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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


15.10.22

São estas as palavras que te vou deixar,

São estas as cinzas das palavras incendiadas

Que te vou deixar, quando partir.

Também te vou enviar

As cinzas dos quadros que vou queimar,

E depois de encaixotar,

Enviar,

Ao destinatário,

 

São estas as palavras que te vou deixar,

Depois de lhes retirar o veneno,

São estas as palavras,

As minhas palavras…

São estas as palavras de matar,

Matar o fogo que se liberta destas mãos,

Que escrevem,

As palavras que te vou deixar,

 

E enviar.

São estas as palavras que te vou deixar,

E semear,

Na terra que nunca foi minha,

Que nunca será minha. São estas as palavras,

As minhas tristes palavras,

Em pedacinhos de cinza,

E orar; amém.

 

 

 

Alijó, 15/10/2022

Francisco Luís Fontinha


30.03.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sacias-te na minha sede mergulhada em perfumados cachimbos de prata,

encontras em mim a doce corrente do aço clandestino da saudade,

sei que existo porque escrevo-te palavras, vãs palavras que o tempo come, e alimentam as tempestades da dor,

sacias-te em mim como se eu fosse um marinheiro escondido na escuridão da cidade,

procurando engate, procurando o prazer sem o prazer... no inanimado mundo da morte,

procurando mãos silenciosas para argamassarem o meu corpo aos cais do desgosto,

e sinto-me uma ténue folha de papel esquecida no teu ventre,

sacias-te nos meus olhos, e cerro-os para me ausentar de ti,

palavra, palavra do engano que sente o sofrimento,

e... dizes-me que todas elas são inconstantes equações trigonométricas,

cansadas,

tão cansadas como as tuas mãos poisadas no meu rosto de lata...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 30 de Março de 2014


27.02.14

Foto de: A&M ART and Photos

 

(aos meus pais que fazem hoje 49 anos de casados)

 

 

As tuas mãos gélidas nas minhas pálpebras de insónia,

oiço-te sorrir junto ao tanque da agonia,

ao longe os gemidos trémulos do sino da Igreja...

percebo que nos teus olhos habitam lágrimas de papel colorido,

e sobre os teus ombros,

o peso,

o peso imensurável das sombras do abismo,

o peso... o peso da saudade saboreando as nuvens de algodão da madrugada,

 

As tuas mãos são como pedaços de barro esquecido na parede da solidão,

há em ti cabelos perdidos e alguns silêncios intransponíveis, ocultos... mórbidos,

há dentro de ti o cansaço,

o triste cansaço da vida,

e das tuas mãos as doces carícias do amanhecer,

há uma janela com palavras de acordar...

e palavras de acordar nos cortinados que cobrem as tuas mãos gélidas,

as tuas mãos de mim, as tuas mãos de uma sanzala enrolada em capim...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014


04.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados,

Estoy enamorado,

“Estoy enamorado” sem perceber que a cidade dorme, respira e sonha..., deixei de sonhar quando dei conta das árvores com braços de cinzentos cigarros de enrolar, tive medo que depois de adormecer, nunca, nunca mais acordaria para olhar o mar, dormi, não sonhei... e quando me acordaram, anos depois, voltei a olhar

“Estoy enamorado” pelo mar,

E conheci uma abelha por quem “estoy enamorado”, literáriamente é uma besta, sempre aos gritos, acorda todos os fantasmas da cidade dos peixes, sinto dentro de mim os barcos da desgraça, sinto dentro de ti os edifícios com alicerces de prata e telhados em colmo, a floresta deambula nos teus cabelos, e tu, estúpida abelha, literáriamente pareces uma lareira sempre extinta, apenas daquelas que servem apenas de adorno, um cão saltita de sofá em sofá, e do resto do mobiliário... apenas a escrivaninha com quatro gavetas encerradas a fechaduras de marfim, um velho e rabugento cinzeiro e claro... a porcaria de sempre das mesmas fotografias de sempre, família, fantasmas que hoje apenas o são, habitam dentro do nosso pequeno espaço, não respiram, não saem de casa... mas... também não bebem, dançam umas com as outras, fumas haxixe por prazer e lêem revistas com fotografias de gajos nus, eles e a minha abelha parecem a tromba de um elefante depois da congestão com percebes e algumas quitetas, lembro-me das asas dela, e sinto nojo das palavras que me escrevia, dizendo que

“Estoy enamorada”,

As barbatanas sentiam o cheiro intenso do sossego das conchas vermelhas, a lua em guindastes de orgasmo levanta-se do divã, e

“Estoy enamorada” por ti, por eles, por todos os homens com vestidos de prata, os olhos pintados com rímel e nos lábios um colorido desejo sobressaltava... ouvíamos do outro lado da ranhura do gesso

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

E as varandas balançavam e as escadas brilhavam e as ombreiras...

Se iluminavam,

E

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

Amávamos-nos como bijutarias da “feira da ladra”, levava livros para vender e trazia panfleto de heroína para fumar,

“Si mi querido”,

“Estoy enamorado de ti” e quando regressávamos a casa tínhamos um regimento de transeuntes à nossa espera, polícia, polícia e mais polícia, tudo porque tínhamos trocado alguns livros por outros tantos panfletos de ardósia tarde sem recreio,

“Estoy enamorado de ti”,

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, a canalização sempre em pequenos arrotos devido aos pigmentos de ferrugem, ouvíamos cair sobre nós os pingos longos da chuva sem

Nome?

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, o nome pertencia à rua do abismo construído sobre os rochedos da coragem, estar e não pertencer estando, e nunca estive, e nunca estarei...

Disponível,

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

E a abelha zarpou de mim, sinto-me livre, sinto-me... sinto-me como uma enxada vociferando os novelos de lã da minha mãe...

Amanhã, amanhã... amanhã “estoy enamorado”.

 

 

(não revisto - ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 4 de Janeiro de 2014


28.12.13

foto de: A&M ART and Photos

 

São as tuas mãos frias e doces que alimentam o meu olhar

são as tuas mãos a lareira do desejo

o sincelo amigo nas manhãs nubladas

são elas a chuva prometida

que a tua pele doirada absorve

como caramelo derretido numa panela de pressão angustiada

as vãs noites resfriadas enquanto espero por elas...

… as tuas mãos que poisam no rosto do sem-abrigo

e aquecem o mendigo

são as tuas mãos frias...

e doces...

e singelas sesmarias que alimentam o meu olhar

São as tuas mãos frias

aquelas que o papel engole quando às palavras vem a tristeza

o barco recusa-se a navegar no teu corpo

e o mar

e a madrugada lívida dos pássaros marinheiros

voam sobre a cidade dos homens abandonados

e se não fossem as tuas mãos

aquelas... as tais... que dizem ser frias...

e se não fossem elas?

nós?

Imaginas a nossa vida...

vivermos sem saber o que são as tuas mãos frias

E doces que alimentam o meu olhar

o mundo seria quadrado

a lua talvez fosse filha de um triângulos isósceles

pobre como eu

tão pobre que nem se consegue ver no céu...

se não fossem as tuas doces e tristes mãos

o que seria da raiz quadrada e do cosseno de trinta grados?

e tu miúda

bela e tão bela

preocupada com um borbulha... coisa insignificante

porque são as tuas mãos

as tais... as doces e frias... as janelas da solidão.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Dezembro de 2013


11.09.13

foto de: A&M ART and Photos

 

um cigarro esquecido

na tua boca de serpente

envenenada pela solidão

em ti

um cigarro ardido

de ti

ausente

quando o coração

de uma árvore parte e voa em silêncios de espuma

um cigarro mordido

em teus lábios de ternura

em ti de ti... senti

 

em ti

e de ti

 

a claridade mente

a madrugada distante

como as águias dos esconderijos mergulhados em ténues mãos de areia

ardem como as palavras incandescentes

e as sereias

parvas

em pequenas sementes

do corpo embrulhado em tristes larvas...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013


29.06.13

foto: A&M ART and Photos

 

Saltávamos o pequeno muro todos os finais de tarde, após a escola, às vezes com milímetros de fome a brincar nos estômagos vazios, nós, nós existíamos apenas porque tínhamos de existir, era-nos proibido desistir, era-nos proibido entrar no quintal do senhor António Joaquim de Alicate, homem robusto, homem rude, e de poucas palavras,

Um dia

E das poucas palavras, as poucas palavras, se não servissem para resmungar com três ou quatro miúdos, serviriam para quê? O quê? Não acredito, queixava-se ele, um dia, quando ia para entrar no palheiro e viu-me sobre o telhado, em pés de lã à procura de uma velha bola de futebol, gritou-me

Agora salta!

Claro que eu, incrédulo comigo mesmo, saltei, caí, não me magoei... e consegui desprender-me das suas garras de lobo solitário, Palavras? Para quê? E ainda hoje, durante a noite, quando abro a janela e espero que regresse, sinto-as

Agora salta,

Sinto-as ao redor do meu esguio pescoço, como se fossem finos arames suspensos entre duas árvores, eu, incrédulo, vestido de palhaço, percorro o arame, e sinto-as, as mãos do senhor António Joaquim de Alicate e a triste bicicleta da menina Alzira, que ainda hoje, quase com noventa anos

Olá, menina Alzira... está boazinha?

Claro que sim, responde-nos, e desde o salto mortal entre quintais, que ela, que ele, que nós, nós que supostamente não era para existirmos, inacreditavelmente, existimos, e ainda hoje, em todos os finais de tarde, saltamos os quintais invisíveis, alguns deles foram degolados por escavadoras e bulldozers, tal como o senhor António Joaquim de Alicate, robustos, de poucas palavras, para quê palavras?

Agora salta...

E eu saltei, voei sobre as espigas de trigo, e em vez de cair

Ainda hoje sinto-lhe as mãos no meu esguio pescoço,

E em vez de cair sobre uma leve cama de espigas de trigo com lençóis de cansaço, não, não ouvi as palavras dele, não percebi as palavras dela,

Ainda hoje

Menina,

Ainda hoje

Salta,

Ainda hoje

Olá, menina Alzira... está boazinha?

Um dia

E das poucas palavras, as poucas palavras, se não servissem para resmungar com três ou quatro miúdos, serviriam para quê? O quê? Não acredito, queixava-se ele, um dia, quando ia para entrar no palheiro e viu-me sobre o telhado, em pés de lã à procura de uma velha bola de futebol, gritou-me

Agora salta!

E eu, ainda hoje, não consegui poisar o meu corpo no doce chão, nós, três ou quatro, de quintal em quintal, saltávamos os pequenos muros, e eu, ainda hoje, tenho saudades do senhor António Joaquim de Alicate e da menina Alzira, e eu

Sobre o telhado do palheiro...

E eu, hoje, sinto-lhe as mãos no meu esguio pescoço.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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