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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


24.04.19

O fogo.

O belo que arde,

O feio que resiste à tentação da paixão.

As lâminas da solidão quando alimentam as madrugadas de Inferno,

O algodão,

A barriga negra, queimada pelo xisto abstracto da noite,

O cansaço da fogueira,

Que descansa na calçada,

As lâmpadas do sofrimento,

O belo que arde,

O fogo,

A fogueira onde brincam as flores,

Os pássaros e as abelhas,

Poisam docemente nos teus lábios…

Apenas nos teus; em mim, não.

O medo de arder enquanto chove na minha mão,

O medo de te perder enquanto chove no meu corpo salgado pelo Oceano do clitóris…

Amanhã,

Não.

O fogo,

O regresso das espingardas de cartão,

Pummmmmmmmmmmmmm….

Suicida-se a poesia nas lápides,

Suicida-se o poema nas palavras tristes das lápides…

E… PUM.

O tiro certeiro na cabeça do carteiro,

A revolução dos petroleiros que a maré vomitou,

Marinheiros,

Mulheres,

Gajas, gajos,

Embriagados pelo amor.

Eu não.

Nunca.

Pum.

Morreu o caderno negro.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

24/04/2019


31.03.19

A morte do fogo, quando a água das palavras, caem sobre o meu corpo,

Em chamas, em brasas.

 

E sobra nada.

 

Simplicidade, risadas…

 

O pó.

 

A madrugada.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

31/03/2019


01.05.18

O fogo, sem ti, não é fogo.

É cansaço que se apodera dos braços,

É flor que morre na tua mão,

É avenida deserta, nesta cidade, sem pão.

O fogo, dos beijos baços,

É jardim de árvores caquécticas,

Adormecidas,

Tortas.

O fogo, sem ti, não é fogo.

É noite mal dormida,

Sorriso na parada do sofrimento,

De olhar distante,

É sirene da alvorada,

Muro em xisto,

Que atormenta minha amada…

Ai, meu amor, o fogo, sem ti…

Atormenta tanta gente.

O fogo, sem ti, meu amor,

É a luz das esplanadas de Verão,

São ruas,

Casas…

São barcos encostados ao portão,

Quando o meu quintal dança nos teus lábios de algodão,

O fogo, sem ti, meu amor,

Não é nada, nem pão, nem pedras poisadas no coração.

Amanhã, se o fogo, sem ti, não for fogo,

A minha vida é um pequeno conto,

Palavras…

Palavras, meu amor, sem ti!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Maio de 2018


21.04.18

Finalmente o fogo.

A vaidade da pobreza quando o homem acorda no teu peito,

As lágrimas da escuridão são capazes de dilacerar as tempestades de Verão,

O cansaço disfarçado de mendigo,

Acordar cedo,

Não comer,

E acreditar na saudade.

O fogo.

Lâminas de prata nos teus lábios,

Palavras desastradas no teu olhar…

Quando o poema se prostitui nas tuas mãos.

Invade-me a saudade de partir para a montanha,

Levar comigo os teus livros,

Viver sentado na sombra do ciúme,

Como campânulas de sono e drageias de sorriso…

Oiço o mar.

Os barcos encalhados nos meus dedos,

Vestidos de cetim nos seus ombros,

Cacilheiros,

Aldabrões…

E outros cabrões…

E mesmo assim,

Ao nascer do dia,

Sou confrontado com os teus beijos,

Poeirentos,

Com cheiro a naftalina,

Vaidosos segredos,

Nos muros de xisto do teu coração,

Anima-te rapaz.

Porque o fogo,

Esse animal de estimação,

Um dia,

Vai acordar na tua boca.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21 de Abril de 2018


25.06.17

Domingo, um abraço chuvoso,

O fogo absorve-te na imensidão do espaço,

Evapora-se nos teus cabelos frescos como a água da ribeira…

Domingo,

Um abraço na carcere do esquecimento,

A flauta suspensa nos teus lábios…

Enquanto em mim permanece acesa a musicalidade da saudade,

Tenho em mim os marinheiros esfomeados do sexo,

E das bebedeiras noites junto ao mar,

A inocência granítica do teu corpo voando na minha mão,

És uma estátua invisível como são invisíveis todas as estátuas,

Olhos cerrados,

Mãos maniatadas,

O uísque em pequenos tragos na melancolia do dia,

As palavras, Domingo, um abraço chuvoso,

A poesia incinerada na tua boca de papel…

Ardem as cidades do sono,

O fogo…

No teu corpo de vidro,

Os barcos amarrotados esperando seus passageiros clandestinos,

Um comandante embriagado…

Prisioneiro de um Domingo chuvoso,

Um abraço,

Até sempre…

No espelho convexo da tua nuvem favorita,

A poesia morre?

Domingo, um abraço, chuvoso,

E o fogo leva-te para as minhas cinzas misturadas na terra húmida…

E toda a sanzala é nossa…

A casa dos encantos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Junho de 2017


18.04.16

Cai o sono sobre a alvorada; não tenho pressa de caminhar.

Imagino os ossos das tempestades invisíveis poisarem sobre os meus ombros enforcados no levante amanhecer, imagino a límpida água dos sonhos sobrevoando as minhas mãos,

Cai o sono e sou forçado a desistir.

Habita a paixão na adolescência dos cacos envergonhados,

Abraço-te, beijo-te, alimento-me da tua sombra que traz a noite das clarabóias de papel, um barco atravessa-me e tombo junto ao cais; a morte.

Os infelizes corações de prata encalhados nos rochedos da Aurora Boreal da loucura, o sino da aldeia encostado ao zimbo sombreado do sofrimento, tinhas-me medo, ausentavas-te do meu corpo como uma corda de nylon,

Cai o sono, levanta-se no horizonte uma fina película de dor, pertencias aos pássaros envenenados pelo luar,

E hoje és apenas um retracto sem ninguém.

É tarde, meu amor,

Hoje não andam machimbombos nas ruas da amargura,

O capim das palavras arde junto às cubatas recheadas de infortúnio,

Crianças enlameadas jogam ao futuro como se o futuro fosse um jogo, um desejo não concretizado, mesmo assim, morrem como pássaros no Inverno,

Cai a noite e o sono da noite,

Cai o sonho e o sonho da noite,

Cerro todas as janelas e portas, fico encurralado das tuas garras, lá fora, esperam-me os cartazes da revolta,

O destino meu não saber onde vou dormir hoje.

É tarde,

A lua parece um ponto esquecido no Céu,

Como todas as partes do meu corpo; ponto de luz esquecidos no Céu.

Cruzo os braços, socorro-me dos cigarros para alimentar o medo da tua ausência, mas não consigo sobreviver à chuva, ao vento…

Não te procuro mais neste aldeamento de porcelanas sem remorsos, não te procuro mais nesta leviana cidade de bares e ruelas sem nome,

É tarde, é tarde e nada tenho na algibeira.

Olho-me no espelho da poesia, pareço triste, pareço um pequeno farrapo em busca do fogo, uma faca atravessa-me e sei que morre também em mim a poesia,

Sinto-o como se fosse hoje,

Sinto-o como se fosse agora,

Este cais de barcos enferrujados onde deixo ficar a minha pobre algibeira, fumo os cigarros da noite enquanto lá dentro bebem, comem…

E eu, e eu fumo o último cigarro do poema,

Há marés de vidro que cortam os meus pulsos,

O sangue jorra como se fosse o rio das palavras enlatadas pela insónia,

Há marés de vidro no meu coração,

Há marés de vidro no meu olhar,

Que me cega, que me faz ausentar de ti…

É tarde, meu amor, e amanhã não te procurarei mais, nunca mais.

 

Francisco Luís Fontinha

segunda-feira, 18 de Abril de 2016


15.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Perceber o fogo do corpo em suspenso

aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas

escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo

não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda

perceber que o homem arde

fervilha

e dorme no colo de outro homem...

ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel

vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem

e fervilhas

como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...

porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.

 

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014


30.08.13

foto de: A&M ART and Photos

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

detesto as madrugadas envenenadas pelos teus beijos vestidos de mendigo

quando poisam sobre o tabuleiro do pequeno-almoço

e na mesa-de-cabeceira espera por ti uma fina e tímida folha

com a débil despedida

abro a janela e começo a voar em direcção ao vazio

percebendo que em ti

e de ti

as palavras são como pedaços de cigarro semeados no cemitério do medo

e há paixão no teu corpo

uma lareira de desejo percorrendo as minhas mãos de areia húmida

como dizem que às gaivotas aparecem durante a noite vómitos de sobejadas paixões

em cansaços de amêndoa

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

ardem as rosas

e o corpo das rosas

ardem os filhos das rosas

e os filhos do corpo das rosas

ardem os poemas

e as canetas de tinta permanente...

ardem...

como limalha de aço suspensa nos teus lábios

beijar-te sabendo que és um corpo vulnerável

incendiável

um corpo... volátil como a minha voz quando sinto a tua presença

… assim... como o teu... como as sílabas decalcadas nos seios do amanhecer...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013


20.08.13

foto de: A&M ART and Photos

 

das sombras longínquas do sono

habito como um sonâmbulo ambíguo desejável pelas serpentes da floresta vermelha

das sombras à noite inconstante que as minhas mãos percorrem debaixo do fogo teu olhar

e depois de folhear o livro teu corpo

dou-me conta que a madrugada hoje

hoje ela não acordou

hoje ela

ela me abandonou

e sinto em mim

o sono dilacerante

das tuas mandíbulas carnívoras em teus lábios de sangue...

as sombras... hoje sou uma recta sem coração como os homens e as mulheres da cidade dos cães

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Agosto de 2013


19.08.13

foto de: A&M ART and Photos

 

Eu deixo a conversa fluir... como a água da chuva a cair sobre o teu nu corpo, saboreando as partículas de desejo que descem das nuvens..., ouvem-se as bolhas de sabão a cair nas tuas costas, ouvem-se as sílabas mergulhadas nos teus lábios coloridos, e aos poucos desces pelas minhas mãos como sandálias envenenadas por uma calçada íngreme, e ao fundo, o rio, o Tejo, ele que te espera, e te acaricia entre as medusas de olhos castanhos, sinto-te dentro de mim, e sei, sei que amanhã não estarás na minha cama...

Vamos juntos... enrolados como duas serpentes envenenadas pelo sémen do amanhecer... e lá fora uma maçã acaba de tombar sobre os teus seios, afago-os e mordo-os com os meus finos dedos, e sabes que penetrarei em ti como se fosses um livro de poemas dentro da algibeira do espelho encarnado que acorda antes de acordar o teu orgasmo, é tarde, o relógio da sala cansou-se de ouvir-nos em latidos estranhos que atravessam as paredes de gesso e ripa, o tecto olha-nos, e inveja-te, porque permanecerás eternamente nas suas mãos, como um candeeiro suspenso e que ilumina a noite derretida em pura seda como lençóis sobre o teu corpo de areia, é tarde, lá fora dormem os homens e as mulheres, nós, nós permanecemos eternamente acordados, e procuramos entre os estilhaços dos líquidos sobejantes e adormecidos sobre a cama a saudade, e os beijos,

É tarde, para ti, quase que dormes, olho-te como se fosse o tecto, e vista de cima, tu, pareces um jardim com flores em papel... que voam quando tocas no meu peito, e fincas os lábios ficando entre eles... uma pétala de orvalho,

Estás loucos, oiço-te,

Louco porque a poesia derrete-se como a manteiga sobre os teus seios, louco porque mergulhas na chuva diluída em pequenas lâminas de fogo, tu, tu ardes como um livro depois de lido, folheado, manuseado cuidadosamente, e o papel da tua pele cola-se-me como uma borboleta desesperada depois da tempestade, oiço-te

Estás louco,

Louco porque inventaram o amor, louco porque inventaram o desejo e os jardins junto ao Tejo, e louco, louco porque oiço os uivos teus beijos de encontro à prateleira onde moram os livros de António Lobo Antunes, e louco

Estás louco,

E loucos, loucos barcos em gaivotas saciando o cio nas noites que atravessam o Tejo, e do outro lado, os edifícios em esqueletos vadios, que correm e comem,

Meninos, meninas,

Debaixo da tenda do circo que aportou por aquelas bandas, o vento dá-lhes força nas velas e começam em corridas vagarosas como palhaços velhos, e de bengala, e sorrisos nos seus rostos

Meninos, meninas,

Procurando a fome nos vultos zumbis da avenida adormecida, debaixo da tenda do circo, e todos os sonhos realizáveis... O encontro – A chuva e o nu corpo dela.

 

(não revisto - Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 18 de Agosto de 2013 / Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013

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