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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


25.09.22

Sento-me nesta ausência percebendo que pertenço a esse mar imenso das paisagens do silêncio, oiço os teus gemidos de luz, percebo que sou apenas um pedacinho de nada em direcção ao abismo,

O frio e escuro silêncio da madrugada,

Oiço as fotografias enraivecidas que desde a noite passada resolveram, todas elas, invadirem os meus pensamentos, e percebo que cada personagem que habita nelas, são apenas sombras da minha infância,

Rasuro-me no espelho do quarto.

Ergo as mãos e sinto as amargas palavras escritas numa noite de neblina, onde barcos e putas deambulavam junto ao cais; parecia fácil, mas as tempestades voltaram do nada e amanhã…

Amanhã chove, amanhã chove…

Sento-me.

Invento o sono das persianas da janela e resolvo voar em direcção ao luar, como as abelhas em flor, como todos os pedacinhos de mel que sobejam no silenciado corpo nocturno do silêncio…

Inventam-se os gemidos da alvorada,

Amanhã?

Amanhã vou. Amanhã sonho. Amanhã eu faço…

E amanhã morre o derradeiro sarcófago das Primaveras em florida paisagem, porque nela habitam os pássaros dos pequenos milagres, porque o sono transporta o desejo e pelas primeiras imagens observadas, nada a declarar; culpado.

Levanta-se o reu. Levantei-me.

Idade? Desde ontem, ao final da tarde, fugiram todas as minhas palavras,

Cansado?

Pior; morto.

Em frente.

Amanhã eu faço…

E o amanhã não existe, e amanhã pertencerá às primeiras imagens da saudade, porque amanhã…

Amanhã eu faço.

Tudo eu tudo eu tudo eu…

Morreu.

Cansou-se das cavernas e foi viver para junto do mar da saudade, onde em pequenino brincava com uma mão de veludo e havia sempre um olhar protector a observá-lo, hoje

Amanhã eu faço.

E quando me pergunto o que faz um pedacinho de mel poisado num dos meus poemas…

Ele, ela, responde-me

Nada.

Peso.

Silêncio.

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

Nasceram as acácias, nasceram as primeiras lágrimas, nasceram as sombras e das sombras nasceram a lua e o sol; mesmo assim, ele, ela, continuam a vaguear sobre aquele rio onde mergulhavam as sílabas da insónia.

Amanhã.

E hoje?

Amanhã todos os pedacinhos de mel serão crucifixos suspensos nas fendas do triste gesso que circundam o sótão do medo.

Medo. Medo. Medo.

Porque morrem as acácias, mãe?

Porque se apaixonam pelo triste silêncio, porque descem sobre a cidade as lágrimas dos grandes rochedos e o mar é apenas uma imagem…

Percebes agora porque morrem as acácias?

Não mãe…

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

E junto ao mar ficarei à espera.

 

 

 

 

Alijó, 25/09/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


24.09.22

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

Lamento informar vossa excelência,

Mas esta madrugada é de graça,

 

Puxo de um velho cigarro,

Não me lembro de nada,

Lamento,

Parece que acordaram agora as acácias,

E do outro lado da rua,

 

Nem um pequeno sorriso…

Lamento informar vossa excelência,

Mas o rio deixou de correr para o mar,

À janela, a menina das serpentes,

Chora,

 

Acreditava nos sonhos,

E dou-me conta que os sonhos são cadáveres de sono

Descendo a Calçada da Ajuda,

E se ajuda ou não ajuda,

Ela, dorme sobre a erva laminada da manhã,

 

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

E de um pequeno sorriso…

Observo-o… lamento informar vossa excelência.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


18.09.22

Um dia serás livro,

Palavra semeada na planície do sono,

Um dia serás madrugada,

E no outro dia…

Não serás nada,

 

Um dia serás cidade

Esfomeada,

Solidão nocturna,

Um dia serás nuvem,

Madrugada,

 

Um dia serás luar,

Noite estrelada,

Um dia serás livro

Na mão ceifada,

Um dia serás rio,

 

Mar em revolta,

Um dia serás livro,

Palavra na palavra,

Um dia serás o sol

Quando os barcos dormem,

 

Um dia serás livro,

Rainha da montanha adormecida,

Um dia serás os beijos

Das noites não dormidas…

Um dia… serás livro de poesia.

 

 

 

Alijó, 18/09/2022

Francisco Luís Fontinha


14.09.22

Folheio-te como se fosses um livro,

Folheio-te nesta triste manhã,

Folheio-te enquanto vivo,

Enquanto respiro o teu perfume…

Folheio-te enquanto sinto

 

No meu peito a dor das estrelas.

Folheio-te como se fosses o luar,

A luz matinal do cansaço,

Folheio-te nestas marés em lágrima,

Folheio-te nesta madrugada,

 

Triste e sem alma.

Folheio-te meu doce poema,

Palavra semeada no vento…

Folheio-te sem perceber que amanhã

Rasgarei a minha fotografia,

 

E voarei sobre o mar.

Folheio-te doce pedacinho de mel,

Sorriso de abelha,

Folheio-te como se fosses um livro

De poesia,

 

Folheio-te enquanto durmo,

Folheio-te enquanto sentado nesta pedra

Sinto o peso das nuvens cinzentas…

Folheio-te como se fosses um livro

Poisado sobre a noite.

 

 

Alijó, 14/09/2022

Francisco Luís Fontinha


02.09.22

Enquanto lês,

Desenhas na planície

As amendoeiras em flor,

Enquanto beijas,

 

Escreves na alvorada

Suspiros de amor,

Enquanto danças,

Abraças-te à madrugada…

 

E percebes que a vida é uma fotografia de nada,

E percebes que enquanto lês,

O teu corpo voa…

Os teus cabelos voam,

 

Os teus olhos voam…

E enquanto lês,

O teu corpo é a almofada

Que apenas o poeta sabe deitar a cabeça…e adormecer.

 

 

Alijó, 02/09/2022

Francisco Luís Fontinha

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