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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


28.01.23

Traz o sono a esta lareira,

Traz nos teus lábios os incêndios da madrugada,

Traz as palavras para eu semear…

Semear nesta terra queimada,

 

Traz a tua mão,

A mão que o meu rosto vai acariciar,

Traz a lua

E a filha da lua

E o deslumbrante luar,

 

Traz-me os livros que escrevi,

Para escrever nos teus lábios,

Traz o sono a esta lareira

E todos os poemas,

E todas as estrelas

E todas as savanas,

 

Traz-me todos os rios,

Todos os mares…

Traz-me as árvores

E os pássaros de cantar,

Traz-me a chuva,

E faz com que as nuvens parem de chorar.

 

 

 

 

Alijó, 28/01/2023

Francisco Luís Fontinha


21.10.22

Ordenou-lhe que se ajoelhasse, ele fê-lo sem hesitar, e só depois de sentir no pescoço o frio da lâmina da espada que o Rei Nu segurava com as duas mãos, percebeu que este lhe ia cortar a cabeça; durante alguns segundos viu-a rolar calçada abaixo, depois, acordou sobressaltado e deu-se conta que estava a sonhar.

Algo de errado se passava com a sua vida, pois o Rei nunca cortaria a cabeça a um mendigo, e este último não sonha.

Então mergulhou na sombra e questionou-se… porquê eu?

Será porque escrevo nas paredes da casa de banho?

O dia estava frio. Na silenciada manhã ouviam-se os gemidos dos primeiros cigarros em combustão, aos poucos, muito devagarinho, as primeiras crianças deslocavam-se para a escola, e num ápice, como se tivesse caído do céu uma montanha de pássaros, toda a rua ficou intransitada; chovia torrencialmente e apenas de barco era possível chegar ao cais.

Sabes, ouvi dizer que todos os mendigos são felizes…

Eu sei!

Como vou agora atravessar a rua com toda esta enxurrada?

De relance viu sua majestade o Rei Nu, mas como tinha sonhado que este lhe tinha cortado a cabeça, hesitou, pensou muito bem, e decidiu não lhe pedir ajuda,

E se o gajo hoje me corta mesmo a cabeça?

Um mendigo sem cabeça não é anda, é um corpo, como tantos outros, que passam apressadamente para o trabalho.

E não seremos todos nós… corpos?

Adiante.

Meteu-se à água muito pausadamente para não se enfiar em algum buraco que estivesse submerso, chegou ao cais, e com algum esforço, deitou a mão ao muro de vedação e num pequeno salto no escuro, atravessou-o sem dificuldade.

Do outro lado da rua e já no cais, deu-se conta que tinha esquecido o pequeno saco que trazia na mão, onde algumas bugigangas se escondiam no seu interior, neste caso, todos os seus pertences, e mentalmente deparou-se com o dilema de voltar a atravessar novamente a rua ou partir mesmo assim; sem nada.

Partiu assim mesmo.

Na algibeira, juntamente com dois ou três cigarros, tinha a caneta de tinta permanente que lhe tinham oferecido e que de nada lhe servia, pois não tinha papel com ele, tão pouco uma secretária e cadeira onde sossegadamente poderia sentar-se e escrever alguma coisa. Sentiu o vento no rosto; e pensou que tudo se conjugava para pegar no barco à vela e zarpar em direcção ao desconhecido.

Perdeu-se de amores por uma Princesa, nunca soubemos se era a filha do Rei Nu ou outra qualquer, tem um rebanho de cabras e dizem, quem já o viu, que é muito feliz.

Como são felizes os mendigos que se perdem de amores por uma Princesa e têm um rebanho de cabras.

 

 

 

Alijó, 21/10/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


20.10.22

Caem de ti

As sílabas do silêncio,

Árvore enamorada,

Caem de ti

As pequenas lágrimas

Sobre esta calçada,

Caem de ti

As minhas tristes palavras…

 

Palavras de nada.

Caem de ti

Os cabelos cinzentos do destino,

Caem de ti

Os pássaros enforcados,

Nas mãos daquele menino.

Caem de ti

Todos os corações amargurados.

 

 

 

Alijó, 20/10/2022

Francisco Luís Fontinha


16.10.22

Desta árvore onde me sento, não vejo o mar. Nesta árvore onde durmo e sonho, não vejo o mar. Nesta árvore onde poiso as minhas mãos frias e amarguradas, vejo o mar.

Serão os meus olhos as janelas com fotografia para as infinitas tardes de Primavera? Sentado neste cadeirão, enquanto pela janela chegam a mim as palavras que nunca te direi, desisto de olhar-te, desisto de mentir-te; um dia, qualquer dia, perceberás que os pássaros também choram.

Que as árvores também choram. Que tu choravas enquanto eu desenhava em mim todas as lágrimas dos longínquos coqueiros, que tu choravas enquanto eu semeava palavras nas tuas chagas.

Os pássaros também choram. As flores, ao contrário dos pássaros, dançam, brincam, erguem-se até às nuvens; os pássaros choram, as flores, as flores que tinhas sobre o peito, não choravam, mas… voavam.

Voavam como voam hoje as tristes equações do sono, voavam como voam hoje todas as manhãs sem poesia, do corpo, do teu corpo, lanço sobre ele o poema em cio, vagueio e não choro, levanto-me do chão, poiso a minha mão sobre os teus seios de amanhecer, e acreditando que os meus poemas são as delícias do teu olhar, olhava-o, colocava-lhe a mão sobre o débil peito e, cansei-me de desenhar palavras nas tuas mãos. Seria melhor teres voado…

Desta árvore, observo-te. Lanço sobre ti o silêncio, lanço sobre ti a espada do sonho e, não, não digas que os pássaros não choram, porque os pássaros, como tu, também choram, também brincam, também morrem.

E morrem de quê, meu amor?

De alegria, minha querida, morrem de alegria.

Como os poemas que te escrevo.

Como os poemas que te escrevo e guardo-os dentro da algibeira da insónia, e acredita que morrem de alegria; e nas suas asas transportava uma manhã de Primavera.

Quanto tempo, doutor?

Duas semanas, duas semanas,

Duas semanas poisado sobre esta árvore à espera de que os pássaros chorem, à espera de que esta mesma árvore, também ela, chore

De tristeza?

Não minha querida, de alegria.

Um dia a casa despediu-se dele. Enquanto voava pelo corredor, olhava todos os objectos, e ambos sabíamos que nunca mais os olhava; e ambos sabíamos que o jardim que se despedia dele, um dia, hoje, é apenas terreno agreste, é apenas pó.

E voaram, meu amor.

Os pássaros também choram?

E as árvores, e as casas, e este rio que te olha, e este mar que te banha quando a maré entra pela janela e um orgasmo de palavras se abraça ao teu olhar. Depois, tivemos a visita das sobejantes árvores onde podíamos ver as lindas manhãs de Primavera, como se a Primavera naquela tarde fosse uma pedra mágica.

E depois, minha querida?

As tardes de ninguém,

Ouviam-se-lhe as gargalhadas em despedida, mas o sono levou-a para os infinitos murmúrios da solidão, e dizem que hoje vagueia pelas ruas da cidade em busca de pincelados sorrisos.

Não sei, meu amor…

De tristeza?

Não minha querida, de alegria.

E nunca percebemos porque choram os pássaros; os pássaros da minha vida.

Alegria, meu amor?

E só quando as fotografias estão em silêncio é que percebemos que os pássaros, as árvores, os poemas, choram…

E os barcos, meu amor?

Esses, brincam nas minhas mãos…

 

 

Alijó, 16/10/2022

Francisco Luís Fontinha


26.09.22

Deixou cair as asas sobre o mar e adormeceu; no dia seguinte deu-se conta que todas as fotografias que tinha escondido dentro da pequena caixa de sapatos número trinta, rés-do-chão esquerdo, tinham desaparecido como anteriormente já tinham desaparecido dois livros de poesia de AL Berto, um livro do Pacheco e um outro de Lobo Antunes.

Com os livros de poesia de AL Berto, muitos anos antes de perder as asas, teve uma enorme discussão, pois estes quase sempre não gostavam de ser manuseados, folheados, quanto ao livro do Pacheco, esse, estava sempre com dor de cabeça.

O dia erguia-se entre os seios dela, da rua, regressavam aos poucos as loucas buzinas dos transeuntes em delírio, como regressam ao final da tarde os estorninhos parecendo uma orquestra de zumbis, mas quanto aos dois livros de poesia de AL Berto, hoje, e enquanto os folheava e manuseava, não se queixaram de tal, até que o livro do Lobo Antunes me questionou a razão do par de asas estar sentado sobre eles, quando poderiam muito bem estar na minúscula sala de jantar; e porque não suporto birras nocturnas, puxei de um cigarro e fui ver o maldito mar daquela última noite.

O mar estava chocho, a maré tinha acabado de deixar o quarto e nele deixou impregnado o invisível perfume que apenas as marés usam, junto à janela havia uma secretária onde dormiam pedaços de papel escritos no século passado e que ele já nem se recordava; que conste que tratava-se apenas de algumas cartas que nunca foram enviadas, portanto sem remetente, e duas ou três receitas de culinária que nunca se atreveu a experimentar.

O mar estava enjoado. Nos lençóis, uma pequena mancha de esperma, desenhava a manhã que mais tarde acordaria e ninguém saberia se ia terminar. Numa das paredes, pequenas frestas olhavam-no, e começou a acreditar que estava a ser observado pelo defeituoso silêncio que muitas vezes se alicerçava sobre o peito e, quase sempre não entendia a razão.

Sabia que um dia seria apelidado de anjo azul, de azul tinha o pulso pincelado, mas de anjo, de anjo nada tinha, apenas as asas que deixara cair sobre o mar.

Sabíamos que a noite trazia sempre uma pequena malga de sopa, uma sandes de nada e dois ou três cigarros, depois, acreditando que sabia voar, colocou as asas e lançou-se da clarabóia…

Estatelou-se no pavimento como se fosse um pássaro que acabasse de sofrer um AVC, até que do mar, em passo apressado, vieram em seu auxílio as fotografias que tinham desaparecido da pequena caixa de sapatos; ouviam-se os lobos que aos poucos se despediam da maré, e esta, partiu.

Ele, depois de acordar, abraçou-se aos pequenos lençóis e ainda hoje inventa o sono antes de regressar a noite às suas mãos.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha

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