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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


27.12.21

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado.

O desejo sente-se, apalpa-se como um seio seminu dançando sobre o mar, o desejo escreve-se, ergue-se cedo, o desejo suicida-se, por vezes, num leito adormecido, o desejo percebe as sombras nocturnas de um outro desejo, o desejo é desejar, é correr, é amar, o desejo espelha-se na madrugada, vai à janela e, fuma o seu primeiro cigarro.

O desejo é livro de poesia, é mulher sentada, de perna cruzada, o desejo pinta-se, o desejo afoga-se, às vezes, na boca de um beijo. O desejo é maldito, o desejo é sacerdote, é religião, é engenheiro, é poeta, o desejo vê-se quando chove, porque os pássaros também são o desejo; o desejo de voar.

O desejo sobe a montanha, procura o primeiro abrigo e, deita-se. Fuma o primeiro charro, escreve no chão o poema envenenado que ficou em cima da mesinha-de-cabeceira, era ontem, hoje, hoje não desejo

Desejar que ele ou ela o deseje.

Ouvem-se as manhãs embalsamadas junto ao rio, os barcos veleiros procuram o desejo, o vento que os leve para a cama do desejo, há canções de revolta, há silêncios presidiários nas mãos do desejado e, as coxas fluem como brasas suspensas na fogueira, há um pequeno gemido, um pequeno latido e,

O mar entra dentro dela, absorve-a, come-a.

E de tantos desejados, há um poema livre, revoltado, há um poema em cada milímetro de espuma do teu corpo, sabendo que o teu corpo desejado, apenas pertence ao teu desejo. Desejas que te desejem; antes de adormecer, três pequenas drageias de sono, dois gramas de uivos, três pilhas e um cobertor,

Há mais desejo, amanhã, porque hoje a noite é de tempestade.

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado, o desejo é uma pobre canção, melodia da madrugada, o desejo é opção, é palavra cansada, o desejo, às vezes, perde-se no leito da alvorada.

O desejo, sempre que desejado, é uma equação de sono, é pássaro, é flor que voa sobre o chão; sobre o chão desejado.

 

 

 

 

Alijó, 27/12/2021

Francisco Luís Fontinha


27.12.21

Estes velhos pássaros,

Parvos e sós,

Que deambulam dentro de mim,

São palavras, são canções,

São flores do meu jardim.

 

Estes velhos pássaros,

Verdadeiros e, de voar,

São poemas de amar,

São desejo,

São noites de embalar.

 

Estes velhos pássaros,

Companheiros de dormir,

Espingarda de disparar,

Estes velhos pássaros,

São os pássaros com quem eu posso falar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/12/2021


26.12.21

Deste nocturno apaixonado

Que embebeda a paixão,

Habita um corpo camuflado,

Dormindo no chão.

 

Escreve debaixo das amendoeiras,

Enquanto os pássaros brincam no mar,

Pensa que a vida são brincadeiras,

E beijos de beijar.

 

Deste nocturno apaixonado,

Nasce o poema dançar;

E morre o corpo crucificado.

 

Depois, ergue-se a paixão,

Com palavras de brincar,

Com palavras do coração.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26/12/2021


26.12.21

Trazias na boca

As mais belas palavras da madrugada,

Sentia-te em mim, como um poema,

Abandonado na cama,

Dançando na alvorada,

Parecendo louca,

Parecendo nada.

Trazias no olhar,

As tontas sílabas perfumadas,

Parecendo migalhas de amar,

Parecendo almas penadas.

Era uma tarde cansada,

Quando o teu corpo vacilava

Na minha mão;

Eram palavras de nada,

Eram palavras do coração.

Trazias no cabelo a boca que beijava,

Na noite ensonada,

Havia uma gaivota que voava,

Havia uma gaivota que sofria,

Havia o teu corpo que dançava,

Sem perceber que sorria.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Dezembro de 2021


24.12.21

Sentia-me zonzo com os cheiros

Que brotavam de suas mãos

No Natal.

Hoje, procuro esses cheiros, em vão,

E apenas as fotografias,

Transformam os cheiros em lágrimas.

Lágrimas recheadas pela saudade,

Como sonhos, rabanadas e bolo-rei,

Hoje, o silêncio poisa sobre a mesa,

A mesa é outra, mas faltam algumas fotografias,

Hoje, são poeira,

Canção caminhando no Universo,

Paralelo, cubo, triângulo,

Hoje, acorda a ira,

Como se fosse uma nuvem em papel,

Voando em direcção ao mar.

Nasci pertinho do mar,

Junto à solidão dos macacos,

Havia gladíolos envenenados,

Havia bananeiras em cio,

Como as gaivotas passeando-se sobre a baía.

Sentia-me zonzo com os cheiros

Que brotavam de suas mãos

No Natal,

Tínhamos dentro de nós

O pesadelo de um futuro amaldiçoado,

Não distante,

Mas sempre ausente.

Hoje, olho todas estas fotografias,

São apenas imagens, lugares, pó…

Apenas pó…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/12/2021


22.12.21

Cinzento azul teu olhar

Entre paredes e janelas,

Cinzento azul espelho mar,

De marés tão belas.

 

Das palavras de escrever

Às almas predicadas,

Nos poemas de sofrer,

Sofrer nas madrugadas.

 

Traz a luz da manhã adormecida,

Traz o crucifixo doirado…

Não tenhas medo da partida,

 

E vai em busca da felicidade.

Pinta a noite de encarnado,

De encarnado sem vaidade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22/12/2021


21.12.21

Os dias são tardes perdidas

Nas mandibulas tuas mãos,

Os dias, os dias são margaridas,

Margaridas entre sins e nãos,

Os dias, os dias pertencem às noites esquecidas,

 

Das noites anteriormente perdidas.

Os dias são poesia, música, equação,

Os dias são horas adormecidas,

São palavras, são canção;

Os dias, os dias são todas as coisas permitidas.

 

Os dias são madrugada,

São o corpo na lareira,

Os dias são a alvorada,

Alvorada que brinca na fogueira,

Os dias são a manhã cansada,

 

Antes de acordar o dia; os dias são tristeza,

São garrafas embalsamadas na ribeira,

Os dias têm beleza,

E têm corpo de feiticeira.

Os dias são migalhas sobre a mesa,

 

São flores do meu jardim.

Os dias são tarde perdidas,

São pequenas coisas de mim,

Os dias são cores garridas,

Quando acorda o clarim.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/12/2021


19.12.21

Desço o teu corpo

Até encontrar a fina madrugada.

Na tua pele de amanhecer,

Habita a fogueira enamorada,

Das palavras de escrever,

Nas palavras de brincar,

 

Desço o teu corpo

Maré de mar,

Rocha incandescente a arder,

Rocha amorfa que não sabe falar,

Falar sem querer,

Querer que lá longe, lá longe zarpar

 

Para a lua a crescer.

Desço o teu corpo ancorado

Na minha mão desleixada,

Que pertence a este corpo envenenado,

Envenenado pela madrugada,

Desço o teu copo,

 

Até às profundezas do amanhecer,

Cidade assassina,

Cidade a arder;

Onde brinca um menino traquina,

Desço o teu corpo,

Teu corpo de sofrer…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/12/2021


19.12.21

Uma estátua de luz

Suicida-se na cidade das marés envenenadas,

Traz a enxada,

Traz as madrugadas,

Traz as palavras,

 

E traz o falso oiro.

Deste poema,

Sobreviverá a todas as janelas quadradas,

Nas falsas alvoradas,

Nas falsas ribeiras ancoradas.

 

Uma estátua de luz

Que marcha na parada,

Ouve o grito do clarim sobre a ponte…

Corre, corre, corre até ao monte,

Corre… corre até desfalecer,

 

Gritar,

Chorar e gemer.

Aos uivos do teu corpo silenciar,

Gemem as palavras de escrever,

Morrem os pássaros de voar.

 

Uma estátua de luz

Suicida-se na cidade das marés envenenadas,

Correm, correm todos para a praça

Das esplanadas;

Assim seja, tristes madrugadas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/12/2021


18.12.21

Das palavras

À morte,

 

Cinco segundos de sono.

 

 

As tríades flores

Da sepultura sem nome,

Quando da lápide envenenada,

Quase noite,

Acordam as almas penadas.

 

Cinco segundos de sono,

Dançam na neblina madrugada,

Quatro palavras dormem nos braços da paixão,

Abraçam-no desde criança menino,

Até que o choro tomou conta dele.

 

As flores estão murchas,

As palavras, muito cansadas,

Da sua mão,

Quase invisível,

Constroem-se as migalhas nocturnas

 

Do cansaço.

Se bateram à porta,

Não me lembro,

Porque quase ninguém,

Bate à minha porta,

 

Tal como as canções que oiço,

Tal como as palavras que escrevo;

Cinco segundo de sono,

Chegam para desenhar a morte

No muro que circunda a aldeia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 18/12/2021

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