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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


14.07.22

Semeávamos o sono no travesseiro teu corpo, depois abríamos a janela do teu sorriso com fotografia para o mar, entre as marés teu desejo, a lua poisava nas tuas coxas de infinita planície que apenas os peixes apaixonados percebem; até ouvíamos os pássaros quando suspensos no teu cabelo, até percebíamos porque morriam as árvores depois de envenenadas pelos pequenos lábios de beijo.

O desejo era imenso e o mar estava tão longe. O teu corpo é uma sonâmbula jangada em algodão que flutua em redor do escaldante sol, depois, pequenas gotículas de suor alicerçam-se à tua pele como as finíssimas películas de geada sobre as plantas adormecidas. Tínhamos as mãos acorrentadas à madrugada como se fossemos dois esqueletos em aço, como se fossemos apenas sombras de nada descendo a montanha.

Sabíamos que o sono alimentava o perfume dos teus gemidos quando a noite se embrulhava em ti como se esta fosse a mão de Deus procurando as esplanadas da solidão que aos poucos caiam sobre o mar.

Um café e uma torrada,

Ouvíamos os gritos da enxada prazer desbravando a terra arável que o teu corpo desenhava no meu peito, e entre pedaços de silêncio, ouvíamos os poemas de um tal Francisco brincando sobre a secretária da saudade, depois mergulhávamos na tórrida água do rio que lá longe, entre curvas e montanhas, entre horários desfasados e conversas de amanhecer, acabava por se esconder na tua alegre mão; não sabíamos o que a paixão fazia aos peixes, mas sabíamos que a nós, nos transformava em pedacinhos de papel colorido.

Um café e uma torrada, alguns livros e sons melódicos de um corpo em combustão.

Semeávamos o sono no travesseiro teu corpo, depois abríamos a janela do teu sorriso com fotografia para o mar, entre as marés teu desejo, sem perceber que da madrugada, um dia, viria o silêncio dos teus lábios, a chuva se abraçava a ti.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14/07/2022

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