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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


27.07.22

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Trinta dias esquecidos

Nos trinta dias vividos,

Eram trinta dias sofridos

Dos trinta dias adormecidos,

Trinta dias doridos

Nos restantes trinta dias sentidos,

Eram trinta dias pensativos

Nos trinta dias perdidos,

Tantos trinta dias cansativos

Quando existem outros trinta dias emagrecidos,

Eram trinta dias permitidos

Nos trinta dias trazidos,

Trinta dias pretendidos

Enquanto os trinta dias decorridos

São trinta dias hauridos,

Trinta dias indeferidos

Que dos trinta dias pruridos

Trinta dias são cumpridos

Em trinta dias auferidos;

Que se fodam os trinta dias geridos

Nos trinta dias inseridos,

Tenho tantos trinta dias fodidos…

Que nos dias trinta áridos

Tenho os trinta dias incorridos,

Nos trinta dias exercidos.

Trinta dias aderidos

Enquanto adormeço os trinta dias incorridos…

Trinta dias supridos

Dos trinta dias garridos.

São trinta dias do caralho ocorridos

E outros trinta dias devidos;

Que se fodam os trinta dias fingidos

 

Dos trinta dias convertidos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/07/2022

(Desenho de Francisco Luís Fontinha)


07.07.22

Perdias-me enquanto o mar entrava pela janela, e do silêncio das pedras, ouvíamos as palavras parvas das tardes de orvalho. Sabíamos que da noite ressuscitaria o poema que anos mais tarde se suicidaria nas velhas planícies das sílabas ensonadas.

E mesmo assim, perdias-me.

Levantávamos as estátuas embriagas que do jardim escutavam os gemidos nocturnos das marés em flor, depois, dançávamos até que o luar descia madrugada abaixo e,

Dançávamos,

E víamos os barcos em pequenas brincadeiras metalomecânicas que ainda hoje vagueiam nas esplanadas que só o rio sabia desenhar.

Dançávamos,

Até que o teu esqueleto de prata se fundia nas mãos do silêncio; acabava a noite quando lá longe, muito longe, a corda da solidão percebia que seria o último beijo.

Estou aqui. Estou acolá. E dançávamos até que acordava o penúltimo poema do desejo.

De pão, nada tínhamos. Mas tínhamos as pedras para amar. Mas tínhamos nas mãos o testamento segundo o seu último desejo; que nós fossemos sempre criança.

Crescemos, crescemos…

E ainda hoje somos crianças de farrapos.

Perdias-me enquanto o mar entrava pela janela, perdias-me enquanto a maré assassinava os teus seios numa tela cansada de luz,

Amém,

Que hoje gritam as almas mortas; assim seja, Nikolai Gogol. Que assim seja.

Porque dançávamos depois do banho, quando o mar entrava pela janela.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 7/07/2022


05.02.22

Quando o corpo se deita na tela, uma voz em pequenos murmúrios e gemidos abraça-se às pinceladas manhãs de Primavera. A tinta, as tintas, o pincel, todos são o coração ensonado da imagem sombreada das lâminas do desejo. A fotografia ergue-se como se erguem todas as crianças quando ouvem a voz da mãe; o filho perfeito, esse espaço entre a noite e o dia, não existe. As cores são a saudade, quando a mão do artista acaricia esse corpo de luz e sombra, quando o artista os olha

E nada como um pequeno beijo junto ao mar.

Todos os barcos, todas as cores, dançam agora sobre a tela inanimada, quase a desfalecer; a morte ocorre quando o artista dá por concluída a sua obra; mas será que a obra fica assim, tão simplesmente, concluída? A obra é como um filho, só fica concluído quando morrer e, transforma-se em pó.

As mãos, alicerçam-se aos lábios da tela, o cavalete espreita pela janela e percebe que a tempestade se aproxima, que os barcos estão a regressar rapidamente a terra, neste caso, à tela. O artista, chora. O corpo, suspenso na tela, vacila e, percebe-se que existem pequeníssimas gotículas de suor; a pele absorve as cores primárias, cerras os olhos e liberta um uivo de silêncio.

Assim, a tela entre pequenos gemidos e outros tantos sons inaudíveis, encosta-se às mãos do artista, rodopia em sentido anti-horário e, desce até às profundezas do abraço. Alguém me sabe dizer o que fazem as mãos do artista quando a obra termina? Nada. São os olhos da arte.

Sentem-se as fugazes candeias, quando dentro do atelier uma parcela de luar ilumina o corpo terminado, pronto a ser vendido. O artista constrói corpos para venda e, quem comprar os corpos construídos pelo artista, através das mãos, olha-os. O submundo das profundezas mais esguias, carrega no peito o cansaço do dia, carrega nas mãos, os olhos do amanhecer, quando ainda todos dormem, mesmo os corpos mais preguiçosos deitados na tela.

A tela é um monstro que se alimenta do corpo, pequenas cores misturadas numa tarde de Inverno e, sabendo que todos os corpos são desprovidos de lábios, aqui podemos dizer que o beijo é proibido. O sagrado desejo, quando a mão, um dos olhos da tela, desliza até encontrar as coxas envenenadas numa tarde de silêncio, assim, percebe-se que os dias, que as noites, que tudo, que nada, fazem sentido nesta tela imaginária que é a vida.

Se a vida são cores em movimento numa tela nua, branca, suspensa num cavalete, o exercito de pinceis e espátulas são o criador Deus quando acordou ao terceiro dia. Os mandarins da insónia poisam sobre a minha sombra desejada por uma sombra de medo, ao fundo, lá longe, um pequeno cardume de peixes em papel colorido, aproximam-se e, todos, devoram-me, restando depois, uma tela nua e vazia.

Como sempre, existe dentro de nós uma tela nua, vazia, recheada de medo. E este pedaço de mundo submerso, alimenta-se das palavras que o poeta vomita sobre os corpos deitados na tela; ninguém percebe o desejo do artista, quando com um punhado de pinceis e algumas espátulas, transforma o branco em corpos, com asas, que voam em direcção ao mar, e o mar nunca será um filho de Deus.

As mais belas canções de uma infância entre lápis de cor e bolas de plasticina, e depois do lanche, um papagaio colorido mergulhava no cacimbo solidão de mais uma tarde junto às mangueiras.

E este pedaço de mundo submerso, ergue-se entre os rochedos e os corpos pincelados na tela.

 

 

 

Alijó, 05/02/2022

Francisco Luís Fontinha


11.08.20

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Acrílico s/tela 70x100 – Francisco Luís Fontinha

 

Um silêncio de espuma poisa suavemente no teu olhar, a manhã fria, passeia-se pelo jardim imaginário da sombra, o perfume do teu sorriso vagueia, lentamente, nas amoreiras em flor, cansada, a manhã, alicerça-se aos braços do poeta, que incendeia palavras junto à árvore do silêncio,

Ouves-me?

Grito.

O grito da corça, o vai-e-vem dos sons melódicos do desejo quando abraçam o corpo camuflado no silêncio de espuma, as flores, o amor quando as flores brincam na eira granítica do sono e, ao longe, o tão esperado fim-de-semana,

Amanhã, vens?

A sepultura do esqueleto ósseo dorme, as lâmpadas da noite, em queda livre, suicidam-se nos pequeninos pedaços de papel que o poeta amarrotou durante a tarde,

Sombras de néon sombreiam o teu no corpo embalsamado pelo silêncio, aquele de espuma, que habita na cidade dos pássaros,

Flores, meu amor, são apenas flores…

E, ninguém sabe a que horas abre o jardim do descanso, com banquinhos de madeira cansada pela tempestade da tarde,

Amanhã, vens?

Claro que sim,

Flores, donzelas, meninos e meninas, o circo chegou à cidade dos pássaros e, os pássaros, todos eles, vestiram-se de palhaço; o pobre, o rico e, o grande palhaço do Reino, que existe, mas que ninguém conhece.

Abrem-se ranhuras no gesso fendido da madrugada, todos os gemidos nocturnos, de variadas cores, alimentam o orgasmo imbecil da esperança, acreditava em pássaros, meu amor,

Amanhã, mãe?

Ai o amor, meu querido, quando dormes sobre uma lâmina de granito, encostas a cabeça ao meu ombro, depois desces a calçada em direcção ao rio e, beijas-me loucamente,

Acreditas no destino, meu amor?

Talvez meu filho, talvez,

Um zero à esquerda, sentou-se sobre o paralelepípedo do sono e, embarcou numa jangada para a ilha dos amantes.

Hoje, sou um pedaço de silêncio de espuma.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Agosto de 2020

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