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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


03.11.13

foto de: A&M ART and Photos

 

podíamos aproveitar os desenhos da sala de jantar

podíamos fazer das paredes húmidas telas com alegria

e palavras em espuma

à espera do Oceano

sentávamos-nos sobre a soleira da porta de entrada

e esperávamos o regresso das almas impregnadas no mármore livro onde dorme o avô Domingos

é Domingo

visitei-o e percebi que um dia

eu

não tenho quem faça o mesmo por mim

pertencerei a uma sepultura solitária

entre riachos e pedras dentárias

prédios e alicerces de vidro

é Domingo

e o avô Domingo parece satisfeito com a minha visita

não o consigo ouvir

não o consigo ver...

mas sei que ele vagueia nas minhas mãos enquanto nascem delas as palavras dele

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 3 de Novembro de 2013


27.10.13

foto de: A&M ART and Photos

 

Esqueço-me que a minha velhinha máquina de escrever ainda escreve, apesar da idade, ainda lhe sinto em algumas das noites o pulsar das teclas, às vezes percebe-se que existe um sobressalto, coisa pouca, quase como quando vamos por uma calçada e encontremos uma das pedrinhas salientes, damos um pulhinho, quase que caímos ou não caímos e continuamos as conversas como se nada tivesse acontecido, acontece que muitas da vezes faltam-lhe as palavras, algumas deixaram de existir nela, outras come-as embrulhadas nas também velhas folhas de papel, e ainda tenho o problema da fita, quase inexistente, quase transparente, e vejo as letras como que invisíveis rajadas de vento quando os edifícios da outra margem vergam, ajoelham-se e rezam, e assim vão acontecendo frases, palavras misturadas em negros e vermelhos, rasuradas com o lápis-borracha, e qualquer dia, ela

FIM,

E qualquer dia, ele

FIM,

E qualquer dia, nós

Esquecemos-nos que a nossa velhinha máquina de escrever ainda escreve, pouca coisa, ou quase nada, mas escreve, banalidades, a fulana do terceiro esquerdo diz que o companheiro do quarto direito a agride, o transparente transeunte do rés-do-chão afirma a pés juntos que a menina do sexto frente está quase sempre embriagada

E eu, a velha máquina de escrever, pergunto-me

Que tenho eu a ver com isso tudo, que me interessa a mim, ao papel onde escrevo e à fita que colocas os careceres já gastos no pequeno papel, às vezes tão fino que consegue-se ler do outro lado

Do espelho?

E qualquer dia, ele

FIM,

E qualquer dia, nós

Fartos de ouvir, de ler, banalidades,

Coisas sem significado, fulana põe os cornos ao marido, e depois?

O marido corneia a fulana, e depois?

Que tenho eu, uma velha máquina de escrever com todos esses acontecimentos, e a culpa foi do parvalhão que me tirou da caixa em plástico rijo onde eu habitava, anos e anos encerrada, dormia, sonhava...

E eu, a velha máquina de escrever, pergunto-me

E depois?

“Fodia não fodia” mas percebia,

E depois?

FIM,

Da vida, da escrita, das folhas em papel, e do cheiro a tinta, fazes-me falta quando sentia os teus dedos no meu teclado, e depois de escreveres um poema ou um texto, sentia-te dentro de mim e ele acontecia, o orgasmo maquinal

FIM,

E deixaste de tocar-me e deixaste de escrever em mim e deixaste de olhar-me e pegar-me e acariciar-me e

FIM,

Beijinhos,

FIM.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 27 de Outubro de 2013


28.04.12

Nas paredes curvilíneas da memória
poiso os meus braços de prata
acaricio pacificamente
os meus lábios de incenso
e as pinceladas do meu rosto
vagueiam livremente no vidro transparente
de linho amanhecer
antes do pequeno-almoço

oiço a tua voz misturada
nas acácias do fim de tarde
oiço-te enquanto me olho nas paredes curvilíneas da memória
sem palavras sem estória

sem nada

poiso os meus braços de prata
acaricio pacificamente
os meus lábios de incenso
e nas pinceladas do meu rosto
acorda a madrugada
cresce uma rua sem saída
suspensa numa cidade imaginária
com muitas portas e janelas
e calçadas
e velhos que se esqueceram de acordar
e fingem orgasmos pulmonares
e constroem a felicidade
num vão de escada
sem nada
com barcos mergulhados
em oceanos testiculares

sem nada

de mão dada
às paredes curvilíneas da memória
os meus braços de prata
pacificamente acariciados
felizes
contentes
tal como os velhinhos
num vão de escada

sem nada...

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