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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.07.14

Esta arte,

Este povo no pedestal da saudade,

Dizem-me que há um desejo em tempestade,

Uma mulher que arde,

Uma mulher que arde… arde na lareira da vaidade,

 

 

Esta arte,

Estas cores pinceladas de veneno,

O beijo que assombra a árvore no vento ameno,

Uma mulher que arde,

Arde… no meu peito sereno,

 

 

Esta arte,

Este povo que teima em não se revoltar,

Dizem-me que há no mar,

Uma mulher que arde,

Arde… arde sem vontade de regressar,

 

 

Esta arte,

Que o meu corpo consegue transpirar,

Esta arte que não respira nas noites de luar,

Que arde…

Que arde… que arde sem parar,

 

 

Esta arte,

Que os musseques alicerçam ao cais dos afogados,

Meu povo… meus coitados,

Esta arte que arde…

E não vos deixa sossegados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014


29.07.14

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

vós, minha Senhora,

odiais-me...

pareceis, hoje, uma alminha,

denegrida,

deitada na madrugada,

 

Desejastes-me Senhora,

nas mansardas de Belém...

fazíamos amor olhando o rio,

triste, e habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

à janela,

os cigarros semeados numa casa amarela,

fumegavam, e gritavam... e gritavam... esta Senhora é bela,

bela Porcelana,

que rica Porcelana... ela!

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

O poeta é um fotógrafo de palavras,

um pintor de caricias e medos,

o poeta é... o poeta é um escultor...

molda, molda o corpo da minha Senhora bela,

do granito embalsamado...

que olhando outro rio,

não triste, não habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

vive como um coitado,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

E ainda guardais dentro de um livro uma envelhecida flor,

 

Não morreu o poeta, não morreu a minha Senhora bela...

mas... mas morreu o amor,

 

E morreu a casa amarela.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 29 de Julho de 2014


26.07.14

Há um beijo desgovernado,

há uma planície na frescura dos teus lábios,

um livro que arde, um livro que desiste de amar...

há silêncios com sabor a amanhecer,

olhares desatentos, olhares... olhares suspensos nas pálpebras da solidão,

há uma mulher com asas de papel na varanda do terceiro andar,

não chora,

não... não olha para ninguém,

há um beijo desgovernado,

uma manhã prisioneira que teima em acordar,

há um veleiro perdido no mar,

onde habita o marinheiro amor,

 

Há um corpo que procura os rochedos da dor,

e finge ser a preia-mar, e finge ser a cidade inacabada, sem braços, sem mãos...

sem... sem madrugada,

 

Há uma planície na frescura dos teus lábios,

um rio que desce a montanha sem perceber o significado da paixão,

há peixes assassinados,

peixes... peixes coloridos no cansado coração,

há um terceiro andar, e há uma rua com cabelos de oiro,

uma eira esquecida nas noites de luar,

uma estrada,

o livro que arde, e não sente nada,

há... há uma mulher... há uma mulher amada...

sem o saber, sem o sentir,

há um beijo,

um beijo que não sabe sorrir...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 26 de Julho de 2014


25.07.14

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

Sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

puxo de um cigarro,

e finjo ver o mar a regressar da sombra das mangueiras,

as pequeníssimas películas de cacimbo alicerçam-se aos meus dedos,

ao longe, mulheres... e fogueiras,

e missangas de medos,

saltitando nos braços cansados de um esqueleto de papel,

oiço o bater fulgurante do zinco conta a solidão de um menino chorando,

 

Um dia a guerra o levará,

sua mãe morta rezará no altar da areia branca do faroleiro de pedra,

os meus dedos minguam quando um cadáver de insónia poisa no meu cigarro...

e espero... e não regressa o mar,

desce um corpo de prata dos coqueiros envelhecidos,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

e adormeço sem me apetecer,

 

Em criança brincava com silêncios e um velho triciclo em madeira,

acreditava nas flores,

acreditava que um dia..., que um dia voava como os pássaros,

envelheci, e o meu cigarro terminou quando um paquete de rebuçados atracou em mim,

transeuntes com pesadíssimos caixotes em madeira,

choravam...

e círculos de espuma saltavam à corda no cais dos caixotes em madeira...

perdi-me, e hoje... e hoje sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

 

O mar não regressará nunca,

 

E,

 

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

E leio sofrer!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014


22.07.14

Não te mexas,

deixa poisar o Cometa Amar na Sombra do teu olhar,

não grites,

mantém-te imóvel nos lábios do entardecer,

não fales, não... não grites,

geme no salivar nocturno que acolhe o luar,

não te mexas, por favor!

Silencia-me como se eu fosse apenas e só o teu livrinho de cabeceira,

a tua almofada recheada com seios de verniz...

o espelho do teu quarto, onde dormes, sonhas... e... e brincas...

como uma menina mimada,

escondida na madrugada,

 

Não te mexas,

fala-me, ouves-me?

Não te mexas,

acaricia o cansaço dos meus abraços com o teu cabelo de cetim,

não grites,

por favor... não sejas assim...

 

Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada,

 

Não,

não te mexas,

escreve no meu peito de xisto tudo aquilo que te apetece fazer,

sei lá eu...

também não o sei, meu Amor, mas não te esqueças de nada,

escreve tudo, escreve...

mas... mas não te mexas,

escreve em mim, desenha em mim,

o mar,

o pôr-do-sol, ou... ou a saudade,

o poema mais belos da montanha do desejo,

escreve, não te mexas, escreve... escreve beijo,

 

(Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 22 de Julho de 2014


21.07.14

Inventa-me,

desenha no meu corpo as línguas de fogo que os teus lábios libertam,

escreve-me, escreve em mim as palavras proibidas, as palavras falseadas,

invade-me,

faz de mim uma equação trigonométrica,

soma-me, divide-me… e multiplica-me,

mas… inventa-me,

no pecado mais secreto do teu olhar,

 

Inventa-me,

no silêncio das madrugadas,

inventa-me no espelho onde escondes o teu rosto…

quando poisa a noite sobre ti,

 

Inventa-me nas catacumbas da insónia,

faz de mim a sombra mais bela do amanhecer,

inventa-me,

como flor,

como abelha…

inventa-me e acolhe-me na tua colmeia,

que eu seja o mel dos teus sonhos,

que eu seja… a tua invenção,

 

Inventa-me,

faz de mim pássaro, barco… ou… ou avião,

não tenhas medo de me inventar,

não, não tenhas medo de me amar,

inventando-me,

escrevendo em mim os números primos, ímpares… ou… ou pares,

inventa-me,

inventa-me sem chorares!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 21 de Julho de 2014


19.07.14

Sábado,

a metralhadora do silêncio começa a disparar,

uma mulher vestida de negro, caminha vagarosamente para o altar,

alguém a espera, alguém a ama, e só alguém a pode desejar,

sábado,

hoje não há palavras de escrever,

hoje só uma ténue lâmina de sémen suspensa na janela da cidade com chaminés de vidro,

ela dispara, ela mata... e depois, depois cessa... depois... depois abraça-se às feridas que choram,

hoje, sábado, a metralhadora do silêncio começa a disparar...

a tarde escoa-se através de uma conduta de beijos, e há os cabelos da noite enrolados no vento,

a mulher leva um livro na mão, uma bala que lhe dita o futuro não existente,

ela deita-se sobre a lápide da solidão, e espera, e espera...

 

Espera que um coração de papel acorde da ressaca de sexta-feira,

 

Sábado,

um dia invisível,

chuvoso,

a cidade com chaminés de vidro, arde,

e sente,

os estilhaços no corpo de uma criança,

 

ASSASSINOS!

 

Sábado prometido,

hoje, hoje, hoje o que posso eu dizer...

que invento mulheres vestidas de negro?

que há metralhadoras apontadas ao meu peito?

Sábado...

ASSASSINOS!

 

Os meninos,

brincam no centro do furacão,

os calções fendidos, os calções de chocolate baloiçando nas pernas íngremes da madrugada,

e sábado..., e sábado os ASSASSINOS...

saciam-se à volta de uma mesa redonda, recheada de comida,

e os meninos, morrem,

e os ASSASSINOS... e os ASSASSINOS escondem os sobejantes calções de chocolate,

e ninguém, e ninguém os consegue parar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 19 de Julho de 2014


18.07.14

O amor,

movimento circular uniformemente acelerado,

dois corpos prisioneiros no espaço,

três pontos os absorve,

o desejo,

o beijo...

e o abraço,

o amor,

o rio que corre para o mar...

e não mais vai regressar,

o silêncio impregnado nos lábios da madrugada,

o amor,

 

O amor desgovernado,

sem cais para aportar...

o amor de amar...

o amor, o amor submerso num triste olhar,

 

Entrelaçadas mãos,

numa cama deitadas,

o amor quando de um espelho ressaltam os pigmentos do amanhecer,

a janela encurralada na floresta,

o amor,

o amor verdadeiro, o amor... o amor sem se ver,

 

(o amor,

movimento circular uniformemente acelerado,

dois corpos prisioneiros no espaço,

três pontos os absorve,

o desejo,

o beijo...

e o abraço,

o amor)

 

O amor vestido de saudade,

o amor pintado numa parede invisível, o amor... o amor sem tempo para pensar,

as estrelas, o luar, o amor... o amor das palavras quando um túnel de vento se esquece de acordar,

o amor,

duas mãos entrelaçadas,

milhares de dedos encostados à tua pele bronzeada,

o amor, o amor de uma caravela,

correndo, correndo... correndo no pulso de uma sanzala...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 18 de Julho de 2014

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