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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


25.01.23

No lírio cansado do teu olhar

Partem-se as amarras da paixão,

Desejas sem o desejar,

Desejar um barco no mar,

Do mar teu coração,

 

No lírio desejo dos teus doces lábios de mel,

Quando acorda a manhã ensonada…

Escrevo, desenho… invento palavras neste pobre papel,

Quando a insónia se despede da madrugada,

 

No lírio cansado do teu olhar

Há palavras de escrever,

Há palavras de beijar…

E há sonhos de encantar.

 

 

Alijó, 25/01/2023

Francisco Luís Fontinha


24.01.23

Desejo-te e abraço-me aos teus doces lábios de mel, no teu peito, procuro a manhã que o silêncio da noite deixou ficar nas amarras do destino, foges-me durante o sono, em pequenos pesadelos que as estrelas beijam, nesta pobre cidade, com o rio nas suas mãos, onde circula livremente a paixão.

Escrevo,

Cartas sem destinatário na ânsia que dos teus doces lábios de mel acordem as palavras envenenadas, nas palavras em desejo, quando o mar te abraça e ao meu ouvido regressa o sussurro ciciar dos gemidos em luar.

Um grito, dentro de mim.

Olho-te e confundo-te com a lua; há nesta pirâmide em desejo as primeiras lágrimas da madrugada, lágrimas que aos poucos se vestem de sol, e a alegria grita no meu destino.

Desejo-te e abraço-me,

Canções que me cantavas e eu trocava o sono por pensamentos, canções de menino, quando uma criança poisa nas abelhas em flor, e tudo isto, numa simples carta, sem destino, remetente, cidade ou País,

Tanto faz,

Um dia voarei na lâminas cinzentas das sanzalas sombreadas pelo fogo do desejo, gemes, oiço-te na penumbra noite dos musseques há muito assassinados por um papagaio em papel, amarras entre ossos e pedaços de silêncio, quando a carta que escrevo, sem destinatário, sem remetente, se abre ao acordar da noite.

A noite deixou de me pertencer.

A noite pertence às lágrimas de uma criança; tão triste, quando nos olhos de uma criança brincam lágrimas em papel flor.

Tão triste, quando no rosto de uma criança habitam lágrimas de fome, quando na peste das palavras, de quase todas as palavras, uma criança tem no rosto as tristes manhãs de Inverno.

As viagens intermináveis do espelho sonolento que a paixão constrói nos olhos do mar, e dos teus doces lábios de mel, sinto o frio areal que os teus cabelos semeiam, semeiam em mim o desejo de voar,

Neste fogo de suspiros que se encostam aos umbrais da ferrugem tarde, vejo o meu barco em cartolina, em pequenos círculos de sono, quando a noite nos leva, sobem até às nuvens coloridas de um coração,

Um pequeno crepúsculo, que se esconde nos teus olhos.

E os teus doces lábios de mel deixaram de pertencer à noite; agora, são os meus doces lábios de mel.

Trago na mão o sol, trago na mão a espada com que vou cortar a tristeza e a solidão, até que um dia, um dia…

Dos teus doces lábios de mel,

Uma criança,

Desenhe na terra o sorriso da lua.

Pensava eu, enquanto dormia abraçado aos teus doces lábios de mel.

 

 

 

Alijó, 24/01/2024

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


21.01.23

Correias,

Correntes,

Volantes

E chumaceiras,

 

Madrugadas,

Parafusos de pressão,

Engrenagens de teu corpo,

Amor,

Veios de transmissão,

Fadiga,

Tensão e noites sem dormir,

 

As rodas dentadas sem estrelas,

Cem estrelas…

O luar a sorrir,

 

A mecânica dos corpos,

Os corpos poisados sobre o sémen quadriculado,

Deste caderno sem nome,

Neste caderno apaixonado,

 

Correias e correntes,

Rodas dentadas,

Sonhos e palavras,

Palavras…

Palavras sem nada.

 

 

 

Alijó, 21/01/2023

Francisco Luís Fontinha


20.01.23

Se o vento tivesse asas,

Meu amor das flores semeadas,

Se o vento tivesse asas,

Coração,

Mão…

Mão para te acariciar,

Se o amor tivesse asas

E lábios para te beijar,

 

Se o amor fosse o mar,

Barco sem destino,

Cabelos ao vento,

Deste vento em menino,

 

Se o vento tivesse asas,

Se o vento escrevesse palavras,

Se o vento derrubasse as amarras…

Todas as amarras,

 

E todas as palavras.

Ai se o vento…

Que dorme em mim,

Neste meu pobre jardim,

Tivesse asas…

E lábios

E olhos

E beijos,

 

Beijos do vento,

Do vento com asas.

 

 

 

Alijó, 20/01/2023

Francisco Luís Fontinha

Sol


18.01.23

Há-de nascer o sol nas árvores do meu jardim

Onde me visitam os pássaros da manhã

Há-de nascer a alegria

E um rio sem fim

Para levar a minha poesia,

 

Há-de resolver-se na minha mão

A complexa equação da madrugada

Onde habitam mares

Onde brincam as crianças,

 

Há-de crescer neste vazio de viver

A flor da alvorada

Sem medo de morrer

Sem medo de nada,

 

Há-de nascer o sol…

O sol que ilumina a manhã de Inverno

O sol que afugenta as tempestades,

 

Há-de nascer o sol nas árvores

Do meu jardim

Onde guardo as palavras…

As palavras de mim.

 

 

 

 

Alijó, 18/01/2023

Francisco Luís Fontinha

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