores, os peixes e o teu mar, não sofro, não choro, às vezes, esqueço-me, dizem-me

Deve ser da idade),

Mergulha, a rua, todas as ruas, mergulham no silêncio dos peixes voadores, e claro, nunca

(tens a certeza?)

Nunca, nunca, nunca chorei, sofri, sonhei ou pretendi esconder as lágrimas que pingam dos telhados quando vem a tempestade, e me leva a solidão a que me abraço antes de adormecer, nunca, nunca percebi de que cor era o meu coração, e nunca, e nunca ela aprendeu a sentir-lhe os pequenos batimentos, os ritmos cardíacos das alfaces, e nunca

(claro que o demito, obviamente)

E nunca adormeci abraçado a uma almofada com bonequinhos bordados pela minha mãe, mas recordo-me de ver a minha irmã com um pijama e no peito, um coração, bordado pelas mãos da nossa mãe, hoje não sei onde se encontram elas, se vivas, se mortas, ou se apenas dormem sobre o muro onde me sento, deito, e finjo chorar, porque não choro, nunca chorei, nunca sofri, e dor..., só me recordo da dor física, porque o coração é uma máquina, propriamente, uma bomba mecânica, com válvulas, com tubos, com engrenagens, e apenas bombeia sangue

Não inventa palavras, não guarda imagens, não fabrica sonhos, só... bate, bate, bombeia, enquanto o tempo-espaço mergulham num campo de barracas, uma feira de antiguidades, protegidas pelos silêncios do rio, e quando eu acreditava que o trânsito tinha cessado,

(as saudades dos triciclos de madeira)

Não cessaram nunca, e apenas bombeia sangue até que um dia cessam os cortinados de aranha da noite despedida pela paixão, e também nunca me apaixonei, como as pedras como eu que vivem sobre os muros dos campos, brincam com os sorrisos do rio, brincam com os olhos das pontes metálicas, ou de pré-esforço, e de vez em quando, vem um pássaro de nome saudade, poisa sobre mim e segreda-me

(obviamente, demito-o)

E hoje, dizem que sim, e hoje, dizem que sim.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


31.03.13

foto: A&M ART and Photos

 

Grandes silêncios dentro de nós

e ventos e marés

como sorrisos de poeira aos lábios prometidos

tantos versos e tantas gargalhadas

na cidade da escuridão,

 

Tantos sonhos e palavras

mergulhadas nas sombras da saudade

tantos e tantas e tantos corações acorrentados

sozinhos e tristes

doentes e abandonados,

 

Tantos e sós

grandes silêncios dentro de nós

planícies imensamente longínquas nos olhos da noite

da boca da de uma louca abelha

tantos meus Deus,

 

Tantos sofrimentos disfarçados de dor

de chuva

em flor

tantos e sós

dentro de nós,

 

Silêncios correndo no peito da morte

tantos e sós

os poucos meninos sentados na areia

saltitando como pétalas

brincando tristes e sós os silenciosos pés...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


30.03.13

foto: A&M ART and Photos

 

Habitas nos fantasmas candeeiros de porcelana

e não saberás nunca

o nome verdadeiro do ciúme nocturno

habitas e desfazes-te em sorrisos de areia

habitas nos corpos poisados sobre os cais de madeira,

 

Habitas dentro do prazer

como as abelhas mergulham no pólen da madrugada

habitas na saudade

e nas ervas miúdas que brincam nos quintais de papel

à beira-mar,

 

Um livro eterno submerso nas lágrimas do céu da boca

e tu habitas no transformismo das palavras mortas

pelas línguas de prata

como uma pirâmide escondida no deserto

com os braços alicerçados aos lábios do desejo,

 

Habitas no meu corpo

desarrumado

e cansado

habitas nos textos que escrevo

e nos poemas com as palavras prisioneiras na húmida térrea,

 

Habitas fingindo que sonhas no meu peito

corres e corres e corres pelo corredor do silêncio

como se fosses uma criança sem nome

ou uma flor sem cor

ou... uma mulher de sombras que habita nos túneis da solidão...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha


30.03.13

foto: A&M ART and Photos

 

Sou uma acorrentada, entre imagens e letras penduradas nas árvores em Primavera, sou uma barcaça sem velas, leme, sem nada para navegar, sou uma prisioneira das tardes de Sábado, quando o mar selvagem entra no meu coração despedaçado, como migalhas de trigo, depois do pão recesso que os dias lançam nos rochedos dos sonhos sem os verdes olhos do calendário da saudade, sou

Uma virgem encapuçada quando desce o Agosto das longínquas praias mergulhadas em incenso e em cartas de amor, devolvidas ao remetente, sou uma feliz prisioneira, à tua mão acorrentada, sou, uma, sou uma imagem escura, penumbra, fria, hoje, quando do ontem regressavam as algas dos rios onde dormias, e eu te esperava, sentada sobre a mesa da sala, de livro na mão, e com o candeeiro apagado, vivíamos em escuridão para afugentarmos os fantasmas das asas de papel, quando os Sábados

(ninguém regressou de lá)

As palmeiras diziam-se cansadas de balançar nas tardes de verão, e um vento ténue abraçava-nos enquanto escrevíamos poemas sem nexo, que ainda hoje vivem dentro de uma caixa de cartão,

(ela fugiu)

E o vento cessou de bater nas vidraças endiabradas, pareciam almas em corpos putrefactos, regressados do abismo, descíamos a calçada e sentávamos-nos sobre os finos paralelos do desejo, havia sempre uma flor que te esperava, meu querido, havia sempre uma

(Clarissa – Érico Veríssimo)

E havia sempre uma claridade no teu olhar, meu querido, e havia sempre uma nuvem azul com tempestades cinzentas, e havia sempre, meu querido, sempre, havia, havia sempre uma nuvem azul na tua boca, e sempre, havia, e havia sempre um silêncio de espuma nos teus lábios,

E

(the Sea)

E, hoje sei que o mar dormia nos teus bolsos, hoje, sei, hoje sei que o pôr-do-sol acordava porque os teus cigarros assim o determinavam, e eu não percebia, e eu, não sabia, que o mar, que ele e ela era tão importantes para ti, como a corrente que me prende ao teu peito de areia, e

(começaste a gostar de AL Berto por minha causa)

E hoje, hoje sinto que a corrente de aço que me aprisiona a ti, meu querido, começa a desmoronar-se, como as flácidas rugas do teu rosto de barro, e hoje

(the Sea)

Hoje (sou uma acorrentada, entre imagens e letras penduradas nas árvores em Primavera, sou uma barcaça sem velas, leme, sem nada para navegar, sou uma prisioneira das tardes de Sábado, quando o mar selvagem entra no meu coração despedaçado, como migalhas de trigo, depois do pão recesso que os dias lançam nos rochedos dos sonhos sem os verdes olhos do calendário da saudade, sou) sento-me nas clarabóias poisadas sobre os telhados da cidade, e a cada pássaro que passa, peço-lhe perdão, peço-lhe que me traga novamente o mar emaranhado de algas, pedras, lodo, e os teus braços que ficaram apodrecidos como o casco do velho barco de esferovite, e hoje, hoje penso em ti como uma nuvem azul perdida sobre o Oceano...

(perdi as tuas cartas)

Como verbos suspensos no céu nocturno da saudade.



(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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