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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


06.10.22

Desenho o beijo

Na sombra fria e escura

Do muro do desejo,

Pergunto-me,

Quanto pesará um beijo…

E ninguém sabe,

Ninguém consegue calcular o peso de um beijo,

Eu não sei,

 

Desconhecendo a massa de um beijo…

Será impossível de calcular o seu peso,

Portanto,

Um beijo poderá pesar muito…

Ou não pesar nada…

Ou nem sequer existir,

Um beijo desenhado,

Quase sempre, é um beijo desejado,

 

Mas haverá beijos que não são desejados?

E desenhados?

Conseguem desenhar um beijo?

Como se escreve um beijo?

E se a sombra fria e escura

Do muro do desejo…

Não existir?

Não sei…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 06/10/2022


05.10.22

Percebo que a noite é escura

Quando cada milímetro quadrado da tua pele

Se despede das minhas mãos,

Percebo que a noite é escura

Quando a minha voz se perde na velocidade da luz

E se abraçam,

E se beijam,

O som… e a luz,

 

Percebo que a noite é escura

Quando dos teus lábios fogem os iões da saudade,

Quando um beijo se ergue na margem esquerda das tuas coxas…

Quando um pedaço de noite é apenas um pedaço de noite,

Percebo que a noite é escura

Quando semeio as minhas palavras sobre o teu peito,

E nele, desenho as imagens do desejo,

 

Percebo que a noite é escura

Quando este poema poisar sobre o teu cabelo,

Quando a cidade dorme,

Percebo que a noite é escura

Quando as janelas do teu olhar se abrem…

E as equações do sono,

São pequeninos silêncios

Na lua… também ela, tal como a noite, escura.

 

 

Alijó, 05/10/2022

Francisco Luís Fontinha


27.07.22

desenho_28_08_2015_2.jpg

Trinta dias esquecidos

Nos trinta dias vividos,

Eram trinta dias sofridos

Dos trinta dias adormecidos,

Trinta dias doridos

Nos restantes trinta dias sentidos,

Eram trinta dias pensativos

Nos trinta dias perdidos,

Tantos trinta dias cansativos

Quando existem outros trinta dias emagrecidos,

Eram trinta dias permitidos

Nos trinta dias trazidos,

Trinta dias pretendidos

Enquanto os trinta dias decorridos

São trinta dias hauridos,

Trinta dias indeferidos

Que dos trinta dias pruridos

Trinta dias são cumpridos

Em trinta dias auferidos;

Que se fodam os trinta dias geridos

Nos trinta dias inseridos,

Tenho tantos trinta dias fodidos…

Que nos dias trinta áridos

Tenho os trinta dias incorridos,

Nos trinta dias exercidos.

Trinta dias aderidos

Enquanto adormeço os trinta dias incorridos…

Trinta dias supridos

Dos trinta dias garridos.

São trinta dias do caralho ocorridos

E outros trinta dias devidos;

Que se fodam os trinta dias fingidos

 

Dos trinta dias convertidos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/07/2022

(Desenho de Francisco Luís Fontinha)


05.02.22

Quando o corpo se deita na tela, uma voz em pequenos murmúrios e gemidos abraça-se às pinceladas manhãs de Primavera. A tinta, as tintas, o pincel, todos são o coração ensonado da imagem sombreada das lâminas do desejo. A fotografia ergue-se como se erguem todas as crianças quando ouvem a voz da mãe; o filho perfeito, esse espaço entre a noite e o dia, não existe. As cores são a saudade, quando a mão do artista acaricia esse corpo de luz e sombra, quando o artista os olha

E nada como um pequeno beijo junto ao mar.

Todos os barcos, todas as cores, dançam agora sobre a tela inanimada, quase a desfalecer; a morte ocorre quando o artista dá por concluída a sua obra; mas será que a obra fica assim, tão simplesmente, concluída? A obra é como um filho, só fica concluído quando morrer e, transforma-se em pó.

As mãos, alicerçam-se aos lábios da tela, o cavalete espreita pela janela e percebe que a tempestade se aproxima, que os barcos estão a regressar rapidamente a terra, neste caso, à tela. O artista, chora. O corpo, suspenso na tela, vacila e, percebe-se que existem pequeníssimas gotículas de suor; a pele absorve as cores primárias, cerras os olhos e liberta um uivo de silêncio.

Assim, a tela entre pequenos gemidos e outros tantos sons inaudíveis, encosta-se às mãos do artista, rodopia em sentido anti-horário e, desce até às profundezas do abraço. Alguém me sabe dizer o que fazem as mãos do artista quando a obra termina? Nada. São os olhos da arte.

Sentem-se as fugazes candeias, quando dentro do atelier uma parcela de luar ilumina o corpo terminado, pronto a ser vendido. O artista constrói corpos para venda e, quem comprar os corpos construídos pelo artista, através das mãos, olha-os. O submundo das profundezas mais esguias, carrega no peito o cansaço do dia, carrega nas mãos, os olhos do amanhecer, quando ainda todos dormem, mesmo os corpos mais preguiçosos deitados na tela.

A tela é um monstro que se alimenta do corpo, pequenas cores misturadas numa tarde de Inverno e, sabendo que todos os corpos são desprovidos de lábios, aqui podemos dizer que o beijo é proibido. O sagrado desejo, quando a mão, um dos olhos da tela, desliza até encontrar as coxas envenenadas numa tarde de silêncio, assim, percebe-se que os dias, que as noites, que tudo, que nada, fazem sentido nesta tela imaginária que é a vida.

Se a vida são cores em movimento numa tela nua, branca, suspensa num cavalete, o exercito de pinceis e espátulas são o criador Deus quando acordou ao terceiro dia. Os mandarins da insónia poisam sobre a minha sombra desejada por uma sombra de medo, ao fundo, lá longe, um pequeno cardume de peixes em papel colorido, aproximam-se e, todos, devoram-me, restando depois, uma tela nua e vazia.

Como sempre, existe dentro de nós uma tela nua, vazia, recheada de medo. E este pedaço de mundo submerso, alimenta-se das palavras que o poeta vomita sobre os corpos deitados na tela; ninguém percebe o desejo do artista, quando com um punhado de pinceis e algumas espátulas, transforma o branco em corpos, com asas, que voam em direcção ao mar, e o mar nunca será um filho de Deus.

As mais belas canções de uma infância entre lápis de cor e bolas de plasticina, e depois do lanche, um papagaio colorido mergulhava no cacimbo solidão de mais uma tarde junto às mangueiras.

E este pedaço de mundo submerso, ergue-se entre os rochedos e os corpos pincelados na tela.

 

 

 

Alijó, 05/02/2022

Francisco Luís Fontinha


20.06.20

Não tenho pressa de caminhar.

Não tenho na mão a pedra filosofal.

Não. Não percebo este rio a chorar.

Quando o cansaço laminado da manhã, sofre, vomita as palavras de Inverno.

Não tenho nos livros as tuas mãos quando o amanhecer acorda,

Não sei quantas pedras, hoje, tenho para atirar à tua sombra.

Não tenho a madrugada para chorar.

Não tenho as lágrimas para desenhar,

No chão abandonado pelo silêncio.

Não tenho a noite para dormir.

Não tenho o dia para sorrir.

Não. Não sei se hoje é dia para correr,

Chorar,

Ou morrer.

Não tenho as letras do teu sorriso,

Quando o sol ilumina os candeeiros do sofrimento.

Não tenho as imagens do mar,

Salvado pelo amanhecer.

Não tenho as sandálias dos pequenos alicerces da cidade dos Deuses.

Não. Não tenho pressa de caminhar.

Não me digam que hoje posso subir à montanha da despedida.

Não o vou fazer.

Porque hoje,

Hoje não tenho tempo para morrer.

Hoje não é o tempo da partida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

20/06/2020

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