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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

O absorto corpo teu imaginado pela louca espuma do mar,

há no silêncio pardas palavras e sons melódicos, ou tristes... há no silêncio os poéticos sonhos da ejaculação precoce,

o absorto corpo que mergulha na minha mão, não existe, não chora... e não grita,

o silêncio reparte-se sobre as pedras calçadas do abismo...

e o salário do poeta bebe-se nas almofadas coloridas que as nocturnas noites deixam sobre a pele...,

sei,

o absorver-te enquanto uma varanda balança na tempestade madrugada que da boca saciada acorda quando os electrões da cidade correm em direcção aos rochedos teus abraços,

sei, agora..., sei que as tuas janelas são tão frágeis como as finas folhas em papel onde invento desenhos sem palavras, as descoloridas manhãs, os cortinados doentes que deixam o sorriso do Sol atravessar a negrume sílaba da canção da saudade,

sei que te queixas do alienado coração de gelo,

das nuvens com olhos envernizados,

dos tapumes que não te deixam observar o meu corpo... o absorto corpo teu imaginado pela louca espuma do mar...

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014


30.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Engasgo-me nas palavras tuas das comestíveis ausentes marés do Inferno,

oiço o telintar da janela em fervor, depois, as pétalas cinzentas desgovernam o leme da tempestade,

a saudade existe?

pergunto-te se me ouves quando adormeço nos teus finos ombros de colmo... e sinto na tua pele o desejo indesejado do sofrimento,

o cansaço da tua voz,

o vento da nuvem de gelatina que sobrevoa a tua triste cama,

oiço...

finjo pertencer aos cadáveres invisíveis como esqueletos fotográficos em fina prata,

o livro de ti como eu, ambos esquecidos no oitavo andar das árvores de copa gaguez...

engasgo-me nas palavras, fumo os cigarros embebidos em alfinetes de pura lã virgem,

e...

e dizem-me que do outro lado da rua, uma criança brinca, passeia... pega na rosa dos teus lábios,

sente-se o beijo,

sente-se a tua mão pasmada sobre o silêncio da alvorada,

e do nu teu corpo,

e do... e do nu teu corpo alguns ossos desistem de sonhar...

e tu,

tu acreditas na saudade, no Inverno, e tu... acreditas nas sandálias de corda... e tu...

… e tu dizes-me...

- Amanhã, num pedaço de papel, deixo-te a minha dor.

 

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014


29.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Metade de mim parece uma equação desgovernada,

uma integral sem solução...

metade de mim poderia ser uma matriz composta,

esquecida no centro da cidade,

metade de mim,

um pedaço de saudade,

um beijo com sabor a madrugada,

metade da metade...

de mim,

metade de mim as vãs palavras derretidas no jardim,

procurando a outra metade,

de mim... assim... a outra triste metade suspensa nos teus lábios de alecrim.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014


28.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Um relógio de pulso abraçado à mágoa dor,

a derradeira espera quando tudo à sua volta parecia voar como lençóis de água-doce,

queixava-se dos cortinados,

da cor aberrantes das paredes do corredor...

queixava-se da ponte em aço quando balançava com os beijos deles,

entre bocas remexidas,

convexas medalhas de prazer nos lábios da solidão,

um...

um relógio em paixão,

voando e dançando e sonhando,

um... um relógio de pulso... pulando os xistos muros do prazer,

hoje... percebi o que são palavras amorfas, doentes, palavras... palavras só minhas,

 

(palavras apenas escritas no meu corpo... e lidas,

e lidas pela tempestade do medo...)

 

Um relógio de pulso à janela do cansaço,

ouvíamos o vento entranhar-se nos orifícios das folhas em granito,

às lápides...

… às lápides as eternas fotografias tuas...

e dançávamos debaixo dos coqueiros,

davas-me a mão,

levavas-me até ao mar...

ai... ai o mar,

o relógio que escondeste na mesinha-de-cabeceira,

os óculos mergulhados em finos vidros de infestadas pétalas de ouro amedrontado...

e dos teus livros... tenho o cheiro do silêncio embrulhado em sílabas pinceladas com pedaços de amor,

e... e um relógio de pulso abraçado à mágoa dor.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

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