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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


18.09.22

Um dia serás livro,

Palavra semeada na planície do sono,

Um dia serás madrugada,

E no outro dia…

Não serás nada,

 

Um dia serás cidade

Esfomeada,

Solidão nocturna,

Um dia serás nuvem,

Madrugada,

 

Um dia serás luar,

Noite estrelada,

Um dia serás livro

Na mão ceifada,

Um dia serás rio,

 

Mar em revolta,

Um dia serás livro,

Palavra na palavra,

Um dia serás o sol

Quando os barcos dormem,

 

Um dia serás livro,

Rainha da montanha adormecida,

Um dia serás os beijos

Das noites não dormidas…

Um dia… serás livro de poesia.

 

 

 

Alijó, 18/09/2022

Francisco Luís Fontinha


28.08.22

Quando o corpo incendeia

As tristes marés da madrugada,

E sobre a ponte invisível do luar,

À meia-noite, uma flor de espuma,

Dorme na mão que semeia

O beijo de mar;

E peço à Virgem bruma

Que desenhe na alvorada,

 

Esta pequena canção de saudade.

Quando o corpo se enfeita de amanhecer

Nas sonâmbulas estrelas que habitam na cidade,

E o corpo é desejado,

E por vaidade,

O poeta enforcado,

Sem o saber,

Dorme junto ao mar…

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/08/2022


09.01.22

Dentro deste silêncio

Que abraça os rochedos nocturnos da insónia

Habita uma flor de sémen

Que caminha na montanha

Sem perceber que a cada luar

Há uma nuvem de medo

Para cada mão de solidão

Na espera de um abraço.

 

Na espera de um beijo.

Uma flor de sémen

Cansada da viagem

Descendo ravinas

Até poisar junto ao mar;

Em cada flor de sémen,

Uma equação de saudade

Levita sobre as sanzalas da infância.

 

O desenho da cidade

No pavimento térreo

Quando caia a chuva

E se erguia na planície

O despertar da manhã.

Em cada flor de sémen

Uma simples vibração;

Até que os pássaros se despedem da Primavera.

 

 

Alijó, 09/01/2022

Francisco Luís Fontinha


02.01.22

Das pedras

O mal-amado mordomo,

O eterno viajante,

O derradeiro coveiro da liberdade,

Das pedras

Às nádegas embalsamadas,

O homem das pedras,

Ao homem dos cacos,

 

Nas palavras revoltantes.

Das pedras,

Luz claridade silêncio,

Aos cigarros envenenados,

 

Nas pedras, cacos,

 

Das pedras, votantes.

 

Às pedras

O mal-amado mordomo,

O pelintra da madrugada,

Quando grita,

Quando ladra,

Cumprimenta-o não sabendo,

Sabendo quase nada;

E tudo se resume a uma simples morada.

 

Das pedras

Não sabe nada.

 

Porque nas pedras

Habita uma velha estória,

Um cardume de cinza,

Nas pedras a glória,

 

Nas pedras votantes,

 

O cheiro a naftalina.

Às pedras regressarás,

Como um punhado de estrume,

À fogueira,

Ao lume;

Nas pedras

O teu pobre caixão,

Nas pedras, perfume.

 

 

 

Alijó, 02/01/2022

Francisco Luís Fontinha


08.12.21

Fui à cidade em busca do teu olhar,

Procurei na cidade, o silêncio do teu olhar,

Sentei-me junto ao mar,

Na cidade,

Onde perdi os teus lábios madrugada,

 

E hoje, habitam os teus cabelos de vento amanhecer.

Venho da cidade,

Com medo de te perder,

Com medo da alvorada.

Fui à cidade,

 

Em busca de minha amada,

E na cidade, sentei-me,

No colo da manhã, antes de acordar.

Estou na cidade,

E sinto o meu corpo a arder,

 

Como uma fogueira desvairada,

Dançando na madrugada,

Brincando no mar.

Venho da cidade,

Oiço as vagas contra os rochedos nocturnos do desejo,

 

Que na tua boca,

Se desenha o beijo.

Estou na cidade,

Procuro nela a tua sombra antes de acordar,

E uma gaivota, te transporte para o mar,

 

Para o mar da cidade das gaivotas amar!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/12/2021


20.11.21

Se me imagino sentado nas tuas coxas de incenso?

Imagino-o enquanto as palavras envenenadas pelo desejo,

Quando se suicida a tarde junto ao mar,

E oiço o silêncio de um beijo,

Um beijo de amar.

Pode ser também um beijo de beijar,

Pois no meu jardim,

Junto a mim,

Habitam flores em delírio,

Flores com sombra de Luar.

Se me imagino?

Imagino-me sentado

Nas sílabas imbecis do poema escrito por mim,

Quando na minha mão,

Números e equações de miséria,

Acreditam que as palavras de uma canção,

A minha canção,

São apenas nadas, artéria

Ensanguentada dentro desta cidade,

Dentro deste cubo de vidro martelado.

Sinto-me prisioneiro às árvores da madrugada,

Árvores habitadas por pássaros que infelizmente, não sabem nada,

Não sabem que as pedras amam outras pedras,

Que outras pedras podem amar as flores,

E estas, amar outras flores,

E outras flores, amarem outras manhãs,

Manhãs que amam outras noites,

Noites que amam as pedras:

Poemas meus, que não amam,

Desenhos que me amam,

E,

Palavras que me odeiam.

Que todos amam a Lua e o Luar,

Que a Lua não ama nada,

Ninguém,

Nem ao primeiro astronauta que lá poisou,

As flores também amam a Lua e o Luar,

Os pássaros amam a noite,

Porque dormem e sonham,

Porque o amor é um verso,

Um poema enorme,

Que vive junto ao mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/11/2021


10.10.21

Escrevia equações de areia

Nos olhos da saudade,

Fazia da madrugada, uma ideia,

Uma ideia sem idade.

 

Pintava a velha cidade

Nas nuvens em democracia,

Nas suas mãos transportava a felicidade,

A felicidade que não sentia.

 

Estava velho, cansado

Na enxada do amanhecer;

De tanto amar e ser amado

 

Esqueceu-se de comer.

Pegou nas palavras e sem querer

Desenhou o mar, o mar a envelhecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/10/2021


20.09.21

Trago na mão

O mar embainhado

De uma cidade perdida,

Trago nos lábios

O poema envenenado

Da madrugada esquecida,

Trago no rosto

As lágrimas da insónia

Adormecida,

Das palavras à morte

Da morte à paixão com vida,

Trago na poesia

As silabas envergonhadas

Da imagem aparecida,

Trago, trago no olhar

As nuvens em fogo, da fogueira ardida.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/09/2021


27.07.21

Onde estão os grãos de areia da minha infância, esqueço-me enquanto me olho no espelho da saudade,

Em criança, desenhava nas tardes límpidas e sonolentas, os barcos da minha infância, procurava pelas sombras da minha infância, sem perceber, que um dia, junto ao tejo, morreria engasgado com uma tigela de caldo.

Couves, coma muitas couves. Dizem que durante a noite conversam com o intestino e, fazem-se passear pelas avenidas desertas da cidade.

Nunca acreditei nas tuas palavras; disseste-me, algures numa cidade que já nem recordo o seu nome que

Um dia vamos regressar,

Um dia peguei num punhado de grãos de areia, lancei-os ao mar, estava feliz. Muito feliz.

Tinha galinhas e pombas. Enquanto desenhava no sorriso das galinhas os socalcos que um dia me ia apaixonar, escrevia nos lábios das pombas, gatafunhos, coisas que só eu percebia. Diziam-me que todos os barcos tinham no coração uma cancela e, apenas os meninos que comiam a sopa lá entravam; mentira. Nunca consegui lá entrar.

O meu pai, quando havia treinos de hóquei, levava-me aos Coqueiros, nunca entendi a razão de ter alguma simpatia por este desporto, pois paixão por desporto tenho nenhuma.

Havia pássaros em papel no meu quintal, todas as noites, silêncio de assobios telintavam no zinco do galinheiro, depois das chuvas torrenciais, um pedacinho de capim saltitava junto ao meu triciclo, nada de novo, como ontem, nas mãos de um soldado. Vi muito. Eram todos meninos como eu; tinham pai, mãe, irmãos, irmãs, filhos, filhas, mulher e, muitas cartas sem remetente. A guerra foi uma merda, pai. Uma merda.

Comecei a coleccionar palavras e desenhos nas paredes de nossa casa. Comecei a acreditar que cá, também habitavam mangueiras e, que uma Bedford amarela se passeava pelas ruas, mas o tempo foi passando, a Bedford, aos poucos, foi sucumbindo às tempestades de areia e, morreu numa noite de geada.

Hoje percebo porque passava horas intermináveis, no portão do quintal, à espera de uma Bedford amarela, era a saudade que se embrulhava no meu cabelo, o avô Domingos dizia-me logo logo ela estava ao virar da esquina, mas com o tempo, com as lágrima da alegre infância, deixou de aparecer na rua.

Dizem-me hoje que morreu de cansaço.

O Domingo de Janeiro estava escaldante, e já nessa altura, acreditava que existiam papagaios em papel, que mais tarde, muito mais tarde, a minha mãe construía para mim. Trapos. Farrapos que eu aproveitava para vestir um velho amigo e algo estúpido, um boneco que baptizei num dia de neblinas matinais e, junto ao porto de mar, um paquete olhava-me, parecia que me queria comer, mas, não

Nunca entrei no coração de um barco.

Hoje, aqui sentado, olhando esta belíssima Baia, recordo os calções vestidos de menino e, um menino vomitando línguas de gato, enquanto aos poucos, o avô Domingos deixava a cidade levando pelas mãos o velho machimbombo: gosto de ti.

Assim.

Como esta Lua que nos separa.

Pudera.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 27/07/2021


07.02.21

As horas de dormir, pareço que finjo, quando acordo embrulhado nas palavras do adeus, uma pequeníssima gota de silêncio absorve a madrugada, agarro-me ao teu corpo suspenso no cortinado da insónia e, há sempre uma criança que brinca na enxada da tarde.

Soltam-se as amarras de todos os barcos, acordam dos oceanos todas as tormentas e, sabe-se lá, quando vem a terra a solidão de um dia sem memória. Os homens sofrem, quando do granítico silêncio, as palavras do poema, inventam-se, redopiam nas redondezas da cidade, quando um grito silencioso cai sobre todos os jardins.

A fragância das flores adormecidas, as horas de dormir, pareço um fantasma dançando sob a tenda do circo imaginário, há palhaços de calcário, meninos de farrapos, junto ao mar, em cio, o corvo, as pirâmides embebidas em shots de nada e, no final da tarde, começa a descer a noite porta adentro.

Ponho à janela na esperança de olhar o sol, quando a noite está doente, cansada de brincar, quando depois de se evaporar a tarde, o teu corpo docemente se alicerça nas minhas mãos, as horas, os silêncios depois das horas e, dizes-me que a cada fim de tarde há uma janela que se encerra.

Tenho na minha mão o teu perfume, a cânfora manhã do sítio inanimado quando sei que lá fora um pingo de inveja sobeja das multidões em fúria. Discretamente, aos poucos, desenho-te na sombra dos livros ainda não escritos, gatafunhos acomodados às tristes margens deste rio sem nome, uma cabeça transparente, imunda, no nojento corpo das cidades da mendicidade e, imagino-me à procura de uma fina folha de papel onde escrever o meu testamento.

Tenho medo que amanhã não pertenças mais à cidade.

Que amanhã sejas apenas uma estátua de areia junto ao mar, trazes contigo as fotografias, as flores dos livros perdidos e, sabe-se lá porquê, as horas de dormir, são pedacinhos de silêncio nas tuas mãos.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/07/02/2021

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