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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


23.09.16

Não sinto o odor

das pedras onde te deitas

e dormes,

não sinto a dor

quando as tuas mãos melódicas

me tocam e envenenam,

não sinto o amor

que habita no teu peito

rompendo a alegria da madrugada,

não sinto a cor

do teu olhar

quando desce a noite nos teus lábios…

e uma película de mar,

não sinto o suor

das plantas do meu abismo

quando o silêncio envelhece no teu corpo…

e um poema morre no veleiro sem navegar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 23 de Setembro de 2016


20.09.16

São falsas as palavras

que escreves na minha boca,

da inocência de um sorriso amargo

constrói-se a cidade louca,

quando no embargo…

o meu corpo morre junto ao rio,

uma gaivota em cio,

um olhar fundido na neblina

subindo montanha acima…

são falsas todas as palavras,

as esbeltas

e as parvas,

tuas palavras,

conjugadas na escuridão do dia…

desces a calçada,

encostas-te ao silêncio da tristeza,

e um barco sentia

o tremor da madrugada…

o tremor da beleza,

 

São falsas as palavras

ditas e não ditas,

escritas

e não escritas…

 

Na minha boca,

 

Tudo em ti é falso

como sentir da noite a construção do luar,

a cidade dilacera-se em constantes equações de sono

que o prazer alimenta,

envenena…

e faz voar…

as palavras locas

que escreves na minha boca,

 

Sinto nos esqueletos de xisto

as migalhas prometidas

por um falso homem…

às vezes

desisto,

às vezes preciso das nuvens aborrecidas,

 

São falsas as palavras

que escreves na minha boca,

e eu sem saber que a loucura

é uma parvoíce ensonada,

vive desajeitada,

na minha cama…

na minha cama amada,

na minha cama cansada…

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 20 de Setembro de 2016


16.09.16

perdido,

corredor…

não existo neste cansaço,

nem permaneço neste espaço,

sou um pássaro envenenado,

cascata Princesa da madrugada,

desisto,

prometo caminhar sobre a água salgada

onde habitas… minha amada,

sem tempo,

sem espaço,

corredor…

o cansaço,

e a dor,

sinto no corpo as tempestades do Além…

e ninguém,

e nada…

consegue sobrevoar este esqueleto de pedra,

sentado,

me esqueço no silêncio,

me esqueço da alvorada,

perdido,

achado,

querido…

cansado,

no regresso das tuas mãos.

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 16 de Setembro de 2016


11.09.16

O sonho morre nas mãos do luar,

A insónia do meu peito, arde nos teus olhos,

E do sonho, pequenos panfletos de areia… voam em direcção ao abismo,

O papel onde escrevo alicerça-se aos teus lábios,

Fico sem palavras, também morro nas pétalas do sonho…

Fixando no olhar a tristeza do mar,

Assassino os meus dias com as pedras da solidão,

Cravo espadas na sombra da noite, como um pedestal apaixonado,

Louco,

O sonho morre,

Como eu…, aos poucos dentro da tempestade,

Sinto nas tuas mãos o poema em sofrimento,

Rodeado de finas lâminas de desassossego,

Nas mãos do luar,

Arde nos teus olhos,

Como um Deus desvairado…

Suspenso na madrugada,

Galgo as rochas do infinito adeus,

Percorro pirâmides de luz como uma espada queimada no meu peito,

E choro a ausência do esquecimento,

Da vida,

Da vida camuflada pelas marés de Inverno,

Os barcos cercados pelos anzóis da pobreza,

Marinheiros escorregadios…, saltam até ao próximo bar,

Bebem desenfreadamente os copos da alegria,

Sentindo no olhar a Cinderela manhã de inferno,

Escoa-se o tempo nas janelas do sofrimento,

Há nas pálpebras da doença o sentido proibido da morte,

As nuvens vão levar-me,

E a cidade desaparece no caderno onde desenho os teus beijos,

Como desapareceram todos os fantasmas do meu secreto olhar…

 

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 11 de Setembro de 2016


10.09.16

Tenho medo dos teus olhos

Quando a noite inventa tempestades nos teus lábios,

Tenho medo do silêncio,

Medo do luar…

Tenho medo de amar…

Quando próximo do teu rio

Um tubarão espera por ti,

Tenho medo das tuas mãos

Quando os socalcos sobem à aldeia

E o teu corpo se transforma em perfume…

Tenho medo do teu cabelo

Entrelaçado no xisto da manhã

E um fino fio de oiro…

Vive na tua boca,

O beijo acorda do sonâmbulo relógio de prata,

Temos um horário moribundo,

Caquéctico

E sujo…

No pulso da solidão,

Tenho medo da cidade

Que habita nos teus seios

E expulsa todos os corações apaixonados…

Tenho medo dos bichos de papel

Que invadem os teus braços

E lançam sobre o oceano o medo…

O medo de ter medo

Dos teus olhos

Das tuas lágrimas,

Tenho medo da tua sombra

Incandescente

E triste

Nos jardins imaginários…

Tenho medo dos teus olhos

Que me alimentam a insónia…

Tenho medo dos amigos

Que inventam amigos e de amigos nada têm…

Tenho medo das pedras

Dos triciclos em pedra

E das madrugadas sem dormir…

Tenho medo da partida…

E de não regressar mais a mim

O medo dos teus olhos.

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 10 de Setembro de 2016


07.09.16

Os cabelos negros

Poisavam na tempestade da saudade,

Uma rocha adormecia na tua mão

Vinda do longínquo oceano…

Insaciável, indiferente à liberdade

Das cidades ardidas,

Os cabelos negros…

Em réstias de silêncio

Camuflados pela madrugada das sonâmbulas palavras,

Um cigarro abandonado,

Triste como eu…

Sentado nos teus lábios de chocolate,

Ele caminha e sente

O perfume da solidão

E os candeeiros da insónia…

Mas a liberdade… nunca morrerá,

Nem desaparece…

Dos finais de tarde junto ao rio,

Os cabelos negros

Poisavam na tempestade da saudade…

E me diziam que amanhã

Nascerá um poema no teu corpo,

Em revolta,

Na lâmina fina e húmida da felicidade…

Ele morrerá,

Ele morrerá acorrentado ao estrado do sono…

E só acordará…

Nas lágrimas dos cabelos negros.

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 7 de Setembro de 2016


02.09.16

Sobre a poeira adormecida,

Deito o meu corpo putrefacto,

Cansado da escuridão,

Sobre a poeira esquecida,

Caminho inventando ruas…

E solstícios de solidão,

Sobre a poeira da vida…

Os míseros sorrisos do amor,

Que invadem na noite o meu coração,

Sobre a poeira emagrecida,

Sinto o teu corpo em papel…

Ardendo na fogueira minha mão,

Sobre a poeira ardida…

Os meus braços de xisto algemado…

Galgando as planícies do Verão.

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

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