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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.01.15

Pintura_55_A1_Nova.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Roubaste-me o sorriso nocturno dos beijos em flor

pegaste nas minhas palavras e transformaste-as em solitárias andorinhas

depois

trouxeste a Primavera

e o amor

do poema

de amar o poema

e sentir no peito as equações do destino...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Janeiro de 2015


28.01.15

desenho_2.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Nunca soube o que era o amor, acreditava nas gaivotas em papel da minha infância, recordo o triciclo enferrujado, o boneco estúpido que apelidei de “chapelhudo”..., que parvalhão apelidava o seu fiel amigo de “chapelhudo”, eu, claro,

As palavras misturados entre orgasmos e flores, gemidos cirílicos suspensos nas andorinhas em flor,

Eu?

Nunca,

O amor,

Poemas escritos debaixo da embriaguez

Freguês?

Nem uma modinha habita na minha algibeira, e o amor sossegado debaixo de uma mangueira, crescia, brincava e...

Nunca,

E embrulhava-se na timidez de um novo dia, e lentamente, os meus ossos alimentados pelos sulcos solitários da noite, a barriga crescia-lhe, é menino? Menina?

Freguês?

Eu, simulador de voo quando as estrelas dormem, e habita na minha algibeira uma película fina de desejo,

O que é o desejo...!

Não

Nunca soube o que era o amor,

Não pai, não pode ser,

A vida é viver, um dia, dois dias, um quatro de dia..., percebes?

VIVER...

E amar?

Não sei, meu pai, não... sei,

O frio entranhava-se-lhe nos ossos fictícios de pequenas partículas de desejo, António inventava fogueiras no olhar, esfregava as mãos como se de um reza se tratasse, mas não, a rua deserta deixava-lhe suspenso nos ombros um fino silêncio de noite, imaginava vãos de escada em cada esquina, desenhava na geada pequenos quadrados, depois, de pé ente pé saltitava como a queda de uma folha,

Um cigarro adormecia-me a alma, reclamava ele quando dois adolescentes se abraçaram a ele

E ele?

Incrédulo,

Vocês. Aqui?

Sim, pá, nós aqui,

António florescia, António corria calçada abaixo até ao rio, sorria... e regressava,

Não,

Não acredito que os meus irmãos estejam aqui, comigo, só nós,

Não,

Um cigarro, tem lume? Que não, que não,

Vocês aqui...

Meus Deus, tanta solidão, frio, fome...,

Foste tu que quiseste, ou não?

E António fulminava o irmão Miguel com as pálpebras inchadas,

Eu é que quis...!

Quase como lâminas afiadas, depois, o acordar da cidade, os primeiros automóveis do dia, depois os últimos bêbados da noite, e depois

Não, não acredito,

Os Primeiros cheiros de Lisboa,

O fumo argamassou todas as palavras... Meus Deus, vocês aqui...

O amor é uma noite escura, imagens tridimensionais vagueiam nos teus seios de Inverno, a geometria do prazer inventa-se,

E transforma-se em películas de desejo, o corpo vacila, sente a tempestade íngreme do desespero, amanhã não há madrugada, amanhecer, horas, sorrisos... e beijos,

O amor?

Uma parábola esquecida no mural de xisto junto ao rio, lá longe os barcos embalsados, aqueles que ninguém ama, quer...

Geometria, equações trigonométricas com odor a poesia

Possível

E no entanto o amor é uma noite escura, sombria, habitada pelo medo da paixão, uma rua, uma avenida... e embriagados transeuntes olhando monstras desertas, as insinuações acomodadas do dia, sentado, de pé... correndo,

Escrevo palavras para não morrer, e o amor é uma noite escura, imagens, retratos, e... e quadros desconexos,

Avenida,

Sem sentido,

Correndo

Possível?

Correndo sobre as tempestades de areia, e acordo sobre a imensidão do impossível, dos amargos lábios do poema,

Palavras,

Mortas... encaixotadas nos teus lábios...

 

 

 

(texto de ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Janeiro/2015


28.01.15

A1_039.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Este caixote sem janelas

que habita o meu cérebro cinzento

as palavras belas

que sinto

quando acorda o amanhecer

e não encontro o teu corpo na minha cama,

 

As imagens do silêncio

reescritas na tua mão de porcelana

regressar é impossível

viver...

sonhar

sem saber que amanhã não existe mar,

 

Maré dos enganos

sílabas assassinadas pela caneta negra...

um desenho

(uma porcaria de desenho...)

suspenso na forca da idade

como serpentes em pedacinhos descendo a montanha,

 

As sombreadas verrugas do Adeus

quando o caixote arde na cinza madrugada

o meu cérebro morre

e leva as minhas palavras...

o meu cérebro morre...

e leva o meu corpo.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2015


16.01.15

Há nas cinzas do teu olhar

imagens a preto e branco,

palavras de amar,

poesia,

sílabas com odor a cansaço,

há nas cinzas do teu olhar

flores,

pedras,

cubos em madeira...

e gaivotas de brincar,

há nas cinzas do teu olhar

a poeira do meu corpo travestido de luar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015


10.01.15

 

Óleo sobre tela 30x50.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Habito nesta cáfila cúbica de palavras envenenadas pela insónia

oiço o cheiro das sílabas camufladas pelos rochedos da madrugada

não me perguntes porquê...

quando deixo de sentir o sorriso nocturno dos candeeiros em flor

há neste jardim pássaros ferozes

incendiados pelo incenso

que gritam

guerreiam... e sonham

e sonham como se estivessem esquecidos numa ilha sem nome

um barco desnorteado

enforcado

nos lábios da cidade de vidro...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 10 de Janeiro de 2015

 


08.01.15

uma caneta no silêncio da noite

vagueia na mão da liberdade

beija palavras

e abraça-se aos desenhos que só as paredes de um olhar

conseguem projectar

na madrugada de uma cidade…

não há covarde

ou idiota

… ditador

cabrão…

que com uma espingarda

ou canhão

consiga amedrontar

a palavra

disparada

pela caneta no silêncio da noite!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015


04.01.15

Antigo_005.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

vivo neste esconderijo

um cubo de vidro

no... lixo

não

não quero que me toques

me olhes...

não...........................

não quero existir

voar

ler

não

vivo neste cubo de vidro

 

adoro este esconderijo recheado de palavras

e

e de mendigos

 

o relógio não anda

a janela não se abre

nem fala comigo

há numa das paredes deste cubo de vidro...

tristeza

e... e o frio

 

um velho amigo

que me acompanha desde a infância

um desenho garrido

um espelho

neste cubo de vidro

não vivo

que vivo

sem perceber que o meu corpo é um esconderijo

 

de vidro.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 4 de Janeiro de 2015


01.01.15

Antigo_002.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

deixei de sentir a tua fotografia nos meus lábios

vi uma lágrima de vácuo galgando o teu rosto

em direcção ao mar

pertencíamos aos peixes sem asas

brincando sobre a árvore das palavras

havia uma tempestade de aço

sobre as tuas pálpebras amordaçadas

e não sabíamos que o amor era um fugitivo

um cadastrado destino

um homem suspenso na gravata dos cintilantes amanheceres

um cadastrado destino

acorrentado à tua fotografia

sem tu o saberes

perdemos os abraços

os beijos

e as caricias defeituosas da madrugada

perdemos o orgasmo literário de uma janela em Belém

sem tu o saberes

a noite construída de infinitos gemidos

e nem tempo tivemos para desamarrar o luar que nos cercava...

o fugitivo amor

um cadastrado destino

a noite construída de mimos

e armadilhas

e simples ruínas

como o vómito da cidade depois de acordar...

sem tu o saberes

o exilado casaco de couro balançando na ponte da angústia

o cheiro sulfuroso das avenidas em flor...

e da tua fotografia que vivia alicerçada aos meus lábios...

nada

desapareceu na neblina

talvez cansada

talvez... talvez

talvez ensanguentada nas mãos em ciúme.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015

 

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