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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


08.10.22

Meu querido Fernando,

 

Atravessaste o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias, meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te apenas do silêncio…

Sabes, meu querido Fernando,

Levavas-me a olhar os barcos gordos que descansavam no porto de Luanda, pegava na tua mão e sentia-me o menino dos calções mais feliz de todos os meninos dos calções, depois, entre pedaços de silêncio, perguntava-te porque…

Porque choram as acácias, pai?

Dizias-me que tinham sono, dizias-me que era devido à distância entre a lua e a terra, mas meu querido Fernando, nunca me disseste que as acácias choravam porque estavam tristes, porque estavam tristes, meu querido Fernando. E apenas muitos anos depois percebi o que era a tristeza,

Voavam como ninguém. Manhã cedo pegavas na Bedford e passeavas-te pelos musseques em busca de não sei o quê, tal como eu hoje, tal como eu ontem, tal como eu amanhã, mas nunca percebi porque atravessas-te o rio Congo em direcção ao nada,

Fugias de quê, Fernando? Das acácias, meu querido?

Lembras-te Fernando, quando cismei que queria escrever na tua carta de condução e poisaste devagarinho a tua mão no meu rabo, mas sabes meu querido, teimoso como sou, teimoso como era, de nada serviram as tuas palmadas, porque o que eu queria mesmo era escrever na tua carta de condução.

Depois comecei a rabiscar nas paredes do quarto, da sala, casa de banho e afins; tudo o que fosse parede, o menino dos calções desenhava, deixava a sua marca. E ainda hoje, meu querido, e ainda hoje…

Os pássaros partiram e levaram todos os barcos gordos, dos caixotes em madeira, sobejaram apenas algumas letras em tinta encarnada onde se podia ler PORTUGAL; e de Portugal enviamos um grande beijinho para todos, e uma linguiça para não se esquecerem dos sabores da nossa terra.

E sabes, meu querido Fernando, nunca entendi porque atravessaste o rio Congo em direcção ao nada, do que fugias, meu querido?

Das lágrimas das bananeiras? Da tristeza? Das acácias?

E havia sempre um pedaço de papel poisado sobre a mesa. Havia sempre um barco encalhado dentro de mim, dentro de ti, dentro dela…

Barcos, meu querido. Barcos.

A Bedford engasgava-se, o avô Domingos passava horas a passear um velho machimbombo pelas ruas de Luanda, a mãe passava as tardes a construir papagaios em papel e eu, o menino dos calções, passava as tardes a fazer vestidos para o meu grande amigo chapelhudo. Mas, meu querido Fernando, do que fugias? Como eu…

Atravessaste o rio,

Tínhamos medo das acácias, tínhamos medo do sono que o cacimbo provocava em nós e nos transportava para as pequenas sílabas do capim envenenado pela saudade,

E anos mais tarde, como tu, meu querido Fernando, fui obrigado a mentir-te, fui obrigado a dizer-te que estava tudo bem, mas não estava, meu querido, como poderia estar se já tinhas a morte suspensa nos ombros. Menti-te, depois fui obrigado a mentir à mãe, pela mesma razão,

Desculpa meu querido, desculpa ter-te mentido, mas foi melhor assim,

Olhava-te como quando me levavas a ver os barcos gordos, só que tu te afundavas aos poucos, e os barcos gordos dançavam sobre a ondulação marítima. Minutos intermináveis que pareciam dias, cigarros, cigarros, cigarros de mentira.

E enquanto te afundavas no Oceano da dor e das chagas que alimentavam o teu corpo, recordava as manhãs de Domingo junto aos barcos gordos, recordava a Bedford amarela, de musseque em musseque, e ao longe, o rio Congo.

Depois, desapareceste entre as nuvens. E nunca mais te vi.

Sabes, meu querido Fernando, nunca percebi porque atravessaste o rio Congo, mas percebo hoje porque trazias na carteira a fotografia da avó Valentina e a minha; e mentia-te. Escrevi a mentira em vós para enganar a saudade; e claro que não estava tudo bem.

Como poderia estar tudo bem se os barcos gordos hoje são apenas sucata e pedaços de limalha.

Porquê, meu querido?

Porquê as acácias?

E dentro dos cigarros em metástase, ouviam-se as lágrimas das tardes junto ao teu leito; desculpa a mentira, meu querido; mas acredita que estava tudo bem.

Tudo bem, como hoje.

 

 

Alijó, 08/10/2022

Francisco Luís Fontinha


27.09.22

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E tanto aquele livro, e tanto aquela fotografia, nada sabem sobre o amor e sobre a paixão.

Talvez se lhes perguntasse o que são as misérias do ser humano, ele e ela me respondesse…

Porque choram as acácias, pai?

Talvez me respondessem que já nascemos miseráveis, e como miseráveis que nascemos, nunca poderemos amar, nem tão pouco respirar a neblina da manhã. E enquanto esperava pela resposta do meu pai, nasci; nasci num Janeiro recheado de sol e de muito calor, sem que ainda hoje perceba porque choram as acácias.

Como também não percebo porque choram os pássaros, porque choram as árvores, porque chora o mar e o luar, porque choram as crianças, quando estas, deveriam pincelar sorrisos em cada manhã.

Depois, abri os olhos e vi no tecto da maternidade o mar; tinha sido a minha mãe que trouxe um pedacinho do Mussulo porque já suspeitava que eu

Talvez amanhã acorde.

Que eu pertencia a uma espécie de algas e que um dia seria apenas húmus e passaria o tempo a semear palavras nas planícies do sonho.

Ora, como sonhar é proibido por decreto Real e as palavras são apenas palavras, sombras, rectas paralelas que dizem que só se encontram no infinito, posso afirmar que sou apenas um poema que ninguém lê, mais um poema em direcção ao abismo.

E depois de abrir os olhos, de ver o mar aprisionado no tecto da maternidade, pequei na mão da minha mãe e levei-a a ver o capim que nunca ninguém percebeu de onde vinha aquele cheiro inconfundível depois das chuvas; que saudades…

Das acácias?

Daquele livro que me observa, daquela fotografia que me olha, e atrevo-me a dizer que são as únicas coisas que me observam; como aquele lindíssimo olhar que me seguia enquanto eu passava transportando uns calções coloridos e as sandálias de couro que ainda hoje sonham com o cacimbo pela manhã.

Porque choram as acácias, pai?

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E deparo-me que este livro é apenas um livro, e que esta fotografia não tira os olhos de mim, desde que nasci num Janeiro recheado e sol e de muito calor.

Que lindo, mãe…

Que lindo é o mar!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022


08.07.22

Éramos só nós. Trazíamos no dorso a triste enxada da saudade, quando logo pela manhã, aos Domingos, íamos visitar os barcos, que após uma longa noite de sono, aos poucos, acordavam como acordam as palavras do poema quando este, depois de zarpar do cais, se abraçava à baía que hoje, muitos anos depois, é apenas uma lágrima de sangue.

No Mussulo, escrevíamos na lápide areia branca as palavras envenenadas que só o silêncio consegue ressuscitar, após o almoço, um barco de espuma erguia-se da montanha do sono, aqui e ali, sabíamos que os meninos de calções, aqueles que sobreviveram à noite, começavam a voar em direcção aos sonhos.

São as lágrimas, quando o teu sorriso é uma tela pincelada de Inverno, como a nobre e labirinta geada que após o luar começava a poisar nas nossas mãos e, do teu rosto, os pássaros sabiam que sobre as árvores, que sobre as marés infiéis dos distantes musseques, os velhos ditadores, um dia, morreriam de tédio; amém.

Éramos só nós, trazíamos na algibeira a revoltada fome que emergia das tristes mangueiras que depois das chuvas, o cheiro da terra se impregnava nas roupas como dentes caninos da solidão; éramos só nós. Éramos só nós quando o barco começou a distanciar-se de uma cidade engolida pelo sono, que após passar a linha do equador e, em pequenos engasgamentos, a orquestra limitava-se a escrever na espuma, as sílabas da inocência.

São as lágrimas, quando o teu sorriso é uma tela pincelada de Inverno, são as lágrimas que guardo no peito, as tuas lágrimas das manhãs de cacimbo.

 

 

Alijó, 7/07/2022

Francisco Luís Fontinha


03.07.22

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, diga-se; tínhamos trazido da antiga ilha da solidão todos os leitos do amor proibido. Nas ruas da cidade, ouviam-se os gritos dos cacilheiros que durante o dia transformavam o tejo em pequenas estradas de transeuntes e, sob o viaduto em Cais do Sodré, putas finas guerreavam-se por cinquenta escudos.

O sono, que de algibeira em algibeira, de lapela em lapela, desenhava-se no pavimento lamacento em pequenas vozes sinusoidais e ao fim de alguns gritos e gemidos, acabava sempre por regressar a uma Belém envenenada pelos putos em busca de sexo e depois de alguns escudos, escondiam-se rio adentro como que crianças em fuga da literatura que nesta ou naquela rua, se vendia a preço de saldo.

Uma noite mergulhei no poema da saudade, acreditando que depois do sono, acordarias sobre as lâminas do medo, mas mal visto, nada poderia na altura vaticinar que as janelas do teu olhar, hoje, sejam apenas cacos e pequenas migalhas.

O poema, às vezes, enquanto o poeta fumava cigarros de luz, mergulhava no rio e, ao longe, na varanda de um paquete que começava, aos poucos, em pequenas manobras, a aproximar-se de terra, mergulhava e só voltava depois de longas horas de espera, onde cadeiras e mesas já dormiam.

Hoje, ainda hoje, percebo que o poeta que sentado na margem do rio fumava cigarros de luz e o menino que na varanda do paquete via uma cidade imensa a entrar-lhe olhos adentro, eram um só; eu.

Anos depois, a cidade transformou-se num imenso sono de meninos em calções, sobre a mesa, o punhal com que ela numa noite inventada para a ocasião, espetou no peito do poeta, que ontem, sabia onde habitava o velho poema, e hoje, percebe que esse velho, que às vezes, vestido de marinheiro, pede esmola no musseque, deixou de pertencer aos jardins floridos do sonho.

Bebiam-se shots de fumo que apenas o cacimbo sabia onde se escondiam, depois do sexo, porque a cidade, aos poucos, começava a desaparecer do espelho tricolor da madrugada; e depois da chuva, o cheiro intenso da terra queimada. Levantava as mãos a Deus e agradecia por mais um dia que tinha terminado, e ele, ainda, mesmo a muito custo, se encontrava vivo e de boa saúde.

Depois, o velho poeta morreu numa noite de orvalho, mas deixando de acreditar no desejo, sabia que as margaridas que brincavam no jardim do sono, um dia, regressariam a mim. E hoje guardo com amor a pequena sílaba que ele me deixou de recordação e em testamento.

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, e mesmo assim, o puto trocava notas de cem escudos por ninharias que hoje habitam a casa das abelhas em flor.

E sempre que ele cerrava os olhos, via o imenso mar a entrar musseque adentro como o paquete, em pequenos roncos, atravessou o tejo até ao cais de desembarque e desfaleceu sem que ninguém o tenha, até hoje, ressuscitado.

Depois, morreste-me.

Depois, morri nas tuas mãos.

E sempre que invento o sono, vejo um musseque a entrar dentro do meu corpo como se fosse uma flecha envenenada, como se fosse um poema em delírio.

 

 

 

Alijó, 3/07/2022

Francisco Luís Fontinha


09.02.20

A rua deserta, imune ao silêncio das pedras,

O cansaço das árvores, quando desce sobre a terra a soldão nocturna das acácias em flor,

Um automóvel vomita lágrimas de fumo,

Uma criança brinca na sombra dentada da tarde,

E, mesmo assim, as flores dormem nos abstractos muros da insónia.

É tarde,

O relógio emagreceu com o tempo,

A tempestade de areia, silenciada pelas pedras em silêncio,

Que a madrugada faz florescer,

Acordam as trombetas,

As árvores, tombam à sua passagem,

Como soldados rebeldes,

Como espingardas revoltadas,

Com os homens,

Como os homens.

A noite alicerça-se aos candeeiros do medo,

Como as pedras do silêncio na manifestação junto ao rio,

A revolta contra a noite,

As nuvens emagrecidas, tontas, derramas as suas lágrimas nos arrozais,

Sem em delírio, sempre em manifestação, os homens, as mulheres,

Contra o silêncio das crianças,

Que brincam,

Que brincam na eira do milho amarelado pelo cacimbo,

O cão lateia, chama pelo dono,

Ao fundo,

A aldeia em chamas, lágrimas de prata,

Quando toda a cidade envenenada pela amargura,

Sente, sofre, a desgraça da ditadura…

Como é lindo ser pedra em silêncio,

Lápide ao cair da noite,

Palavras mortas,

Palavras tontas,

Que o menino escreveu, nas paredes da fragrância, deixando ao acaso, um caderno assassinado pelas quadrículas lamentações.

O tempo se esquece,

O almoço na mesa,

A fome de palavras, dos livros enamorados pela madrugada.

Sinto. Sinto-te neste labirinto de insónias.

Ao deitar, todas as drageias.

Que as areias alimentam.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

09/02/2020


21.10.19

Escrevo saudade nas mandibulas nocturnas do silêncio.

Desenho o silêncio nas pálpebras da saudade.

Escrevo-te sabendo que não me vais ler mais.

Oiço a tua voz sofrida nas vidraças de Luanda.

O miúdo dos calções corria, sorria, com as tuas brincadeiras.

Levaste-me a ver o mar.

Levaste-me a ver os barcos.

Eu…

Sonhava um dia ser um dos paquetes fundeados no cacimbo.

Fazias-me papagaios em papel colorido.

Corríamos com um cordel na mão;

Ele subia, subia…

Perdendo-se nas nuvens do fim de tarde.

E hoje,

Tudo é recordação.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

21/10/2019


11.10.19

Aqui estou eu;

Sentado sobre esta pedra adormecida pelo cacimbo.

Aqui estou eu pensando nas metástases nocturnas da infância,

Junto ao mar,

A revolução avança,

O soldado tomba na penumbra, morre.

Cada soldado tem um pai,

Cada soldado tem uma mãe,

Cada soldado tem mulher, filhos, irmãos…

E uma espingarda na mão,

Que dispara palavras.

Aqui estou eu;

Sentado no teu colo,

Afago-te o cabelo,

E mais logo,

Ao final da tarde,

Um pássaro de papel invade o teu olhar.

É isto o amor.

Amar,

Ser amado,

E escrever palavras no chão molhado.

Aqui estou eu;

Sentado numa pedra adormecida (pelo cacimbo).

Sei que respiro,

Sei que estou vivo,

Porque escrevo,

Beijo,

E não me sinto perdido.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

11/10/2019


17.12.17

Conheci-te na plenitude da vida,

Eras uma árvore sem destino,

Cansada de habitar o meu jardim,

Parti e ficaste suspensa no cacimbo, e, até hoje, vives na clandestina noite,

Ausente,

Permanentemente sofrida com os corpos que abraçaste,

Longínqua tarde de despedida,

Nada a fazer, meu amor,

A saudade alicerça-se ao olhar dos flamingos,

Saltitando na tua sombra,

A morte, a sofrida morte entre parêntesis,

Numa pequena folha de papel…

 

Conheci-te era eu criança, menino sem destino,

Brincava nos teus braços,

Como se fosse uma andorinha na Primavera,

Alegre, agachava-me debaixo de ti, meu amor,

E, alegremente sonhava com os teus frutos,

As mangas, as folhas caiam derradeiramente sobre o meu cabelo,

E dos calções, as primeiras palavras escritas no teu tronco,

 

Amo-te!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Dezembro de 2017


16.02.17

Nesta cidade me suicido

Com a lâmina de barbear

Que sobejou da última ceia…

As árvores acompanham-me até ao túmulo

Onde dormirei até ao amanhecer,

Depois, depois serei levado por uma jangada de solidão,

Levo na algibeira as amarras,

A pequena bagagem, o indispensável,

Alguns livros,

Papel, caneta… e pincéis,

Nesta cidade me suicido

Como um cão raivoso,

Revoltado com as notícias do jornal,

Vende-se,

Compra-se oiro,

Aluga-se apartamento junto ao mar…

E do meu corpo nem conseguem falar,

Apenas que o silêncio deixou de habitar as minhas tristes mãos de porcelana,

O cansaço,

O cansaço de escrever sem perceber onde nasci,

O que faço aqui? O que faço nesta cidade pintada a preto-e-branco,

Os muros dormem enquanto desenho um sorriso na terra queimada pelo vento,

Sinto o azoto do amor descer a calçada e alicerçar-se no rio,

Sinto a alvorada a comer-me…

Nesta cidade onde me suicido,

Com a lâmina de barbear…

Da última ceia… o perigo de acordar antes do sono,

O ultimato lançado pelo desejo para que eu seja depositado num aterro sanitário…

Não, não me agrada a ideia de ser comido por coisas simples

Que alguém deitou fora…

E morre o poema sem que o poeta se levante do chão ensanguentado pelos beijos da madrugada,

O papel arde,

A caneta sonolenta, tomba no pavimento encharcado de sémen…

Apagam-se todas as luzes,

Apagam-se todos os silêncios…

E apenas eu, só, nesta cidade enraivecida pelo cacimbo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

16/02/17


14.10.15

desenho_13_10_2015.jpg

Fontinha – Outubro/2015

 

A estátua que habitava no teu peito

Esta sentada, hoje, numa cadeira sem jeito,

Brinca, hoje, num jardim amarrotado por mãos inanimadas,

Como são tristes todas as madrugadas

E todos os versos do poeta,

Como são tristes todas as manhãs embriagadas

À mesa com um qualquer pateta,

Um imbecil encurralado na noite

Esperando o acordar de um relógio sem alma,

Chora, acredita nas lágrimas do sofrimento,

Chora, e inventa o inferno

No corpo do vento…

 

A estátua… não se cansa de dançar

Sobre a tua pele grená…

Os lábios manchados de sangue,

Os braços entranhados na face de um inocente,

Chora, acredita na liberdade,

Chora, acredita na saudade

Dos ausentes corpos de esferovite,

Grita, grita contra o muro invisível da prisão,

Morre a verdade,

Morre o ditador em pedacinhos de cacimbo…

Rasga o convite

E fica esquecido no tédio limbo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

 

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