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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


06.12.19

Francisco Luís Fontinha

 

Lisboa, 87/88

Alijó / S. Pedro do Sul – Carvalhais, 89

Parte I

Pensamentos de um homem morto

 1

Hoje pude olhar o nascer do sol!

Seus raios são luz que iluminam a esperança,

Não de viver, mas de sonhar.

Tudo o que me rodeia, acorda de um sonho adormecido,

A Primavera finalmente encontrou o renascer

De um amor incompreendido.

Tenho medo…, não de morrer, mas… de sonhar!

2

Estou só e todo o silêncio é pouco.

Entre estas paredes de quem sou prisioneiro,

Recordo-me dos mais loucos e distantes pensamentos,

As pedras que me escutam, olham o transformar

Da minha sombra na escuridão, e que é testemunha

Do meu processo de destruição…

O insignificante a que pertence o meu pensamento,

De nada compreende o meu passado…

3

Em cada segundo de silêncio, o meu pobre corpo

Descansa entre o sonho adormecido,

E todo o meu sofrimento é constante,

Vertical, horizontal, é dor,

E tu nunca compreendeste o que me espera,

Eles dizem-me que o fim está próximo,

Não da morte,

Mas de tudo aquilo que não compreendo…

4

As palavras,

Gritam-me constantemente o silêncio da morte.

A alegria que existe dentro de mim

Não é real, é apenas uma vontade sem vontade

De viver um futuro denegrido, hipotecado ao diabo.

A tua sombra faz com que o meu caminho

Seja projectado num passado distante da minha verdade,

E o teu futuro encalha no meu presente.

Ao longe, olho a tua sombra, e o teu sorriso é lindo!

5

Adeus liberdade solitária!

Tu compreendes-me?

É essa a razão que faz o meu destino

Parecer e ser incompreendido.

Há momentos e não momentos que imagino a separação,

E outros, fico só e o meu corpo adormece.

Em breve vou morrer…, e então serei feliz!

6

Tudo parece impossível!

Viver, sonhar e amar…

Até adormecer é impossível.

Serei diferente?

Olho na luz que me ilumina, e duvido da sua presença,

E da minha existência.

Não compreendo a verdade,

E permaneço rebelde além da destruição…, fico contente.

7

A alma que chora no meu infinito,

Faz de mim solitário,

E o meu coração esconde-se no desconhecido.

No presente, não penso o futuro,

E..., momentaneamente esqueço o passado,

Mas tudo parece impossível…

Não me preocupo quem sou,

E gostava de saber quem serei mais tarde…

 

Parte II

O acordar de uma mulher

1

Vou caminhando rua acima

Fugindo do meu ideal,

Ao longe recordo o mar,

E compreendo não ser eu real.

 

Seu olhar olha-me constantemente

E recordo minha sombra,

E um dia…, se voltares a ser minha amante,

Certamente não serei feliz como a pomba.

 

Maldita escuridão!

Serei eu um sonhador?

E pergunto ao meu coração

A razão de tanta dor…

2

Estou perdido

Numa canção onde posso recordar-te,

E não imaginas o que tenho sofrido

Não ser eu capaz de amar-te.

 

Gostava de dizer-te alguma coisa…

E por minha culpa

O sol no horizonte pousa,

E transporta-me para tão grande luta.

 

Conquistei o teu sofrimento

Numa noite em Setembro,

Com os teus cabelos soltos no vento,

Que já esqueci e não me lembro.

3

As folhas caídas

Repousam eternamente neste lugar,

Olho ao longe, as árvores despidas

À espera de um novo luar.

Sozinho e triste

Caminho sobre casas ruídas,

Mas…, o meu amor não resiste

Às folhas caídas.

4

Alem recordo o teu rosto

Repartido pelos movimentos vividos,

Brilhante como Sol-Posto

Imagino horizontes denegridos…

Alem ouço a tua voz

Que me tira as forças para continuar;

E alguém chama por nós

Na razão de amar.

Alem recordo o teu sorriso

Tal como se tratasse de uma estrela cintilante,

Alguém perde o juízo,

E eu, eternamente,

Adormeço no mar…

5

As flores acordam ao amanhecer

Caminhando em distantes mágoas,

Em pensamentos que me fazem reviver

A pureza de suas águas.

 

Recordarei sempre o teu olhar

Tal como o teu corpo,

Sabendo que não te posso amar

Porque brevemente estarei morto.

 

Sofro por tua causa

E desconheço se vou resistir;

Em mim apodera-se uma pausa

E logo me leva a partir.

6

As estrelas deixaram de brilhar

E o mar fica distante!

A noite, transparente, parece reconhecer

Sombras encalhadas na ruela,

E ao fundo, a luz cansada de acender,

Apresenta-me uma mulher muito bela.

As estrelas deixaram de brilhar

E o mar fica distante!

Olhei o meu amor

Escondido na cabana,

Escondia sua voz no tambor

E iluminava objectos de porcelana.

As estrelas deixaram de brilhar

E o mar fica distante!

O caos do meu pensamento

Transporta-me para o final,

E todo o meu sofrimento

Esconde-se como um animal.

As estrelas deixaram de brilhar

E o mar fica distante!

 

 

Para publicação


01.08.14

Tenho no meu peito um fóssil,

uma lâmina de aço laminado,

tenho no meu peito uma cidade, uma mulher que habita nessa cidade, uma lâmina...

que me estrangula, que me absorve,

e engole,

nas noites de Sexta-feira...

 

Há um triste olhar que me acompanha desde as ruas de Luanda,

olhava as sanzalas, inventava grãos de areia no Mussulo,

desenhava peixes nos machimbombos com coração de granito,

ouvia, às vezes, um grito...

e engole,

nas noites de Sexta-feira,

 

Há um apito quando oiço a voz do silêncio,

uma criança com mãos de sisal,

deitada na eira de Carvalhais,

tenho no meu peito um fóssil,

um lâmina de aço laminado,

uma luz esculpida na calçada do abismo...

havia entre nós um muro amarelo,

havia ao longe um rio embriagado,

eu, eu sorria,

eu, eu descia... até que os tentáculos do desejo me levavam,

e quando regressava,

o apito... apitava...

 

O vício vomitava sílabas com sabor a alumínio,

e eu, eu dançava sobre uma nuvem de nada,

que me estrangulava, que me absorvia,

e engolia,

nas noites de Sexta-feira...

… e percebia o significado de liberdade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014


26.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sentíamos os pinheiros de papel voando nas planícies pinceladas em vermelho inventado,

havia um pulmão de Inverno nos teus olhos de disco voador,

gaivota sonhadora, havia em ti um tímido silêncio de dor,

uma travestida mágoa conversando nas eiras com palheiros de granito,

ouvíamos, às vezes, o ranger das ripas entre os pregos ao aço dorido,

e sentíamos os triângulos isósceles quando ainda existia em nós... a dita tranquila paixão...

 

Ainda sinto as tuas tristes mãos onde habitavam palavras com medo,

segredos sem sentido,

amores proibidos... beijos que nunca conheceram o diáfano cansaço da noite,

sentíamos os alforges engolindo pedras e outras coisas sem nome,

e ainda sinto,

e ainda tenho... a dita tranquila paixão...

 

Sabíamos que a saudade era apenas uma palavra perdida no meio da seara envenenada,

sabíamos... sentíamos... sabíamos que os nossos corpos jamais se separariam das janelas com grades em vidro,

e no entanto... deixamos adormecer todas as imagens a preto-e-branco que tínhamos encerrado dentro dos nossos corações de manteiga,

o amor desperdiçado em voláteis vozes em fumo e banho-Maria,

e... e nós... a dita tranquila paixão...

em poderosos parquímetros com paquetes em dóceis apitos do desejo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 26 de Janeiro de 2014


11.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Inspiração quanto baste, três desejos e um sonho, o mar sumarento e sensível como a pele límpida da alvorada, quatro árvores desajeitadas e sem sono, uma drageia ao pequeno-almoço e outra...

Ao deitar?

E a outra e mais outra, a inspiração, o orvalho, o soalho e o espelho, a cama em lágrimas e o sofrimento impregnado nas lâminas transversais do gesso embriagado, quatro árvores em decadência, um corpo suspenso na madrugada, a chuva, as nuvens apaixonadas pelo triste cacimbo... e nada mais, e apenas um menino

Ao deitar?

Quatro drageias, três árvores em desejo misturado em cinco quintos de sonho, uma

Merda?

Ao deitar?

As fotografias em constante transbordo, a locomotiva da paixão descarrilou, ravina abaixo, ravina acima, a mini-saia encarnada e as meias com bolinhas brancas, no joelho a nódoa negra, a pedra em granito que caiu do silêncio camafeu em robe e velho pijama, o corredor, a espera, a derradeira espera, uma janela, cigarros na mão, ao longe, ao longe o metro de superfície parecendo uma lesma sobre os muros em xisto do Douro Vinhateiro, socalcos de pano, lanternas na cabeça, e a burra... tropeçando, e a burra...

Ao deitar?

Desesperado eu, a inspiração em drageias, quatro, cinco... ou nenhuma... as janelas embebidas na dor e eu sentado, braços cruzados, braços descruzados, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, e eu... desesperando, pensando, pensando

O que será de nós?

E ao deitar,

Não sei se a imaginação vive dentro de mim ou se eu, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, cruzo os braços, descruzo e enrolo-me à dor dos presentes, fumo, não fumo, abro a janela, não abro a janela... apetece-me saltar, aterrar do outro lado da rua, cair sobre os carris do metro, deitar-me de barriga para o céu... e gritar, e... e chorar..., e

Ao deitar tomo as drageias da saudade, meio copo com água, um copo com uísque, dissolvidas todas como sementes junto à eira em Carvalhais, irrita-me

Ao deitar?

O metro de superfície correndo como um louco, e dizem que o louco sou eu, cruzo, descruzo, invento desenhos nas paredes incolores da tristeza, oiço-os em conversas desalinhadas, finjo não os ouvir, eu não os quero ouvir,

Ao deitar? E ao deitar a sonolenta voz das palavras, a neve sobre os telhados que a dor deixa nos malditos ossos, frágil – cuidado, cuidado com o cão, cuidado com as carruagens do metro de superfície engasgadas, tosse e rouquidão, não sei se fume, não fume ou fume, comprar cigarros, saltar a janela, saltar o gradeamento, saltar os carris... e eu... e eu imaginando cigarros nas paredes coloridas da cela, a porta abre-se...

E?

O que será de nós?

E ao deitar, o perfume da Cinderela passeando junto aos carris...

(desesperado eu, a inspiração em drageias, quatro, cinco... ou nenhuma... as janelas embebidas na dor e eu sentado, braços cruzados, braços descruzados, e eu... compro cigarros, e eu... não compro cigarros, e eu... desesperando, pensando, pensando

o que será de nós?)

Inspiração quanto baste, três desejos e um sonho, o mar sumarento e sensível como a pele límpida da alvorada, quatro árvores desajeitadas e sem sono, uma drageia ao pequeno-almoço e outra...

Ao deitar?

Ao deitar as drageias, os silabados imaginados por um louco que depois da felicidade deseja voar como gaivotas sobre os petroleiros vampiros que habitam os rios dos velhos sonhos de infância,

Não sei, não... sei... não sei se ele conseguirá...!

Talvez,

Ao deitar?

Talvez... talvez ao deitar.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 11 de Janeiro de 2014


26.12.13

foto de: A&M ART and Photos

 

Vinte e uma horas e as ratazanas azuis deambulam no corredor da insónia

sou invadido por um sonho em tons de branco

e um tecido opaco ofusca-me o olhar

a cegueira entranha-se na minha mão

passo-a pelo teu rosto e verifico que não tens rosto...

… vinte e uma horas e tu não existes

e tu

tu pareces uma rosa desgovernada na paisagem sem moldura

uma tela em branco

uma janela...

janela sem caixilho... quando sinto o vento entrar e nada posso fazer

e nada me apetece fazer...

 

Deixo a caneta sobre a secretária

deixo um dos livros em pausa perto da mesa-de-cabeceira

desligo o interruptor da saudade

dos sonhos

e percebo que a lâmpada do desejo nunca mais se acenderá na minha vida...

anticongelante corre-me nas veias tristes e sonolentas

agrestes

precoces como os primeiros passos em sandálias de couro

os calções voavam sobre as mangueiras sem bandeira

e a apátrida criança nunca mais quis olhar o mar...

desistiu

desistiu dos sonhos com bonecos de peluche

 

Desistiu dos velhos pinheiros de Carvalhais

da eira

do espigueiro...

vinte e uma horas em Portugal Continental

e um miúdo perde-se na imensidão das ruas com os espelhos das velhas secretárias

com velhos papeis

em velhos edifícios atulhados em reumatismo e bicos de papagaio...

o tempo acabou

e os calões hoje são gaivotas com sandálias de couro

que brincam no Baleizão

ou...

ou... ou talvez... não.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 26 de Dezembro de2013


05.12.13

foto de: A&M ART and Photos

 

Tristemente invadido pelas análises clínicas dos perfumados jardins das jangadas embebidas em cianeto e outras

Escadas?

Palavras, não o sei, não o consigo perceber, talvez este verso alimentado pela inveja encontre dos triângulos dos dias tristes as algas masturbadas dos rios envenenados pelo doce odor da paixão, do cinismo...

As escadas...

Nunca tive Sábados, e à Sexta-feira tínhamos Açorda de Marisco, pão, vinho e sobremesa,

A sério?

Tristemente invadido pelos machimbombos da insónia, escondia-me de ti, debaixo da mesa no quintal das bananeiras, mangueiras e outras … eiras

Carvalhais,

Sexta-feira,

Eles não sabiam que tínhamos almoçado, traziam-nos coisas estranhas, comíamos tardíssimo porque acreditávamos que havia fantasmas que roubavam a comida dos pobre, e as tuas mãos abraçavam-se à minha cintura rechuxuda, hirta... fria como a geada de hoje à noite, e dizias-me que todas as árvores são como os pássaros quando são velhos...

Não voam, não voam mas também não andam, não bebem... e também não pagam, e também,

As escadas?

Sexta-feira,

Tristemente...

Aquele beijo que ficou esquecido sobre a mesa-de-cabeceira, aquele sorriso impregnado na vidraça estilhaçada da janela com fotografia para o quelho, aquele abraço perdido dentro dos cobertores da inocência, aquele beijo, aqueles teus lábios em pétalas que o desejo sobejou das tardes perdidas, aqueles livros poeirentos abandonados na estante do corredor, aquele teu alicerçado seio sobre a minha solidão, claro... imortal na cama em tardes de neblina, imortal no jardim dos clandestinos Domingos...

Sábados à tarde,

Sexta-feira à noite,

Aquele beijo, aquela melodia adormecida sobre os abajures da melancolia, aquele dia com palavras de luar, aquela madrugada com talheres em prata, e corpos, corpos de nata...

E ouvíamos o beijo esquecido das gaivotas em cio, e ouvíamos os tristes carris da liberdade mergulharem nas montanhas de papel como lagartas e outros bichos, coitados

Procurando,

Coitados...

Caminhando..., o beijo esquecido das gaivotas em cio, procurando as cinzas do casebre abandonado depois de partirem todas as árvores do destino que acompanhavam as alegres palavras comedidas pelas mãos de giz... aquele divã onde te deitavas, e eu, eu sobre ti entranhava-me nos teus gemidos invisíveis dos xistos borboletas em voos de andorinha, coitados...

De nós...

Deles...

O beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro... imortal no jardim dos clandestinos

Domingos...

Sábados à tarde,

Sexta-feira à noite,

E não bebem, e não pagam, não dormem mas... também não sonham,

As escadas?

Tristemente tristes, tristemente... sós, sós, talvez só às vezes tristemente sós...

O beijo dilacerava-se, o beijo derretia-se como chocolate, a Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo pela módica quantia de

Os beijos pareciam migalhas de pão abandonadas sobre a mesa de ébano, cheirava a naftalina, a toalha pertencia aos objectos escondidos como as pratas que deixaram de existir desde eu criança, como as porcelanas e todo o marfim, tínhamos falido, e vivíamos como Príncipes imperfeitos vestidos de carrancudos criados sem ofensa para vossemecê meu grande amigo

As escadas?

E pela módica quantia de dois beijos e uma sexta-feira...

Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo a estrear, excepto o vinho, que esse, esse já era em quarta ou quinta mão,

Sexta-feira, amanhã, a estrear, o beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro, e eu, eu inventado Açordas de Marisco, sopa, pão... e o vinho, e o vinho parecendo água depois das tempestades de...

Sexta-feira, Sábado, e Sexta-feira temos

Açorda de Marisco... e vinho, e vinho, tristemente... só. Só.

(onde está a sobremesa, raios?)

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013


10.11.13

foto de: A&M ART and Photos

 

senti-te despregada dos sonhos em castelos de veludo

desci as escadas da solidão à tua procura

mergulhei no incenso magusto das castanhas embebidas em pétalas de amor

dormi na rua por tua causa

subi às árvores para buscar-te as asas que te prometi

e por lá fiquei

senti

e sem ti

senti-te mais tarde dentro de mim como se sente o rio quando corre nas nossas veias de onomatopeias desgovernadas

tristes

e simples espada nas cantigas das janelas em ruelas empobrecidas

senti-te despregada dos sonhos em cubos de areia vestidos com bonecos em palha seca

sabia-te perdidamente nas cidades em volta dos relvados nocturnos dos néons castrados como abelhas fundeadas no cais das aranhas e noites em dormitórios de marés rochosas ou das malignas coberturas de zinco nas cabeças sem coloridas manhãs de Outono

amar-te-ei depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita?

e por lá fiquei

senti

e sem ti

imaginava-te louca com brincos de centeio dos campos de Carvalhais

imaginava-te nua dentro do espigueiro junto à eira

e sentia-te entre as frestas do dia em delírios poemas como gotículas de suor que o teu corpo derramava sobre a minha sombra

e por lá fiquei

senti

e sem ti

às caravanas esplanadas do rio embrulhado em pontes de concreto armado

vagueavas-me na ponta dos dedos como objectos minúsculos do edifício da rua dos apaixonados mosquitos de arame

sentia-te fervilhar no meu sangue

sentia-te a desfrutares as palavras dos meus suspiros quando acordava o pôr-do-sol...

e um barco se sémen poisava sobre as tuas coxas envergonhadas

absorvendo o prazer da tarde como uma equação diferencial esquecida dentro do caderno quadriculado

e por lá fiquei

sem saber que tu eras como as espigas de milho

sem saber que tu sonhavas com clarabóias de insónia depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita

amar-te-ei?

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 10 de Novembro de 2013


09.11.13

foto de: A&M ART and Photos

 

em todas as coisas belas fui mestre das tempestades de zinco que habitavam a cidade do nada

adormeci debaixo das sombras pedestres dos castanheiros

vivi em vãos de escada

sorri

e chorei

em todas as coisas belas...

me senti embebido nas lâminas de azoto que vagueavam os alicerces dos muros invisíveis

e descobri que o amor

e descobri que a noite

sorri

e chorei

são abstractos objectos dentro do meu peito

 

pinto desejos nas nuvens de algodão que descem as paredes do Inverno

olho-me no espelho do rio

sinto-te em mim apaixonada por palavras minhas

servem apenas os espantalhos de pano

como as ervas daninhas dos campos de milho de Carvalhais...

abraçadas aos espigueiros da saudade

 

dizem que sou esquisito

que tenho mau feitio

que sou

como o amor

e a noite

objecto abstracto

sem sorrisos

sem âncoras de aço fundeadas no cais das tempestades de zinco

dizem que sou parvo

dizem que sou... esquisito e de mau feitio...

sorri e chorei

são abstractos objectos dentro do meu peito

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 9 de Novembro de 2013


03.11.13

foto de: A&M ART and Photos

 

podíamos aproveitar os desenhos da sala de jantar

podíamos fazer das paredes húmidas telas com alegria

e palavras em espuma

à espera do Oceano

sentávamos-nos sobre a soleira da porta de entrada

e esperávamos o regresso das almas impregnadas no mármore livro onde dorme o avô Domingos

é Domingo

visitei-o e percebi que um dia

eu

não tenho quem faça o mesmo por mim

pertencerei a uma sepultura solitária

entre riachos e pedras dentárias

prédios e alicerces de vidro

é Domingo

e o avô Domingo parece satisfeito com a minha visita

não o consigo ouvir

não o consigo ver...

mas sei que ele vagueia nas minhas mãos enquanto nascem delas as palavras dele

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 3 de Novembro de 2013


03.10.13

foto de: A&M ART and Photos

 

Habitas os planaltos castanhos desde que foram construídos pelos teus olhos em flor, habitas como sombra dentro do meu corpo, dentro do meu cubo esquelético, e dos meus olhos triangulares sinto os ângulos obtusos entranharem-se-me como agulhas, como serpentes de aço, barcos e caravelas enferrujadas, velhas, caquécticas sentadas à mesa do café, pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis,

A chuva, para ti, é o quê?

Um corpo húmido circula concêntrico na fogueira dilacerante que os morcegos deixaram antes de todas as luzes se acenderem, ouvia gritar o meu nome no espelho de um guarda-fatos de mármore, a cama cheirava a sexo e a palha, o colchão picava os corpos transparente que tinham sobejado do Verão minguado, havia uma mão na tua boca, havia

A chuva, para ti, é o quê? Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, escrevem sobre a mesa as folhas tristes do Outono, desnudas, as árvores, abraçam-se aos guindastes plastificados em brinquedos crianças, vêm as lágrimas, vêm os primeiros holofotes de néon depois de partirem as madrugadas, e os corpos, os nossos, e os deles

Apodrecem os ramos...

E os corpos amanhecer suspensos nos alfinetes do alfaiate, as calças ficam-me pelos tornozelos, ele ri-se como se eu fosse um boneco de palha espetado no centro do campo de trigo em Carvalhais,

Você cresceu, amigo!

Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, a chuva

A chuva, para ti, é o quê?

Um corpo magoado, ausente, triste e cansado, um corpo molhado, um corpo em pura lã virgem antes de acenderem-lhe os braços, ela sorri, encerra os olhos como um navio antes de partir, olhava os porões... e lá longe, homens do tamanho de agulhas, passeavam-se como abelhas de colmeia em colmeia, como velhos

De asilo em asilo,

As ovelhas brincavam sobre a erva doirada das tardes de Primavera, no intervalo entre duas cervejas, uma delas diz-me que se sente apaixonada pelo distinto orvalho, faço-lhe ver que o orvalho é um gajo mal disposto, mal educado, que é um gajo

A chuva, para ti, é o quê?

E ela insiste, e ela que o amor não escolhe idade, religião, sexo ou cor... que o amor apenas acontece, e nada mais de que isso, e que as ovelhas são umas grandes cabras, e que as cabras, às vezes, parecem e nunca o conseguiram ser... mulheres vestidas de chuva, mulheres que pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, que fuma cigarros quando sentadas num banco em granito, e que

E que caiem as folhas das árvores porque elas, as árvores, estão tristes, porque elas, as árvores

E que ninguém quer perceber,

As árvores sinto-as vacilarem como cordéis de neblina no centro esquerdo do cais das borboletas flutuantes, o lago espirra, tosse, tosse... e o dióxido de carbono aloja-se nos teus seios de incenso, como a noite, como todas as mulheres...

Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis,

A chuva, para ti, é o quê?

Gajas nuas, gajas... saltando muros em xisto.

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 3 de Outubro de2013

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