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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.01.21

Nestes dias,

Tristes dias tem o dia.

Das tristes manhãs dos dias,

Respira a árvore a sombra do silêncio,

Brinca a criança,

A menina;

A menina dança?

Dança que dança

Nos tristes dias, dos dias.

Saber esperar que acorde a manhã,

Quando os alicerces da insónia,

Ainda dormem, dormem os tristes dias.

E, as noites?

Tristes noites têm os dias,

Nas tristes tardes de encantar,

Tristes, eles, dormem o sono em flor,

Sem vontade de acordar.

Morrem os tristes dias,

Deitam-se as tristes mulheres,

Quando à lareia, o triste poeta,

Desenha no sangue dos tristes dias; apetece-me falar.

Nestes dias,

Das tristes flores,

Há árvores em cantorias e,

Doces amores.

Vai ela à fonte, triste e desanimada,

Leva no cântaro um poucochinho de nada,

Tristes dias, tristes tardes estas de caminhar

Sobre a calçada, também ela triste, também ela envergonhada;

Todos os tristes dias, são dias de amar.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 31/01/2021


27.01.21

Oiço destas pedras frias e sonolentas

Todas as palavras de amor.

Escrevo todas as palavras cinzentas

Que habitam no jardim verso flor.

 

Pincelo os teus lábios de amêndoa adormecida

Quando acorda o amanhecer,

- Eis o perfume de mim, poesia perdida

Na esplanada do adormecer.

 

Os versos que dormem na tua mão,

Corpo cansado das palavras envenenadas,

Quando acordam, os livros e, sobre o chão

 

Uma fina película de nada.

Que vergonha, as pedras cansadas,

Quando choram na calçada.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-27/01/2021


19.01.21

O poema dorme nas pernas da laranja.

As pernas da laranja, quando acordam, adocicam as palavras escritas pelo poeta,

Quando a mulher do poeta, é a própria laranja.

Sou, por vezes, apedrejado por energúmenos, mas não me importo.

Sou simples, como todas as palavras do poema.

Amo o poema,

Sou amado, como a amante do poeta, ama o poema e,

Todas as noites,

Uma laranja abre as coxas recheadas de sombra,

Lá fora, fios de geada brincam com a caneta do poeta,

Porque sendo ele, às vezes, apedrejado, continua a fabricar palavras quando cai a noite.

A caneta do poeta, apaixonou-se pela amante do poeta;

Podia ser trágico, podia ser infidelidade… mas o que os separa são apenas palavras,

Gritos ao ouvido que ela tanto adora.

Acabaram-se os cigarros. Sobre a mesa da sala, um volume de cigarros espera-o, como o espera a caneta, o papel e, os ouvidos da amante que ele a todos os momentos lhe sussurra; AMO-TE.

Poderia escrever-te a todas a horas, minutos, segundos, ou nunca te escrever.

As palavras invisíveis são as mais apetecidas, são escritas no silêncio entre o sono e o sonho.

São como a geada; leves, tranquilas, doces até.

O poema dorme nas pernas da laranja.

E se a laranja é as coxas da amante do poeta, como se apelidará o seu saboroso sumo, dúctil nas manhãs de Inverno?

Saltita.

Brinca na areia branca da manhã os esqueletos da noite passada,

Pequenas ranhuras nas paredes do cubículo que acesso ao sótão; sempre quis ter um sótão imaginário, apenas para mim.

Um sótão onde poderia brincar, escrever, pensar e, manusear a laranja.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-19/01/2021


17.01.21

Flui o amor

Na rosa pétala geada,

Nasce nos teus lábios o sabor a amêndoa cansada.

Desparece a madrugada,

Nas páginas do poema flor;

Eis a manhã do meu sonhar.

Todas as horas e, todos os relógios a cantar,

Todas as flores na tua mão

Dançando a cantiga de embalar…

Flui o amor

Na rosa pétala geada,

Entre conversas de conversar

Entre murmúrios de adormecer.

Pobre coração!

O teu.

Janela para o jardim do amor,

Fotografia em flor,

Máquina volátil de enganar,

Revoltam-se todas as flores

Deste jardim de madrugar.

Flui, flui o amor

Nesta mão pétala rosa geada,

Canção de embalar,

Sorriso de nevão,

Cantiga,

Lágrima água ao acordar;

Dai-me a vossa mão,

Senhor, senhora, menina de brincar.

O doce lençol de linho,

Na triste cama da Donzela adormecida,

Menino,

Menina…

Foto muito querida.

Flores,

Paus,

Pedras de atirar,

Canções de mendigar

Quando a aldeia está a arder,

O fumo alimenta-a

Como todas as rochas de sofrer.

Encontrarás um dia o alegre destino?

Só aos Sábados,

Só aos Sábados, menino.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-17/01/2021


16.01.21

Uma finíssima sombra de gelo

Poisa docemente na tua pele.

Todas as palavras, escritas no teu corpo,

São poemas loucos, são rosas, Senhor…!

São manhãs sem dormir,

São tardes infinitas,

São lençóis de seda,

Que agasalham o teu corpo.

Uma finíssima tarde de sono

Brinca nos teus lábios encarnados,

Doces como a geada,

Transparentes como a luz do teu olhar.

Todas as palavras,

Todos os livros,

São noites ensonadas,

São Primaveras prometidas,

São toalhas de linho

Que adoçam as tuas mãos de fada.

Brincam nos teus cabelos

Todas as estátuas da cidade,

Onde habitam todos os pássaros em papel

Que a tua mão construiu na noite,

Todos os silêncios,

São lágrimas de sorrir,

São sorrisos de chorar…

Que só os pequenos livros de poesia conseguem cantar.

Toas as faces,

Todos os dedos,

São finíssimas sombras de geada

Que saltitam no teu cabelo;

Eis as lágrimas da noite

Quando todas as crianças dormem e,

Tu, sem o saberes,

Alimentas o povo faminto de liberdade.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 16/01/2021


09.01.21

Quando as amarras se desprendem da paixão e, o rio galga os socalcos da insónia.

 

 

Eles tiram-nos a vontade de caminhar,

Mas nunca, nunca, nos tirarão a razão de pensar.

O amor,

A paixão entre dois corpos cerâmicos,

Quando dois lábios de seda, ao nascer do sol, se entrelaçam na maré e,

Um finíssimo fio de chuva,

Dorme, docemente, na cânfora manhã de ontem;

Sois vós, aqueles que me apedrejam e, depois, vêm lamber-me o cu.

Os livros, dormem,

Todas as estátuas, dormem… e,

Até as palavras, vejam lá, também elas, dormem.

O circo,

Os palhaços de farrapos que dormem na soleira das portas,

Também elas,

Todas,

Encerradas.

Querem que ele trabalhe, estude, seja educado, obedeça.

Mas, obedecer, nunca.

Como os pássaros,

Livres pensadores do destino,

Erva daninha dos caminhos de areia,

Que depois,

Dormem, como as palavras dele.

A paixão.

O orgasmo literário de um pobre blog,

Uma simples fotografia de um momento passado,

Cadernos mortos,

Corpos assados,

Na fogueira,

Da língua dos outros.

A boca, incha,

Morre de desgosto,

Sepultam-se os corpos cerâmicos, na fogueira do incenso,

Morde as palavras e,

Grita; foda-se.

Os sete cavalos de aço,

As sete pernas de gesso,

Os setenta corvos da madrugada,

Que o diabo deixou acordar;

Foda-se.

Amanhã estará neve na minha aldeia,

Um rio de sémen, em demanda, correrá para o abismo,

Nascerá mais tarde uma borboleta em papel,

Que o menino deixa adormecer na sua mão.

Hoje, sábado, tarde manhosa, triste,

Dançam as crianças à volta da fogueira,

Pequenos livros, grandes papeis,

Voam e, deixam em mim,

A cinza da tristeza.

Choram eles.

Gritam gemidos de ódio, elas.

Como sabem, o amor é uma pedra linda,

Que caminha junto ao rio;

Foda-se. A água salgada da língua amaldiçoada.

Corpo,

Carne,

Sangue,

Pedaços de pedra,

Amuletos de nada…

São estas as brincadeiras da sereia.

A mesma sereia, aquela que dorme como um porco,

Num qualquer comício de aldeia.

Foda-se, amanhã não.

Fecha.

Abre as pernas, filho,

Porque o Governo te vai foder.

E fode-nos, como fodem as pedras todas as cabeças e cabeçudos do circo e,

Fode-nos, como todos os pregos de aço que serpenteiam as manhãs de sábado.

Os secretos AMORES que habitam esta casa,

Fecha.

Abre.

Fode-o profundamente como que fode o próximo.

Come. Não come. Tem fome, ninguém quer saber.

O gajo é fodido.

Escreve nas paredes da insónia…

Estou farto desta merda.

Merda.

Foda-se.

Ponto final.

Paragrafo.

Amanhã, Domingo.

Hoje, um corpo suspenso na avenida.

O poema, morre.

Como morreram todas as palavras de há pouco;

A marmelada, fria,

Azeda ternura.

Os beijos.

A ferradura.

A mão de enxada na mão.

O polícia quase a vomitar parágrafos e travessões…

“Felizes os convidados para a ceia do Senhor…”

Que são poucos.

Bons companheiros de tribunal.

Levanta-se o réu: inocente, “senhou” Juiz.

Inocente.

Pernas, paus, picaretas, todos à molhada,

Parecendo brinquedos em plástico,

Que o tio “Celito” vende nas ruas de Lisboa…

O cu amarelejado de centeio,

A peida perfumada, quando se senta na esplanada, assume que é apenas um pouco de raiva, a que sente ao estar completo no signo mais estúpido do zodíaco.

Há fogo dentro dela.

Ardem palavras de amêndoa, cornos descascados e,

Putas, muitas, na feira da cidade.

Assim termina mais um confinamento:

Fodam-se.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó, 09/01/2021


02.01.21

Quando a cidade se despede do pó e,

Uma nuvem de silêncio acorda no Vale do Tua,

A cidade morre; como morreram todas as pedras da cidade.

A terra adormece na insónia sombra da manhã,

O rio corre entre rochas e suspiros,

Como dois amantes,

Antes de nascer o Sol.

Ai senhores, tão nobre beleza!

Deitar-me enroscado ao cobertor de cinzas,

Da poeira morna do meu velho cigarro,

Erguer-me e, lentamente, aconchegar o meu estômago ao pobre silêncio granítico da alma.

A mesma cidade de há pouco,

Despenteada, de barba enrugada, caminha lentamente nas margens do Tua,

A alma veste o veneno mais belo da montanha,

Como uma criança,

Deitada na esperança.

Sonha o homem,

Sonha a mulher,

Sonham todos os pássaros do Ujo…

Até que um relógio de sombra,

Se senta na minha mão.

A invisível parede de vidro,

O fumo agreste do néon silêncio,

O barco em papel, o poema escrito no barco em papel…

Como todas as palavras das margens deste rio.

Oh Tua!

Mensagens cíclicas em nome de Deus,

Beleza do teu prazer,

Quando a cidade se despede do pó e, todos os Céus –

São motivos para escrever.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 02/01/2021


01.01.21

(Dois mil e quinze, foi uma merda; dois mil de dezanove, foi uma merda e, dois mil e vinte, contra tudo e todos, foi maravilhoso).

 

A alvorada voz da manhã,

Quando a terra se encosta ao Douro e, descansa.

Descansa a alma,

Descansa a mão inanimada da esperança,

Descansa o menino,

Descansa,

Descansa a criança.

Descansa o raio que o parta,

Quando subo à montanha e,

Uma fotografia, que descansa,

Descansa a vida malvada.

Ai, menino,

As suas mãos são de oiro,

São castanhas, são cinzentas manhãs em Paris,

Descansa,

Descansa corpo santo,

À voz de quem o diz.

São palavras,

São desenhos,

Descansa mão do artista…

Descansa, descansa mundo,

Na voz melódica da manhã,

Que descansa sem se ver,

Descansam as palavras,

Descansam todos os versos;

Descansa sua beleza,

Nos cadernos de escrever.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 01/01/2021

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