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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


02.02.23

Nas mãos de Deus

Dorme o teu sorriso de esperança,

Das mãos de Deus,

Na despovoada madrugada,

Uma feliz criança

Semeia o seu olhar,

E encanta,

Os teus lindos lábios de doce mar,

 

Nas mãos de Deus

E da alma sagrada,

Há flores que brincam,

Flores que adormecem…

Das mãos de Deus

Há um grito na alvorada,

Silêncios parcos,

Silêncios de nada,

 

Nas mãos de Deus

Esconde-se a noite estrelar,

Nas mãos de Deus

Escondem-se as palavras;

Todas as palavras de amar.

 

 

 

 

Alijó, 31/01/2023

Francisco Luís Fontinha


01.02.23

De Deus, nada sei.

Apenas que nas suas mãos,

Poisa um sorriso de luz,

Enquanto as madrugadas,

Depois das noites em luar,

Dormem pedacinhos de lábios de mel…

 

Há barcos imensos,

Dentro do Oceano do sono,

E Deus, sentado na sua poltrona,

Com um servocomando,

Brinca às escondidas com todas as flores,

Flores apaixonadas,

Flores que amam os barcos imensos,

E que são rimas do poema,

Flores esquecidas…

 

Se Deus quiser,

Tapa o sol com o cortinado da paixão…

 

Mas Deus não se mete nessas coisas,

Deus está preocupado com o silêncio do teu olhar

E com a solidão dos teus lábios,

 

De Deus, nada sei.

Apenas que nas suas mãos,

Poisa um sorriso de luz,

Enquanto as madrugadas

Fumam as palavras que escrevo na triste ardósia do teu cabelo.

 

 

 

 

 

Alijó, 01/02/2023

Francisco Luís Fontinha


31.01.23

Abraço-me a este rio ensonado,

Olho as montanhas do teu olhar,

Sento-me neste socalco abandonado…

À espera de que a lua me venha resgatar,

 

E se a lua me levar,

Deito fora a tristeza

E todo o silêncio do mar,

Abraço-me a este rio de enorme beleza,

 

E cruzo os braços no meu silenciar,

Acendo este cigarro invisível e inventado…

Que o meu corpo vai matar,

 

E se eu morrer nos lábios deste cigarro assassino,

Deste maldito cigarro envenenado,

Peço a Deus o perdão… que perdoe este pobre menino.

 

 

 

 

Alijó, 31/01/2023

Francisco Luís Fontinha


28.01.23

Às vezes, era o vento que nos tombava,

Outras vezes,

Era a chuva que iluminava os nossos olhares,

Às vezes, sentíamos uma voz que nos chamava,

E de tantas vezes, as outras vezes,

Éramos tempestade na revolta dos mares,

 

Às vezes, escrevíamos na terra enlameada,

Às vezes, sonhávamos com o luar,

E das tantas vezes que esquecemos a madrugada…

Havia sempre um pequeno lugar,

 

Um pequeno lugar sem nome,

Um lugar que às vezes, das vezes,

Nos dava tanta fome,

 

E não era a fome do pão, meu Deus…

 

Porque às vezes, não tínhamos no peito um coração,

Uma bomba perfeita,

Quase sempre tínhamos na mão,

Na nossa pequena mão…

Uma lágrima desfeita.

 

 

 

 

Alijó, 28/01/2023

Francisco Luís Fontinha


15.01.23

No quarto ao lado, o senhor Álvaro de Campos preocupado com o Esteves à porta da Tabacaria e com a pequena se come ou não come os chocolates, porque comer chocolates é a melhor coisa do mundo; metafisica pura.

No meu quarto, nada.

Nem o Esteves à porta da Tabacaria, nem a pequena a comer chocolates, no meu quarto apenas tenho uma jarra com flores, flores muito velhas, flores sem nome, flores…

No meu quarto, ao lado do quarto do senhor Álvaro de Campos, em frente à Tabacaria, vejo-me no espelho do guarda-fatos, e não vejo nada, nem vejo o mar, nem vejo os filhos do mar e os irmãos do mar e os irmãos dos filhos do irmão do mar, no meu quarto, este quarto,  oiço o senhor Álvaro de Campos, oiço-o e percebo que do outro lado da rua, da minha rua, rua que nunca tive, porque nunca tive uma rua na minha vida, percebo que na minha rua há um gato, o Alfredo, um gato negro com uma estrela branca no peito, neste quarto, no meu quarto, o Alfredo olha-me e eu olho-o, e a única diferença entre o Alfredo e o crucifixo pendurado na parede, é que ambos gostam de mim; ao menos isso.

No quarto ao lado, neste quarto, este meu quarto, tenho sentado na cama um Pacheco descontente com a vida, descontente com o senhor Álvaro de Campos, descontente com todos os chocolates e com todas as pequenas que comem chocolates; quer lá saber o Pacheco dos chocolates do senhor Álvaro de Campos, enfim sós, ambos, os dois, os três, os quatro, nada.

No quarto ao lado do senhor Álvaro de Campos, o meu, o meu quarto, há uma janela virada para o Oceano, uma janela de sono, uma janela com lábios de espuma e nos olhos traz as estrelas deitadas fora pelo senhor Álvaro de Campos, coitado, coitado dele e de mim, coitado…

Poiso a cabeça no teu beijo, deixo-me ficar por lá e por cá, levanto a cabeça, poiso a cabeça sobre o teu seio direito, não porque o teu seio direito seja mais belo de que o teu seio esquerdo, mas porque o teu seio direito está perto da janela virada para o Oceano, beijo-o ferozmente, beijo-o como se apenas tivesse segundos de vida e fosse esta a minha despedida, depois abro a janela, lá fora começa a erguer-se o nosso último pôr-do-sol, pego nele, prendo todos os barcos ao pôr-do-sol, depois, depois acaricio o teu seio esquerdo, e puxo todos os barcos para este pobre quarto, ao lado do quarto do senhor Álvaro de Campos.

O Pacheco está cá, não se importa se eu beijo o teu seio direito, não se importa se eu acaricio o teu seio esquerdo e tão pouco se puxo todos os barcos para dentro do quarto.

Tão pouco se importa se eu poiso a cabeça no teu beijo, quer lá saber o Pacheco do teu beijo…

Abro as gavetas que há em mim, deito lá os barcos e adormeço-os; tão felizes que eles estão, tão felizes, meu amor.

Beijo o teu ventre, e com o rio que trago nas mãos, um rio sem nome e muito pequenino, escrevo todas as palavras do amanhecer,

Coitado, coitado do senhor Álvaro de Campos, coitado,

E não sabíamos que o crucifixo nos olhava.

Coitado do Pacheco, coitado…

Tão tristes, tão tristes estes barcos dentro das minhas gavetas, muitas, poucas, gavetas, gavetas onde escondo o silêncio do décimo terceiro andar.

Desenho no teu peito, desenho no teu peito um quadrado, um círculo, desenho no teu peito a primeira manhã de Inverno, na terceira rua, vire à esquerda, à esquerda do teu seio direito, uma nuvem, um silêncio, o beijo que se esquece no teu doce seio direito.

À porta da Tabacaria, o Esteves, coitado do Esteves. Coitado.

Coitado de mim.

Coitado do Pacheco. Coitado dele.

Coitado de mim.

E coitada da pequena que tem de comer os chocolates. Coitada ela.

Coitado de mim.

Coitada.

Coitada dela.

Um grito. A voz alicerça-se às tuas mãos, mãos finas e débeis, mãos de árvore ensonada, mãos que também elas, também elas, elas gritam, gritam, gritam como gritam os teus uivos nas vidraças desta janela, e sabes meu amor, vivemos neste complexo Universo criado por Deus, Deus todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, pai do Alfredo, que num ápice resolveu descansar ao Domingo, mas ao Domingo já não há descanso de pessoal, ao Domingo, que o Domingo seja a primeira canção da manhã.

Poderia ser, não o é, mas enquanto o teu seio direito é loucamente beijado, os meus lábios caminham em direcção ao sono. Fumo um cigarro. Olho-te nua, perdida nas minhas mãos… e todos os corpos ressuscitam ao terceiro dia.

Nos dedos, finos, magros, na ponta dos dedos uma gaivota, uma árvore, os suspiros do senhor Álvaro de Campos, os gritos do senhor Pacheco, gritos, gritos, urros, gemidos, porra, foi bom, foi maravilhoso, um poema, um adeus.

 E enquanto a pequena come os chocolates, tu, meu amor, tu escondes-te também, tal como os barcos, numa das gavetas que há em mim.

Coitado do senhor Álvaro de Campos.

Coitado do Pacheco.

Coitada da pequena que deixou de comer os chocolates.

Coitados.

Coitado de mim e do crucifixo que sempre nos olhou; tenho pena…

E o que pensará este crucifixo enquanto beijo o teu seio direito?

 

 

 

 

 

 

Alijó, 15/01/2023

Francisco Luís Fontinha

(ficção)

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