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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


15.10.22

Abraço-te, silêncio em despedida,

Menina que voas sobre o mar,

Abraço-te, menina poesia sentida…

Sentida ao despertar,

 

Abraço-te, meu moinho que dança no vento,

Árvore despida,

Abraço-te, sombra do meu pensamento,

Em delírio na partida,

 

Abraço-te, nuvem cansada de pensar,

Chuva miudinha na madrugada,

Abraço-te, rio que não se cansa de navegar

 

Nos teus seios de amanhecer,

Abraço-te, sorriso que brinca na alvorada,

Sem pressa de chegar, sem pressa de morrer.

 

 

Alijó, 15/10/2022

Francisco Luís Fontinha


10.10.22

Quando acordavam, o crucifixo suspenso na parede, que tinha como única finalidade, esconder as fendas que abundavam no gesso em ruínas, lacrimejava todas as palavras ouvidas durante a noite.

Esta noite devíamos ter conversado muito, ele não pára de lançar palavras contra os tristes lençóis e cobertores que sobre nós poisaram, lamentava-se ela enquanto ele escondia o olhar no cortinado, velho, que mais parecia um campo de milho quando maduro,

E claro, vinha-me à memória os campos de milho de Carvalhais, da amarela, do velhinho que contava estórias mirabolantes sobre a primeira grande guerra, dos uivos do carro de bois e das manias que eu tinha de andar sempre só; como as cabras em pleno monte.

Descia a noite e quando o Branco ligava o moinho ecléctico, modernices, pois tinham um movido a água, enquanto o cereal dançava, a lâmpada do meu quarto, o quarto do meio, começava a cambalear, até que momentos depois, desmaiava por completo e só depois do tio Branco desligar o dito é que voltava a ter luz para ler os poemas do Pessoa; e quando a noite já levantava voo sobre o sino de Carvalhais é que eu começava a escrever a um remetente inventado, pois quase nunca tive ninguém a quem escrever, a não ser, no serviço militar, a cravar dinheiro à minha mãe. Um dia perguntou-me quantas vezes eu era assaltado por semana, pois a razão de eu pedir dinheiro era sempre a mesma. Mãe, fui assaltado.

Conversamos muito, disse eu. Pois também estava de acordo com ela, à quantidade de palavras que o crucifixo lacrimejava dava para perceber que tinham sido muitas. Ergui-me, procurei um cigarro sobre a mesinha-de-cabeceira, e comecei a vomitar sinais de fumo à janela com fotografia para o mar. Do segundo andar via uma réstia de mar, a sombra de um barco e o uivo de uma gaivota, nada mais, em Carvalhais, já noite dentro, ele escrevia em pequenos papeis que ainda hoje continuam acorrentados aos quatro cantos de cartão, onde poisam, e quase nunca saem para passear no jardim ou descer a calçada com acesso ao rio.

Quando ele olha em direcção ao leito dos lençóis e cobertores poeirentos, ela já dormia novamente, e ele, suspenso entre dois segundos, olhava-a, olhava o crucifixo que não parava de lacrimejar as ditas palavras nocturnas do desejo e a velha espingarda que apenas disparava às terças e quintas, durante a tarde; não ligou e esperou que o cigarro terminasse o seu prazer, isto é, foder um gajo que acaba de acordar. E diga-se, sou fodido por estes gajos há mais de trinta anos.

A noite estava calma. As palavras fluíam nas rasuradas folhas que encontrei numa qualquer gaveta do avô Domingos, naquela noite não me apetecia escrever no caderno, e os sons da noite entravam-me quarto adentro; ouviam-se as lágrimas das sombras que eu sabia que habitavam no campo de milho semeado junto à janela. Deixei de ouvir o avô velhote, um dia finou-se.

Peguei na espingarda, e percebi que ela jamais poderia acordar, depois soube que tinha ido para outro aposento, mais limpo, onde não havia crucifixos a tapar frestas e dos papeis escritos por mim, apenas algumas cinzas restavam junto ao cinzeiro em granito que um grande amigo me tinha oferecido. Nunca mais fui assaltado.

O tio Serafim animava a adega. Artista conceituado por aquelas bandas, brindava-nos com o vinho morangueiro, confesso que nunca o bebi, porque detesto vinho, mas fazia-me acompanhar por umas Cucas, o famoso presunto, a linguiça, e claro, o melhor pão de milho que comi até hoje; o pão de milho da tia clementina.

O Serafim além de cantar o fado, ser barbeiro nas horas vagas, cuidar das terras e do gado na companhia da tia Clementina, ainda na juventude, tinha feito crer a muita gente que tinha regressado do Brasil, sem que nunca tenha saído do Bairro Alto em Lisboa. Um verdadeiro artista. Um homem galante, de fato, bengala e nunca deixava de se acompanhar pelo famoso palhinhas e do respectivo sotaque.

E Carvalhais, aos poucos, começou a ficar sem graça. Uns foram para ali, outros foram para acolá, ela começou a ler umas coisas de AL Berto, e basicamente, todos eles mortos, desaparecidos do combate da vida.

Às vezes, durante a noite, oiço o velho moinho do tio Serafim, vou à janela e chegam a mim as silenciadas sombras que brincam no campo de milho, mesmo por baixo dos meus pés. Quanto à espingarda, também ela, morreu numa manhã de neblina…

Que assim seja.

 

 

 

Alijó, 10/10/2022

Francisco Luís Fontinha


06.08.22

Se me morres

Eu morro de saudade,

Se partires

Eu voo em direcção ao mar,

 

Se olhares o luar

Eu escrevo no teu corpo de bálsamo adormecido,

E se me abraçares…

Bom…

 

Eu finjo ter morrido.

Se me morres

Eu desenho na tua sombra

O infinito adormecer,

 

Se me beijares

Eu serei o teu poeta das manhãs envenenadas pelo silêncio…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 06/08/2022


26.07.22

Tínhamos duzentas mil palavras sem razão

E uma espingardada de desejo,

Tínhamos a voz incendiada da madrugada

No cortinado beijo,

Tínhamos na mão a triste enxada

No grito de uma canção,

 

Tínhamos o silenciado

Cansaço dos socalcos ao Douro mergulhado,

Tínhamos a luz em demanda tristeza

Correndo montanha abaixo,

Tínhamos o rio crucificado

Na paisagem beleza,

 

Da paisagem alimento.

Tínhamos a uva invisível amanhecer

Que entre mãos emagrecia,

Tínhamos as palavras de escrever,

Tínhamos a alegria…

Tínhamos duzentas mil palavras sem razão

 

Nos seios teu maldizer,

Tínhamos poesia,

Tínhamos as flores em papel cremado

Nas cinzas que ele sentia…

Tínhamos as duzentas mil palavras de viver,

No viver encarcerado,

 

Do viver adormecido.

Tínhamos o vinho lunar

No poema desamado,

Tínhamos no corpo escondido

A lâmina triste mar…

Deste vinho embriagado.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26/07/2022


08.05.22

Descia a calçada descalça

Dentro da sombra imanada da solidão,

Descia a calçada envenenada

Pelas rosas do meu jardim,

Descia a calçada descalça

Acompanhada pelo perfume do Verão,

Descia a calçada cansada,

Cansada de tanta paixão,

 

Descia a calçada das estrelas

Como se o sopro da manhã

Se levantasse do chão;

Descia a calçada madrugada

Enquanto o enforcado poeta

Escrevia na mão…

Enquanto a desgraçada calçada

Morria de paixão.

 

Descia a calçada descalça

A menina das planícies além-mar,

Trazia um barco suspenso na saia

E um marinheiro acorrentado aos lábios…

Descia a calçada descalça

A menina luar,

Sem perceber que esta calçada

É apenas um pássaro de voar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/05/2022


23.04.22

Tínhamos o céu,

Tínhamos as gaivotas junto ao mar,

Tínhamos no silêncio o véu,

O véu de chorar,

Tínhamos a montanha doirada,

Tínhamos as palavras de escrever,

Tínhamos tudo ou quase nada,

Nada para comer.

Tínhamos um rio selvagem,

Que poisava, durante a noite, na nossa mão,

Tínhamos medo da viagem,

Da viagem sem coração,

Tínhamos poesia, palavras envergonhadas,

Tínhamos nos livros de amar,

Todas as madrugadas,

E… tínhamos o cansaço do mar.

Tínhamos lápis para riscar,

As paredes da solidão,

Tínhamos vontade de gritar,

Nós queremos é pão.

Tínhamos a saudade travestida de amanhecer,

Tínhamos muitos barcos de brincar,

Tínhamos vontade de correr,

De correr e gritar.

E tínhamos o silêncio no nosso peito.

Tínhamos espingardas de papel,

Tínhamos um barco sem jeito,

Que puxávamos com um cordel.

Tínhamos alegria,

Tristeza,

Tínhamos a fantasia,

No desejo em beleza,

Quando tínhamos no sonhar,

O perfume de uma flor,

Quando trazíamos do mar,

Silêncio e dor.

Tínhamos a vaidade de crescer,

Sob os pincelados beijos de arenato,

Tínhamos as nuvens a morrer

Nas lágrimas de um regato.

Tínhamos a paixão,

Tínhamos as sandálias do pescador,

Tínhamos sempre na mão,

Uma e linda pobre flor.

Tínhamos sanzalas em prata

E cinzeiros amordaçados,

Tínhamos sonhos de lata,

E tínhamos os filhos envergonhados.

E tínhamos a fogueira…

E tínhamos a canção…

E não tínhamos maneira,

Maneira de dizer não.

Hoje, não temos nada,

Hoje apenas uma fotografia junto ao mar…

Hoje, apenas a madrugada

E a vontade de voar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/04/2022


13.02.22

Não sei porque chove

Neste poema envenenado.

Não sei porque chove

Nestas palavras sem nome.

Não sei porque chove

Neste corpo cansado,

Cansado da fome.

 

Não sei porque chove

Nos teus lábios de amanhecer.

Não sei porque chove

Na tua boca de luar.

Não sei porque chove

Neste corpo de morrer,

De morrer junto ao mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13/02/2022


28.01.22

Deste dia terminado

Das palavras sem memória,

Deste poema cansado

E deitado em mim,

Esquecendo a estória,

A estória sem fim.

 

Deste dia terminado

Nos poemas de adormecer,

Deste dia o mar salgado

Correndo sem correr,

Neste dia terminado

Nos braços do amanhecer.

 

 

Alijó, 28/01/2022

Francisco Luís Fontinha


25.01.20

Percorro estes montes de ninguém,

Na ausência do prometido poema,

Cansaço da madrugada,

Quando alguém me chama,

Me grita,

E me acena;

Triste é esta calçada,

Onde habito sem memória,

Sem história.

Na noite desgarrada,

Escrevo, pinto, o teu retracto,

Passeio-me pelo infinito amanhecer,

Sem perceber,

Que nas minhas palavras,

Vivem os esqueletos malvados,

Sem sono,

E, alicerçados,

Às palavras vãs,

No bosque,

As árvores, o silêncio da luz,

Que me traz a saudade.

Pinto,

Sinto,

Que todas as sílabas,

São balas assassinas,

Munições de esperança,

Quando acorda a noite.

Sabes?

Amanhã serão apenas sombras,

As tuas palavras,

Que alimentam a madrugada.

O silêncio da luz,

Nas mãos do poeta…

Perde-se,

Vive-se,

De quê…?

Sempre que amanhece,

Neste corpo zangado,

Filho e filha,

Passeando por aí…

Passeando ausente,

De mim,

E, de ti.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

25/01/2020


15.01.20

Não me digas as palavras que eu te prometi.

Ontem, reinava o silêncio, no interior do teu abraço,

As flores, cansadas de dormir, acordaram com o teu sorriso,

Dilacerado nas manhãs de Sábado.

Não gosto dos Sábados, meu amor.

Fico estúpido, burro,

Durmo na despedida do Adeus,

Às vezes, esqueço-me de almoçar,

Lanchar,

Ou… jantar,

Coisa pouca,

Ninguém morre por não comer.

Não me digas as palavras que eu te prometi,

Porque este livro em solidão,

Assusta-se com a minha voz,

Foge de mim,

Como um mendigo,

Ou… sem-abrigo.

Não,

Não me digas,

As palavras,

Em voz alta,

As palavras que eu te prometi,

E mesmo assim, hoje, escrevo-as no teu olhar.

Sinto-me cansado dos dias,

Das noites,

Sem dormir,

Vagueando num corredor escuro,

Sombrio,

Que me traz à lembrança, a morte.

Essa mesmo,

O final do dia,

O eterno desgosto,

Que abraçam os livros de poesia.

Oiço-te,

Lá longe,

Nas páginas esquecidas da sonolência das palavras,

E mesmo assim,

Grito,

Sufoco com os gritos das pedras,

Também elas, tristes, gastas, e, cansadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

15/01/2020

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