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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.12.14

 

Acrílico 40x50_2.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Do grito cinzento do silêncio

às amarras vocais dos nocturnos desejos de pedra

ama-se um poema

odeia-se uma flor acabada de nascer

fuma-se o último cigarro

inventam-se esconderijos no corpo de uma mulher...

o relógio não cessa de chorar

o barco que transporta a solidão...

ancorado ao meu corpo desprovido de agasalho

do grito cinzento do silêncio

às amarras vocais dos nocturnos desejos de pedra

uma cova... funda... me espera!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2014

 


28.12.14

Os poemas ao fim da tarde

este mesquinho silêncio

quando entra pela janela

e lá fora

um barco em espera

esquelético

cansado

farto do mar...

os poemas ao fim da tarde

com fome de matar

a voz do teu clitóris em tristes soluços na madrugada

os poemas ao fim da tarde... são poemas de nada,

poemas... poemas de amar

o estranho invisível quadrado com sorriso de vidro

há nas palavras a força da revolta

o corpo em lágrimas

que só a cidade...

que só a cidade consegue absorver

os poemas ao fim da tarde

o vento de sémen contra uma árvore

e os pássaros dos teus cabelos

brincando na seara

entre pedras e enxadas

sempre... sempre, sempre que um relógio acorda... e ninguém sabes onde habitam “os poemas ao fim da tarde”.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 28 de Dezembro de 2014


24.12.14

Tínhamos no olhar o silêncio da noite

caminhávamos desordenadamente como dois pontos perdidos no espaço

procurávamos o invisível cansaço

que só as tardes de Dezembro conseguem alimentar

e no entanto

pegando na tua mão...

não havia luar

nem palavras na ardósia dos teus cabelos...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2014


16.12.14

 

Pintura_38_A1_Nova.png

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

há versos felizes

versos sem nome

há versos cansados

versos esfomeados quando cai a noite

há versos esqueléticos

que nem o corpo em decomposição sabe ler

versos com fome

versos vestidos de rio

cidade

e paixão

há versos desempregados

versos enlatados

(nesta cidade em combustão)

há versos conservados em papel sibilado

versos rasgados

versos…

(nesta cidade em combustão)

há versos felizes

versos sem nome

há versos cansados

que nem o tempo consegue apagar

versos de amar

revolta

versos travestidos de soldado

de espingarda na mão

à espera que se abra uma porta

às vezes sem saída

às vezes… versos em vão…

que só o vício desembrulha quando nasce a madrugada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

 


13.12.14

Sou o carrasco adeus

da sonolência saudade

tenho nas mãos o papiro

e no olhar

uma espada invisível

não percebo porque choram as acácias

e os plátanos da minha terra

não percebo porque gritam os rochedos

que se alicerçaram aos meus braços...

se eu sou frágil

se eu... se eu sou um simples fio de luz

embrulhado numa lápide sombreada,

 

sou o carrasco adeus

da sonolência saudade,

 

sou o presente envenenado

que deambula pela cidade

sento-me junto ao rio

e imagino barcos em papel

que não regressam mais...

quem parte

quase sempre não regressa...

como os comboios de areia

esquecidos no mar

sou o carrasco adeus

da sonolência saudade

… sou a madrugada antes de acordar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 13 de Dezembro de 2014


08.12.14

Não sabia que o teu nome

era apenas um nome

uma solitária palavra

sem alma

sem coração

sem... sem barcos ao anoitecer,

 

não sabia que o teu nome

era apenas um nome

sem corpo

sem sombra...

 

não sabia que o teu nome

era apenas um silêncio

sem imagens

sons

ou... ou fotografias

em constante mutação,

 

não sabia

não sabia que o teu nome

era apenas uma assombração

uma cidade esquelética voando no pôr-do-sol,

 

(Não sabia que o teu nome

era apenas um nome

uma solitária palavra)

 

como as pálpebras do poema antes de ser o poema,

 

não sabia que o teu nome

era apenas um nome

um soluço mastigado nas sílabas do Diabo...

não sabia

que... que o teu nome

é como a areia húmida

e o mar apaga todos os seus desenhos

como a morte... apaga todos os seus corpos...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014


06.12.14

Há feridas invisíveis no teu sorriso

que nem o espelho da saudade consegue desenhar,

pareces uma fotografia embalsamada,

sem alma...

esquecida num qualquer lugar,

há feridas invisíveis...

e crateras de espuma

que só as tuas pálpebras alicerçam às meticulosas palavras sem destino,

 

em ti o menino vestido de preia-mar

que corre e correr... e corre sem se cansar,

em ti e de ti...

as feridas entristecidas dos biombos nocturnos da vaidade,

 

esta cidade,

o teu corpo vagueando no sexo da paixão

como um cadáver enraivecido... fundeado no rio sombreado pelo incenso...

uma carta sem destino que te bate à porta,

um carro preguiçoso em tristes aventuras,

há feridas invisíveis no teu sorriso

que os cigarros da despedida alimentam,

mas... mas no teu olhar cessaram as lágrimas de chocolate,

 

em ti

e de ti...

 

a mentira do silêncio embrulhada na portaria

de pequeníssimos fios de luz,

o teu livro preferido que arde... enquanto se extingue o dia,

dentro dos teus seios,

 

em ti

e de ti...

 

o cansaço abstracto das montanhas de papel,

os rochedos envenenados pela noite dos marinheiros

e que tu não entendes os seus medos

e inquietações,

não me ouves... porque a minha voz pertence ao cacimbo

e do cacimbo emerge como uma lâmina de sangue,

em veias de nylon

ao deitar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 6 de Dezembro de 2014


05.12.14

Não consigo imaginar
As lágrimas de uma criança
Quando tem fome
Medo… que cresce sem infância
Não consigo imaginar
As lágrimas de um menino
Sozinho
Esquecido no centro da cidade
Não consigo imaginar…
A mãe do menino
Com medo
Com fome… sem nada para lhe dar.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014


02.12.14

Não saboreies as minhas tristes palavras de zarcão

que a manhã come enquanto dormes e finges sonhar

não permitas que entre o mar dentro de ti

e se alicerce aos teus desejos

não tenhas medo dos cortinados cinzentos

que a madrugada esconde nas pálpebras do vento

como quem morre

em sofrimento...

 

Não saboreies os meus lábios encaixotados

como pedaços de cacos e miudezas...

que galgaram o Oceano em direcção ao teu coração

não digas que a noite é uma mistura gasosa de iões e positrões...

 

Não

não saboreies os meus tentáculos de espuma

como se eu fosse uma cidade voando na preia-mar

não confundas o amor com a amizade

não

não confundas as palavras tontas com as palavras embriagadas

pelo cansaço

ou... ou pelo Inverno em desassossego,

 

Não saboreies as minhas tristes palavras de zarcão,

 

Inventa amanheceres de cartão

gaivotas de porcelana...

mas... não

não saboreies as milhas tristes palavras de zarcão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

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