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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


30.06.15

Este ruído constante nas minhas veias,

Sinto no peito os socalcos embrulhados pelo xisto do cansado anoitecer,

É escuro, sempre, em mim,

Habito neste cubículo de sombra,

Sem janelas para o mar,

Sem porta para os teus lábios,

Amanhã, não sei se vou ver os barcos da madrugada,

Não sei se amanhã há madrugada,

Não sei se amanhã há barcos,

Vento,

Silêncio para me esconder…

Ou palavras para semear em ti,

Um aquário de paixão termina a viagem,

Não traz bagagem,

Recordações,

Fotografias…

Nada,

Os cigarros misturados na tempestade,

Nunca sei quando são cigarros,

Nunca sei quando é tempestade,

Nada,

Nada quero desta cidade.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 30 de Junho de 2015


26.06.15

Deixei de pertencer aos retractos nocturnos do abismo,

Sou uma sombra aprisionada neste longínquo porto sem amarras,

À deriva,

Procuro o vento laminado das tardes de Luanda,

Não ando,

Não amo,

Não… não sei o nome da imagem que acordou neste espelho envelhecido,

Não entendo os Oceanos de insónia que brincam nos meus ombros,

Deixei de ter ossos,

Deixei de pertencer…

E do abismo

Uma flor encardida voando sobre as palmeiras,

 

Uma mão de solidão

Encalhada no meu olhar,

E onde estão as tuas palavras?

Amargas,

Cansadas das viagens ao Planeta da escuridão,

Asas em chamas,

Crocodilos em vão…

Sem janelas no sótão,

Sento-me nas escadas,

Pego levemente num cigarro inventado pelos teus lábios,

E canto,

E choro…

 

A saudade.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 26 de Junho de 2015


20.06.15

O fim…

Enigma sensação de distância,

Os objectos são coisas vivas sem vida,

Imagens heliográficas com vista para o mar,

O estranho,

Negro o homem da sombra em frente ao espelho da morte,

Será que sente?

Sentir… o quê?

A sorte dentro do túnel de vento,

Sem asas,

Aerodinamicamente estável,

Seguro e alicerçado aos cinzentos medos da tarde,

 

Sem asas,

Será que sente?

Sentir… o quê?

As lágrimas da gente…

O fim…

O meio…

Cubos,

Círculos,

Ímpares equações embrulhadas no sono,

Drageias de esperança…

E nada,

E ninguém,

 

Consegue afagar esta criança…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Junho de 2015


18.06.15

Não quero escrever

Nada

Mas necessito de escrever

Para me sentir vivo

Viver

Não ter

Palavras

Sonhos

Nem desenhos ou destino

Noite

O dia

Deixaram de existir…

O corpo não sente

Os livros

Os sons melódicos do cansaço,

O corpo é um vazio

Sangrento

Talhado em fios de sombra

Quando o luar dorme

E as estrelas dançam

Brincam…

O corpo não sente

Os livros

Os sons melódicos do cansaço,

Mas aos poucos

O corpo

É vencido pelas metáforas da insónia,

E o corpo é cinza

Nata

Prata

Cinzeiro em pedra

Com lágrimas

Sem lágrimas…

Não quero escrever

Nada

Nada…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 18 de Junho de 2015


15.06.15

Sinto a poeira dos teus ossos

No meu cansaço,

Sinto a sombra da eira

Nos meus ombros pincelados de Primavera,

Sinto a noite geométrica da saudade

Nos versos tristes embainhados,

Os soldados,

Nunca desistem de lutar,

Mas o mar fica tão longe…

Mas o mar… mas o mar deixou de pertencer à cidade,

E a cidade,

Hoje… é um amontoado de rochedos ensanguentados…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 15 de Junho de 2015

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