Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


30.09.21

Calculo a raiz quadrada

Do desejo,

Obtenho a paixão,

Multiplico-a pela derivada

Do beijo,

Subtraio os versos da minha mão;

E, meu Deus,

Sem o saber,

Obtenho uma canção.

Entre calcular

E escrever,

Prefiro o pintar,

Prefiro acariciar a tua pele de equação tangente

À curva do teu corpo,

Sabendo que toda a gente,

Sabe desenhar;

E ela, sem o perceber,

Sente,

Sente o mar a correr.

Sente nos lábios o beijo,

Depois de verificar

Que a integral da insónia

É apenas a área sombreada do púbis,

Elevado ao quadrado,

Seno da luz amar

Que brinca dentro de um trapézio.

Escrevo no pavimento térreo

Das tuas coxas,

O eterno sonífero das manhãs ensonadas.

Passo as madrugadas

Inventando equações de prazer,

Quando desce do luar,

Sob o tecto do silêncio,

Pequenas quadriculas de saliva,

Correm para o mar.

E, enquanto oiço os teus gemidos,

Vejo um ponto esquecido no espaço tridimensional;

(seios;-beijos,coxas)

Eis as suas coordenadas.

Cerro os olhos,

Desligo os electrões que iluminam o meu cansaço…

E,

Percebo que és uma equação diferencial ordinária.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó. 30/09/2021


29.09.21

Todos os nomes

São sombras de néon

Sobre a praia da saudade.

Todas as palavras que me escrevem

Pertencem aos teus lábios

De maré adormecida.

Todos os versos,

Esses,

São a voz rouca do meu esqueleto sem nome,

Aquele que pertence à pequena equação de areia,

Junto às dunas da insónia.

Dos gemidos da tua boca

Emerge até à montanha

Um finíssimo fio de sémen,

Raízes,

Árvores caducas

Que se escondem na neblina;

Pertenço, assim, aos cubos e triângulos

Das esplanadas da loucura,

Sempre que acorda o dia.

Todos os nomes

São sombras de néon

Sobre a praia da saudade,

São pedras de desejo,

Rios de espuma.

São canções são beijo

São sexo são bruma.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/09/2021


27.09.21

Este silêncio de morrer

Que habita em mim

São palavras de escrever

São cravos do meu jardim.

 

São palavras de escrever

Na sombra do luar

Que iluminam esta cidade a arder

Esta cidade de amar.

 

Este silêncio de morrer

Dos teus seios em fúria madrugar

No verso de viver,

 

No verso de minha amada.

Estas palavras de amar

São as palavras da canção desejada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2021


24.09.21

Poisa na minha mão adormecida

Uma abelha de luz envenenada,

Sinto-a escrever nesta dor

As derramadas palavras de adormecer,

Sinto-a, sinto-a crescer

Neste tranquilo jardim em flor.

Da abelha, da abelha apaixonada

À eterna partida,

As sílabas do amor.

Poisa neste verso alicerçado

Do triste caderno quadriculado,

As amêndoas pequeninas,

São tuas, são minhas,

São palavras são rainhas.

E então, ao acordar,

Sinto-as nos beijos pergaminho,

São equações de sangue,

São presépios e vinho,

São palavras, palavras do meu vizinho.

As fórmulas que tenho de saber,

São elas também palavras de aprender,

São o mar a arder,

São desejos de prazer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/09/2021


23.09.21

Vivia no púbis desejado

Do silêncio amanhecer,

Cresceu em mim e, partiu

Da vida que sempre quis ter.

Certo dia, recebeu um telegrama envergonhado,

Não trazia remetente,

E assim,

O eterno enforcado,

Desconhecia

Que o seu amante

Pretendia,

Um dia,

Lhe escrever.

Como alguém dizia;

- Cuidado, eterno enforcado,

Viver no púbis desejado,

Não é a mesma coisa

Que pertencer ao beijo amado.

E o pobre do eterno enforcado,

Cioso da vergonha alheia,

Sentou-se numa pedra de espuma

Pensando que ao longe, na aldeia,

Habitavam as coxas moribundas

Das janelas em cio;

Que vergonha, eterno enforcado,

Que vergonha!

Púbis e coxas há muitas na saliva do prazer,

Palavras de merda, como as minhas, acordam ao entardecer,

E sabendo que o vagabundo

Do eterno enforcado,

Viajou,

Correu mundo…

E não passa de um triste amado.

Deixou-se penhorar

Pelo prazer

Num dia de Verão,

Sentado, não sabendo ler,

Percebeu que as árvores em flor,

São coxas,

São púbis,

São canção

De embalar,

São versos de amor,

São sílabas de foder.

Dois mais dois

São quatro braços abraçados,

Duas pernas,

Alguns enforcados,

E vinte e cinco sombras a voar;

Sabes, eterno enforcado?

A vagina é uma fotografia para o mar,

É a raiz quadrada do prazer,

É cateto amanhecer,

É hipotenusa maldisposta,

E mais dois são seis,

Seis versos de embalar…

Seis versos sem resposta.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/09/2021


20.09.21

Trago na mão

O mar embainhado

De uma cidade perdida,

Trago nos lábios

O poema envenenado

Da madrugada esquecida,

Trago no rosto

As lágrimas da insónia

Adormecida,

Das palavras à morte

Da morte à paixão com vida,

Trago na poesia

As silabas envergonhadas

Da imagem aparecida,

Trago, trago no olhar

As nuvens em fogo, da fogueira ardida.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/09/2021


19.09.21

Desenhavas com o olhar,

No tecto do silêncio,

Curvas senoidais,

Enquanto me despedia dos teus soluços

E gemidos de dor,

Escrevia na minha mão,

A equação da saudade.

Apetecia-me fugir,

Ser um covarde e,

Correr,

Em direcção ao mar.

Apetecia-me gritar,

Não ser covarde e,

Cerrar os olhos,

Penhorando o meu olhar.

Levemente,

Levantei a minha mão alicerçada no teu peito,

E, aos poucos,

Olhava pela janela,

Aberta para a tua viagem,

Os pássaros nocturnos da solidão.

Sabia que o fim,

Em tudo,

Era igual,

Ao outro fim ausentado,

No entanto,

Acreditava que me ouvias,

E,

Conseguias pronunciar o meu nome;

O meu nome, que tantas vezes

Escreveste nos céus de Luanda.

(Desenhavas com o olhar,

No tecto do silêncio,

Curvas senoidais)

Senos cansados,

Co-senos envenenados por um qualquer

Triângulo rectângulo,

Que apenas na minha mão,

Naquele lugar,

Silenciado pela morte,

Tinha existência física.

Uma viagem sem retorno,

Como o sono,

Quando um cadáver quadriculado

Morre na lareira do corpo ausentado.

Saí a correr,

Puxei de um vadio cigarro e,

Chorei,

Acreditando na mentira,

Pensando que sonhava,

Sílabas de insónia

E pequenas quadriculas na alvorada.

Acreditando na mentira,

Da noite ausentada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/09/2021


14.09.21

Danço nos teus lábios de amêndoa adormecida

Enquanto na tua boca de sílaba encantada

Vive a nuvem desesperada

Vive a flor esquecida,

 

Sento-me em ti como se fosses a página poética da madrugada

As palavras dispersas nos lábios da maré,

Sento-me, sento-me sem fé

Da fé amargurada.

 

Escrevo-te na sombra do amanhecer

Palavras que pinto no teu corpo florido,

Escrevo, escrevo viver,

 

Escrevo amar,

Escrevo a canção do corpo sofrido,

Do corpo suspenso no mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14/09/2021


12.09.21

Ouve-me

A cada sílaba suicidada

Na madrugada,

Senta-te

Em mim

Em cada rua ensanguentada,

Puxa pelas palavras assassinadas

Como puxas o cigarro enforcado

Na sombra das esplanadas.

Beija-me

Quando a sombra se traveste de dia

E,

Do dia travestido

Acorda o poema amarrotado

Pelo desejo

Vestido

Na mão de um drogado.

Escolhe o pecado

Vive-o

Como se ele fosse o amanhecer,

Senta-te

Escreve

E não te canses de viver.

Deus construiu o sono

Nocturno

Dos pássaros embriagados,

Não sei, nunca o saberei…

Porque Deus me obriga a habitar

Um cubículo sem janela

Para o mar

E, e sem cortinados.

Oiço-o enquanto conversa

Com a raiz quadrada do silêncio,

Multiplica-o pela derivada do desejo,

Eleva o resultado ao cubo,

E,

Nada; fico com nada.

Deus, não sabe matemática,

Não é poeta…

E,

E odeia-me desde que nasci.

Sou obrigado a mendigar

As palavras de amar,

As outras,

As palavras de desejar,

E, e depois,

Nasce o beijo,

Cresce na tua boca o poema beijar,

Como se a neblina

Descesse a encosta dos teus seios,

Logo pela manhã,

E Deus,

De cabeça azulada,

Escreve no meu quadriculado;

Amanhã,

Amanhã traz a enxada,

Cava a terra e,

E saberás que que zero é igual a um.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/09/2021


10.09.21

Todos os dias chorávamos as lágrimas ensonadas da madrugada; talvez um dia, depois de acordar, escrevam as minhas memórias numa lápide quadriculada, feia e rabugenta. Quando olhava para as estrelas, quase ao regressar de ontem, observava o silêncio emagrecido do crepúsculo e, toneladas de pássaros voavam em direcção ao silêncio que habitava naquele casebre de aldeia, junto ao rio,

Vomitava palavras durante o desfile de barcos e carros de brincar, sabia

Depois do rio,

Nada, desde que abracei aquela velha árvore, enquanto uma enxada preguiçosa laborava nos socalcos em xisto que alguém, muito importante, desenhou na alvorada.

Sabia que havia um túnel de vento e que o meu corpo era testado aerodinamicamente, como se eu fosse um corpo suspenso no amanhecer,

Provavelmente, eles mentem-me

Não o sabia, desculpe o meu silêncio.

Deus enganou-se quando me estavam a fabricar, queixava-se ele todas as manhãs ao acordar. Perdeu a cabeça e, um certo dia, ao final da tarde, em frente a um espelho de néon, deu-se conta

Uma pedra!

E atirou-a contra o túnel de vento.

Sabia que depois do rio, Deus tinha construído um corpo emagrecido pela poesia, que os pássaros que viviam na sua mão, meia dúzia deles, eram apenas desejos desejados dos beijos ejaculados na boca do prazer,

Gemia,

Gritava-lhe

Olha os pássaros.

E matou todos os pássaros.

Detesto-os, segredava-lhe ele quando abria a janela e, num sufoco de espuma, alguém lhe trazia o mar e, do mar, aparecia a mulher mais bela da montanha do desejo,

Desejava-a,

Até que

Todos morreram de fome. Naquela tarde de Outono, quando da vindima, percebeu que apenas sabia porque Deus o tinha construído; apenas para sofrer, pensava ela, e de tanto sofrer, partiu como partem as gaivotas antes da tempestade.

Tinha a esperança de encontrar um número que fosse primo do vizinho e filho do empregado da esplanada, em frente à sua sombra.

Na algibeira transportava o número treze, só, sem mais ninguém e, um certo dia

Evaporou-se na neblina.

 

Toque as cornetas

Que Deus vai construir

O número treze.

 

Deus, que também se engana

Construiu o número trinta e um,

Deitou-se ao terceiro dia

E, morreu incinerado nas mãos do vizinho

Do trigésimo quinto andar

Antes do sótão.

 

Porque me dizes que amanhã é sábado?

Porque amanhã é sábado.

Porque amanhã nascerá o número quatorze

Cesariana

Coisa simples

Coisa de nada.

 

Coisa de loucos,

Dirás tu.

 

Toque as cornetas

Que Deus vais construir

O número treze.

 

E, quando demos conta

Deus em vez de fabricar o número treze,

Não

Enganou-se

E, apareceu-nos a raiz quadrada

De seiscentos e vinte e cinco; merda.

 

Onde está o treze, pá?

 

Tanto faz, responde-nos Deus.

Tanto faz…

 

E, olha!

 

Olha?

Preciso do treze,

Vai à merda, diz-me Deus.

Vai à merda.

(e antes de se retirar, Deus diz-me:

Calcula a raiz quadrada de seiscentos e vinte cinco

Subtrai-lhe doze e ficas com o treze,

Burro de merda).

 

Ainda bem que Deus sabe matemática.

Ainda bem; um dia.

 

Toque as cornetas

Que Deus vai construir

O número treze.

 

 

Ao cair a tarde, ela, depois da visita ao jardim, quando entra em casa, depois de subir treze degraus, percebeu que ele transportava na algibeira a medalha com o número treze e, acreditem, nem eu nem a minha mãe

Percebemos porque trazia ele a medalha com o número treze, mas

Acredito que foi Deus que lha deu, um qualquer dia, em Luanda.

As certezas são poucas, o corpo embebido em sombras de granito e, na lápide

Eterna saudade de seu filho.

Uma carta de despedida, nem isso teve coragem de deixar em cima da mesa-de-cabeceira.

Fez amor com o desejo, puxa de um cigarro, vai à janela e,

Foda-se.

Esqueci-me da medalha com o número treze dentro do livro de AL Berto.

Desenhava o poema, abria as pernas e,

Voava, voava, voava até que morreu de sono.

Tristeza, esta, queixava-se quando acabava de fazer amor.

Sempre o desejo. Maldito desejo este, transportar uma triste medalha com o número treze.

Até breve, meu filho.

Até, meu pai. Até.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/09/2021

Pág. 1/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub