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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


31.08.22

Entre parêntesis,

Este corpo desgovernado,

Entre parêntesis,

Estas mãos à procura de pão,

Entre parêntesis,

Este sonho cansado,

Entre parêntesis,

Esta mão

Que não chora,

Entre parêntesis,

Entre o vento mal-amanhado,

Descendo a calçada,

Subindo às montanhas em delírio…

Entre parêntesis,

Este corpo desgovernado,

Neste silêncio inventado,

Entre parêntesis,

Este poema enforcado,

Antes de acordar o luar,

Antes de acordar a madrugada…

Entre parêntesis,

Esta mão que não chora,

Porque esta mão de pintar…

Dorme em ti, como dormem os peixinhos do mar.

 

 

Alijó, 31/08/2022

Francisco Luís Fontinha


31.08.22

Nos lábios de uma abelha

Poisa um pedacinho de mel,

Tão fresca como a manhã,

Tão feiticeira

 

Como a água da ribeira.

Nos lábios de uma abelha

Brinca uma mão desejada,

Que de socalco em socalco,

 

De enxada em enxada,

Voa em direcção à madrugada.

Nos lábios de uma abelha

Dança um olhar encantado,

 

Tão só…

E tão desejado.

Nos lábios de uma abelha

Poisa um pedacinho de mel…

 

Tão só, tão só…

No sorriso do luar.

Nos lábios de uma abelha…

Um pedacinho de mel com olhos de mar.

 

 

Alijó, 31/08/2022

Francisco Luís Fontinha


30.08.22

(de todos os meus professores, guardo saudade e amizade; mas o professor Mário Abrantes, conseguia aliar a arte ao cálculo, e as suas aulas eram um poço de cultura geral. Grande abraço, professor)

 

Tínhamos na mão

As sete esferas da saudade,

E sabíamos que dentro do cubo de vidro,

(a prisão das palavras)

Havia uma janela com fotografia para o mar.

Depois, acordávamos abraçados às sete espadas da liberdade

Que guardávamos dentro de um caderno quadriculado.

Víamos a nossa imagem no espelho da madrugada,

Quando nas frestas em gesso, um crucifixo sorria…

E dávamos conta que este sorriso pertencia

À criança mais feliz da aldeia.

As palavras chegavam-nos através da velha alvorada,

 

Enquanto sobre as mangueiras,

No distante quadrado, víamos as gaivotas em cio,

E não percebíamos o que era a paixão.

Escrevíamos.

Dançava-mos sobre os pequenos charcos

Que pela manhã acordavam e ainda transportavam no olhar

O desejo preguiçoso que só o poema consegue descrever.

Tínhamos na mão

As sete esferas da saudade,

E como crianças que éramos, das palavras

Inventávamos asas

Como inventam os pássaros antes de morrer,

 

E não sabíamos que os peixes,

Entre parêntesis sonâmbulos,

Resolviam equações complexas,

Que apenas o professor Mário Abrantes percebe,

E nós, apenas percebemos de desejo.

E nunca sabíamos se as sete esferas da saudade

Sabiam o que é o mar…

O que é o mar?

Perguntava-me um pedacinho de sombra

Quando descia o pôr-do-sol e junto a mim,

Sem o saber… um pedacinho de luz beijava-me,

E eu tinha medo do sono.

 

Acordava a manhã,

No quadro uma mistura e letras e números…

Quando perguntam o que era…

Eu…

Série de Taylor;

Como se isso interessasse para dois cubos apaixonados.

Não sei o que é a chuva!

Apenas recordo os longos lábios de cacimbo

Sobre os meus frágeis ombros,

E mesmo assim,

Um barco deitava-se no meu colo,

E das suas coxas, ouviam-se os apitos da solidão.

 

 

 

Alijó, 30/08/2022

Francisco Luís Fontinha


30.08.22

Quando se enforca

No silêncio das palavras,

O poeta enforcado,

Voa como voam as serpentes sobre o mar,

 

Pinta na proa de um velho barco,

Em pequenos pedacinhos de nada,

As laranjas amargas

Que escutam na madrugada

 

A invisível insónia.

O poeta chora.

Quando se enforca

No silêncio das palavras,

 

O poeta enforcado,

Olha a mulher que transporta no ventre

A eterna vida; e uma flor

Poisa como uma abelha

 

Na Primavera.

Quando se enforca

No silêncio das palavras,

O poeta enforcado…

 

Finge ter na sua lápide,

O sono e a solidão.

E a serpente que voa sobre o mar…

Transforma-se em sombra que encobre as cidades de lata.

 

 

Alijó, 30/08/2022

Francisco Luís Fontinha


29.08.22

Se estas mãos acantonadas

Escrevessem nas páginas sonâmbulas

Do meu pedacinho de mel,

Se estes olhos em lágrimas luar

Poisassem nas tuas pétalas encantadas,

O poema voava sobre o mar…

E as minhas palavras amarguradas

Morriam nos lábios de uma abelha,

 

E da noite acordaria a paixão.

E se o meu pedacinho de mel

Voasse nos meus braços,

A tela fantasma da solidão

Transformar-se-ia em luz…

Depois de adormecer a alvorada.

Se estas mãos acantonadas

Escrevessem nas páginas sonâmbulas

 

Do meu pedacinho de mel,

A noite pincelava-se de dia,

Como as flores tristes dos finais de tarde.

Se o meu pedacinho de mel

Dançasse na madrugada,

Desenhar-se-ia nas nuvens

A enxada desgovernada do silêncio

Em pequenas gotículas de desejo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/08/2022

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