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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


30.04.16

Morro, sobre o incandescente teu peito.

Abraças-me como se esta fosse a minha última morada, mas não o é…

Tenho casa, cama, roupa lavada e livros, nada mais do que isso,

Engano-me quando acordo e sinto o teu rosto na minha mão, sorrio, alegro-me quando os teus lábios se prendem nos meus, não importa quem sou.

Sou eu.

Preciso de ti, bailarina dos labirintos da manhã, preciso de ti como preciso de oxigénio para sobreviver nesta selva de levianos lençóis de prata,

Sobrevivo, sobrevivo a este cansaço, a esta dor provocada pela tua ausência,

O frio enroscava-se nos teus braços, iluminavas-me até regressar ao meu leito, de marinheiro desempregado, sem mar, sem barco…

Escondo-me em ti.

Preciso de ti como os livros precisam das palavras, minhas, tuas, deles, é-me igual; a gaivota do teu desejo.

Morro, sobre…

Abraças-me nas cansadas noites de desejo, repetidamente… DESEJO

Poisava em ti, caminhava sobre os teus seios, veleiro da alvorada, triste e só,

Esta dor, este cansaço sofrido dos dias embriagados,

E das manhãs sonhadas pelo ausente.

Vivo, incandescente sorriso, olhando-te como uma fera doirada,

O invisível inclinado púbis que só a paixão conhece, amanhã não sei,

Amanhã, esperarei por ti, preciso das tuas palavras obliquas, das tuas equações de amor, e rectas vazias da tua vagina.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Sábado, 30 de Abril de 2016


28.04.16

O vento que passa

E leva com ele a madrugada

O peso das árvores sobre o sorriso da solidão

Um livro assa

Na fogueira do teu coração

Quando a manhã acorda cansada,

 

O vento que passa

E traz a mim a insónia dos corredores

Preciso de espaço para saborear o beijo

E libertar-me da maça

Que lapida os meus ossos como flores

E me leva o desejo,

 

O vento que passa

E transforma a liberdade em melancolia

O sorriso da fera acorrentada

E se enlaça

No acordar do dia

Como uma montanha apressada…

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 28 de Abril de 2016


27.04.16

Tenho um esqueleto amaldiçoado; sinto-o quando os ombros se cruzam na madrugada.

Tenho a certeza que amanhã serei capaz de voar sobre os sobreiros da tempestade,

Como um pássaro enlouquecido,

Como uma nuvem sem destino

Quando o poço da tristeza inventa desenhos na areia da insónia.

Pego nos cigarros amachucados pelo prazer,

Pego no livro estacionado sobre a minha secretária,

Que me espera, todas as noites, antes de adormecer.

E este madito esqueleto não se cansa de ranger,

Sei que todas as flores do meu jardim não me pertencem,

São alugadas, algumas, e outras, e outras emprestadas pela vizinha do terceiro direito,

Estão à minha guarda como uma criança entre círculos e palavras no recreio da escola,

Os vidros da inocência que parti com uma bola desenfreada,

As pedras que atirei aos vidros substituindo a bola desenfreada,

O silêncio da sebenta escondida na pasta,

A bata que trazia nunca regressava com todos os botões,

Os joelhos rasgados,

Os cotovelos ensanguentados…

Mas era feliz assim, como hoje sou feliz assim.

Com o esqueleto amaldiçoado,

Transparente verniz que cobre a minha pele,

Poema que deito no lixo porque não gosto dele,

Este ainda não o sei,

Talvez no final vá fazer companhia ao túmulo dos Deuses Sagrados,

Caderno pérfido, esferográfica mais parecendo uma enxada… e ao longe o Douro encurvado nas coxas da montanha,

Desprezo-me,

Não me apetece cortar o cabelo, não me apetece desfazer a barba…

Dizem que sou um vagabundo,

E sou-o.

Uma cidade esvairada, uma campânula nas festas de aldeia,

Tenho um esqueleto amaldiçoado, é pobre, é velho, e mesmo assim tenho de o transportar de aqui para ali e de ali para aqui,

Loucos,

Loucas,

A boca quando dos lábios brota a Primavera,

Quando o fogo incendeia o meu corpo e só o mar consegue sossegar-me deste esconderijo nojento, obsceno, ridículo,

Tenho noites assim, tenho noites desgovernadas pelas fotografias da minha infância,

E apenas sinto os barcos a passearem-se junto a mim,

O meu cão ladra,

Não me apetece cortar o cabelo e desfazer a barba…

Porque sou um vagabundo que tem um esqueleto amaldiçoado.

 

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 27 de Abril de 2016


25.04.16

Uma bala de saudade atravessa o meu peito.

A espingarda da liberdade

Poisada sobre a ferrugem ténue da madrugada,

As palavras escrevem-se numa branca parede

De ardósia invisível,

Longínqua como a esperança de regressar…

 

 

Francisco Luís Fontinha

segunda-feira, 25 de Abril de 2016

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