Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


17.10.22

Quando abres a janela

Do teu olhar,

E um lençol de lágrimas

Poisa na vidraça da manhã,

Não te apoquentes,

 

Há dias de chuva

Onde um lindo sol está a brilhar,

Há dias frios,

Dias quentes…

Quando abres a janela

 

Do teu olhar,

E num lindo dia de sol,

Trazes contigo as lágrimas

Que poisam na vidraça da manhã,

Lembra-te do mar…

 

Sempre em movimento,

Sempre acorrentado às marés…

e… amado por todos,

e sempre a sonhar.

E se um lençol de lágrimas

 

Poisa na vidraça da manhã,

Fica tranquilo, porque há sempre um poema

Na tua mão,

Um poema proibido,

Um poema de um lindo dia de sol…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

17/10/2022


14.10.22

Desta pedra onde me sento

E olhas,

Oiço as tuas lágrimas

Que tão bem sabias misturar com as orações,

E do alto da montanha

 

Me envias as palavras do silêncio.

Pego na espingarda,

Alimento-a de saudade…

E disparo contra a madrugada,

Enquanto nas tuas mãos, o pequeno terço

 

Corre de conta em conta,

De suspiro em suspiro.

Desta pedra onde me sento

E olhas,

Oiço as Ave Marias em pedaços de tristeza,

 

E certamente não estás feliz,

Porque as minhas palavras são as minhas palavras…

E quando disparadas pela espingarda do silêncio,

Todo o teu olhar arde,

E despede-se das telas em cinza.

 

E que feliz éramos quando tínhamos tardes intermináveis,

Quando entre Ave Marias e o Pai Nosso,

Tinhas fé e rezavas por aqueles que amavas;

O teu filho mimado e a tua grande paixão (o meu pai),

E quando precisaste do teu Deus, a pedra onde me sento… ardeu.

 

 

(como ardem todas as pedras onde me sento)

Alijó, 14/10/2022

Francisco Luís Fontinha


14.10.22

Nos teus olhos de arco-íris

Escondem-se as estrelas,

Brincam os exoplanetas do cansaço,

Dos teus olhos, em lágrimas paixão,

Fogem os plátanos da madrugada,

 

São luar,

Os teus olhos de arco-íris,

São tristeza,

São poema ao cair da noite,

Nos teus olhos

 

Há pedaços de silêncio,

Das frases que se escondem no pôr-do-sol,

E esses olhos de arco-íris,

São canção no leito em revolta…

Cerejas que a Primavera escreve nos teus lábios,

 

Dos teus olhos de arco-íris,

Também se escondem as flores aprisionadas,

Também se esconde nos teus olhos de arco-íris

Um coração em delírio,

Um castelo invisível,

 

Uma Princesa inventada pelo sono,

E nos teus olhos de arco-íris,

Vejo o rio que acaba de acordar,

E não sabe, desconhece,

Que os teus olhos de arco-íris… são o silêncio do mar.

 

 

Alijó, 14/10/2022

Francisco Luís Fontinha


11.10.22

Acordas na tela das noites sem estrelas, percebo que é noite quando o meu cigarro se extingue no negro sonho e o meu rosto é afagado pela fotografia do mar que habita sobre a secretária, ela, só e vazia, e percebo que é o mar pelo cheiro e barulho dos peixes de brincar enquanto dançam junto aos barcos em cartolina cansada, sem cores, sem olhinhos.

Do branco algodão, emergem da clarabóia suspensa no tecto, as estrelas que fugiram da noite e teimam infernizar-me com os conselhos parvos de sempre, e sou forçado a disparar a espingarda da solidão para as afugentar; como eu te compreendo, meu querido, como eu te compreendo…

E antes de acordar, esta triste manhã que todos os dias, a todas as horas, semana após semana, mês após mês, abraça-me como se eu fosse um pedacinho de geada em hipotermia, depois de descer do telhado da insónia e em pequenos gritos, e em pequenos uivos, vai esconder-se junto à fotografia do mar. É certo que um dia, este mar vai partir, como partiram todas as minhas fotografias.

Como partiram todos os meus mares.

Acordas na tela, indiferente aos meus desejos, porque nas minhas palavras inventadas, quando as invento, desenho desejos, e tu, abraças-me com um olhar silenciado que vindo de uma manhã, quando acorda, parece a tempestade em pequenos voos sobre os plátanos da saudade. E a tela, continuará branca. E de branca,

Deitas-te em mim,

Milagre das noites ensonadas, princesa da saudade.

Depois, ergues-te da tela branca e desapareces como desapareceram as estrelas da noite, como desapareceram todas as palavras que guardava naquela caixa em cartão, e hoje, são apenas palavras. E hoje são apenas lixo.

E de olhinhos tristes, esta manhã que todos os dias acorda na minha branca tela, foge, e transforma-se em mulher; a menina dos olhinhos tristes.

Invento então, nas pequenas ardósias da saudade, os traços que lanço contra as paredes de vidro onde habitam pequenas figuras de rosto fingido, que depois do sono, são apenas figuras; algumas, pertencem aos rios que deixaram de correr para o mar, e nos olhos, levam as lágrimas dos tristes socalcos, onde uma enxada, às vezes em revolta, escreve no difícil xisto o mais lindo poema de amor.

Ergue-se, sem perceber que a minha branca tela, é apenas uma simples branca tela, sem perceber que depois de misturar todas as cores possíveis e imaginárias, uma cabeça negra, como são todas as noites, como são todas as cabeças, deita-se na minha mão.

E um dia, a manhã de olhinhos tristes, será a mais bela branca tela que a Primavera deu à luz. Como todas as mais belas andorinhas que a Primavera lança contra as manhãs de olhinhos tristes.

 

 

Alijó, 11/10/2022

Francisco Luís Fontinha


09.10.22

Acabo de sepultar

As tuas palavras neste vaso de porcelana,

Cerro-o para jamais chorar,

E lanço-o na lareira em chama,

 

Assassino o poema,

Ergo-o sobre as lágrimas do mar,

E enquanto olho aquele vaso de porcelana,

Finjo que as minhas palavras são pedacinhos de luar…

 

São um pedacinho de nada.

Sepulto o poema na tua mão,

E espero que acorde a madrugada,

 

São as minhas ruínas em tristes palavras de abraçar,

São janelas que se cerram no meu coração,

Sem perceber que este poema é um pedaço de lágrima a chorar.

 

 

Alijó, 09/10/2022

Francisco Luís Fontinha


01.10.22

Trazes a mim

Os ruídos silenciados das palavras em flor,

Como um triste jardim

Que se esconde na dor,

 

Como um triste luar

Quando dança sob as nuvens da madrugada.

Trazes a mim o triste mar

E todas as tristes palavras da alvorada,

 

E todos os tristes rostos das tardes em delírio…

Porque somos apenas pequenos instantes em construção,

Porque somos apenas um pequeno rio

 

Na mão dos aciprestes enforcados;

Trazes a mim esta canção

Onde poiso os meus olhos amarrotados.

 

 

 

 

Alijó, 1/10/2022

Francisco Luís Fontinha


15.09.22

Descem sobre mim as lágrimas do Céu; percebo que transporto no olhar o pequeno silêncio da manhã e sempre que me descuido, um pedacinho de tristeza se alicerça ao meu peito. E as palavras parecem balas disparadas pela espingarda do desejo.

O que tem paixão em comum com as lágrimas do Céu, meu querido?

Talvez tudo. Talvez nada. Sabias que dentro da paixão existe uma equação sem resolução?

Não. Não sabia, meu querido.

E que a paixão tem vida, tem nome, tem sexo, idade, religião…

És parvo, meu querido.

E que Deus não sabe matemática?

Parvo, parvo, parvo…

Tenho medo da tua mão silenciosa, tenho medo dos teus olhos em profunda tristeza, quando ambos sabemos que dentro de ti habitam as mais lindas recordações de uma infância pincelada pelas marés em cio. Onde anda aquele menino dos calções que se deliciava a olhar o mar e os barcos e a areia branca do Mussulo?

Vive dentro de um álbum de fotografias a preto e branco… e dizem que voa sobre um rio curvilíneo embrulhado em socalcos de medo.

A paixão, meu querido, é o silêncio entre dois olhares e separados por duas rectas paralelas…

Mas duas rectas paralelas encontram-se no infinito, minha querida…

Pois… não sei o que diga.

Imagina dois olhares suspensos na manhã

Sim, estou a imaginar.

Imagina que sobre esses dois olhares, em pedacinhos de mel, descem as lágrimas do Céu

Sim, consigo imaginar.

Imagina agora, meu querido, que esses dois olhares têm um corpo, têm desejos, têm mãos que se entrelaçam nos lábios do mar

Sim, minha querida.

E esses olhares e esses corpos e essas mãos e esses desejos… voam sobre o mar pincelado de beijos, enquanto no peito desses dois olhares, sem que alguém perceba, há um triângulo rectângulo em que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos e

Não percebo, minha querida.

E descem as lágrimas do Céu sobre mim…

Não. Não sabia, meu querido.

E que a paixão tem vida, tem nome, tem sexo, idade, religião…

És parvo, meu querido.

E que Deus não sabe matemática?

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/09/2022

(Ficção)


25.06.22

Não tínhamos dentro de nós

O sono transverso do silêncio,

Não tínhamos o pão,

Não tínhamos as palavras que hoje semeio…

Não tínhamos nada,

Não tínhamos medo.

 

Não tínhamos as lágrimas que hoje crescem

Sob a sombra infinita da solidão,

Não tínhamos as nuvens,

Não tínhamos este rio que nos abraça,

Que nos beija,

Não tínhamos estes velhos

 

E cansados socalcos.

Não tínhamos o desejo

Que habita nesta insignificante pedra,

Não tínhamos o vento

Que nos embala…

Não tínhamos uma espingarda

 

Que disparasse o prometido pão.

Não tínhamos a fome,

Não tínhamos a lareira que o corpo consome,

Não tínhamos nada…

Não tínhamos tempo

Que hoje nos enforca,

 

Que hoje nos levanta

Deste chão envenenado.

Não tínhamos o poema,

Não tínhamos os livros que hoje temos…

Não tínhamos a espingarda,

Não tínhamos o texto embriagado

 

Pelo cansaço da manhã.

Não tínhamos as lágrimas,

Não tínhamos o silêncio

Das eiras em construção;

Não tínhamos nada,

Nada que hoje temos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25/06/2022


19.06.22

Assim que acordávamos, ouvíamos o sono que regressava da tempestade deixada ao abandono durante a noite; o cabelo tinha-se-lhe esvoaçado, como as árvores quando se despem para dormir.

O sono levava-a e trazia-lhe o desconsolo de viver acorrentada a uma sombra que alguém tinha trazido da longínqua Angola, na algibeira do avental, algumas palavras despregadas do uivo dos mabecos envenenados pelos sonhos de uma madrugada recheada de pequeníssimos papeis onde habitavam frases de revolta e agonia.

Ouviam-se os pássaros nas ardósias manhãs de Verão, junto ao mar, ou mais longe do que isso, os barcos de cartolina regressavam de mais uma viagem ao infinito; as equações do sono também, por vezes, se faziam acompanhar pela solidão do capim onde se escondiam algumas gaivotas que procuravam as cinzas da tarde. Sabia que um dia, também o seu próprio cabelo, seria a madrugada travestida de sono, que muito mais tarde, se suicidaria junto à baía. Tínhamos medo da noite. Tínhamos medo do sofrimento que depois da tarde se despedia do silêncio que a cada segundo que passava, que a cada minuto de sofrimento, aparecia à janela do cansaço.

Sabíamos que os cabelos eram apenas pequenas sombras que todos os dias iam ao rio em busca da primeira lágrima da manhã. Um dia, junto ao mar, cresceu uma pequeníssima lâmina de sangue, uma ferida que ainda hoje sangra, que ainda hoje dorme numa cadeira que ainda hoje inventa sorrisos no espelho da sanzala.

Assim que acordávamos, ouvíamos o sono que regressava da tempestade deixada ao abandono durante a noite, todos os barcos tinham no olhar um enorme sofrimento que aos poucos dava à costa e contra os rochedos se transformavam em tiras de sono. O corpo começava a desfalecer. O corpo começava em putrefacção e o intenso cheiro a gladíolos era tal que quase adivinhava-se o silêncio que hoje pertence aos grandes petroleiros da cidade.

A cidade envelhecia. O corpo, sangrando como uma velha fonte da aldeia, tinha nas mãos as cinzas dos ossos desfigurados pelos comestíveis cogumelos que só os poemas conseguiam construir no profundo mar das marés em delírio; o corpo sangrava porque existia sobre a pele a fragância laminada de uma tempestade perfeita, depois, eram as cadeiras da cozinha em pequenos gritos que apenas eram sentidos pelos velhos azulejos que numa qualquer sexta-feira alguém deixou ficar debaixo da árvore junto à porta.

Do cabelo, alguns silêncios despertavam. A tinta que às vezes escorria no seu rosto era o principal motivo de se esconder no quarto e desligar o interruptor do sonho que trazia junto ao peito. Todos os brancos cabelos que ela tinha um dia tinha prometido ao criador, hoje eram apenas vestígios de lágrimas e silêncios.

Sabia-se que a morte tinha descido à velha cidade.

Os cabelos brancos tinham, finalmente, encontrado a liberdade.

E do cabelo, alguns silêncios despertavam…

 

 

Alijó, 19/06/2022

Francisco Luís Fontinha


03.12.19

Não o sei.

Foram pedras da calçada que arranquei.

Foram lágrimas que chorei.

Não o sei.

Esta terra que semeei,

E depois me cansei,

E depois me sentei,

Não. Não o sei.

 

 

Não o sei.

Porque morrem, aos poucos, as palavras que plantei,

Na folha de papel que rasguei.

 

Não.

Não o sei.

 

Não o sei.

Porque brotam lágrimas esta lareira que amei.

Esta fogueira que incendiei,

Na madrugada que pintei.

 

 

Não.

Não o sei.

 

 

Não o sei.

Porque sinto os combóis que nunca sonhei.

Não o sei,

Porque brincam meninos na seara que pisei…

 

 

Mas uma coisa eu sei.

 

Que o Sol que bilha, não fui eu que o pintei.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

03/12/2019

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub