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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


21.11.21

A manhã parecia a palavra acabada de suicidar o poeta que dormia sentado num seixo junto ao mar, junto ao mar ele escrevia, desenhava os números na sombra do sonho, porque ele sonhava, dormia pensando que voava, todas as tardes, sobre o mar,

Porque ele amava.

Amava as pedras, os seixos, onde o poeta dormia sestas intermináveis, tão longas como os  Invernos em Trás-os-Montes, infindáveis, azedos, dolorosos, até, quanto mais para uma criança.

Criança essa que acreditava que os sonhos eram pequíssimos cubos de vidro, que um adulto puxava com um pedaço de corda. Esticava a corda, por vezes partia e, o miúdo lá acordava acreditando que brincava com pássaros em papel.

A tarde em lágrimas, para logo depois sorrir e de tanta gargalhada, vomitar lágrimas de fogo, mais parecendo às vezes, o inferno pincelado de medo. Pequenos charcos se formavam no pavimento térreo da infância, um boneco estúpido saltitava de contente, tinha acabado de tomar banho e, com o calor que se fazia sentir, sempre estava mais refrescado. Eram assim os sonhos das manhãs que agora mesmo, acabam de suicidar o poeta.

Poeta suicidado, poema eterno.

O miúdo fazia-se transportar dentro de uns calções floridos, sandálias em couro e, umas vezes sim, outras vezes não, sobre os ombros uma camiseta em papel pardo. Nas traseiras da casa, junto ao galinheiro, habitava uma mangueira com mãos de flor e, todas as manhãs, a mangueira agarrava pela mão do menino e iam passear junto aos Coqueiros; os treinos de hóquei fascinavam-no, como fascinavam os pássaros em papel e, as árvores em algodão e, os aviões e, todos os barcos.

E de todos os barcos, um dia, com o mais pequeno deles, atravessou o Tejo e fugiu para a Calçada da Ajuda, sentou-se junto à margem e, começou a desenhar pequenos pares de sandálias para calçar todos os meninos, que como ele, sonhavam todas as noites, dentro do cubo de vidro, dentro do sonho dos adultos.

Certo dia, foi obrigado a trocar os calções por um par de calças, lavam-se durante a noite e secavam durante a noite, para manhã cedo rumar a uma escola velha e caquéctica, também foi obrigado a trocar as sandálias de couro por uma botas pesadíssimas que chiavam quando chovia; e nessa altura desconhecia o significado de peso, massa, gravidade. Mas eram pesadas.

O peso é uma coisa e, amassa, uma outra coisa e, quando lhe perguntavam se pesava mais um quilograma de feno ou um quilograma de ferro acabado de falecer, ele respondia que não sabia.

De todos os meninos que brincaram com o menino dos calções, apenas ele e os calções, habitam esta cidade que acaba de adormecer; da noite, todos os beijos são flores em papel, que tal como o menino dos calções, brincam a escrever cartas a todos os meninos que brincaram com ele.

 

 

 

 

Alijó, 21/11/2021

Francisco Luís Fontinha

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