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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


03.07.22

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, diga-se; tínhamos trazido da antiga ilha da solidão todos os leitos do amor proibido. Nas ruas da cidade, ouviam-se os gritos dos cacilheiros que durante o dia transformavam o tejo em pequenas estradas de transeuntes e, sob o viaduto em Cais do Sodré, putas finas guerreavam-se por cinquenta escudos.

O sono, que de algibeira em algibeira, de lapela em lapela, desenhava-se no pavimento lamacento em pequenas vozes sinusoidais e ao fim de alguns gritos e gemidos, acabava sempre por regressar a uma Belém envenenada pelos putos em busca de sexo e depois de alguns escudos, escondiam-se rio adentro como que crianças em fuga da literatura que nesta ou naquela rua, se vendia a preço de saldo.

Uma noite mergulhei no poema da saudade, acreditando que depois do sono, acordarias sobre as lâminas do medo, mas mal visto, nada poderia na altura vaticinar que as janelas do teu olhar, hoje, sejam apenas cacos e pequenas migalhas.

O poema, às vezes, enquanto o poeta fumava cigarros de luz, mergulhava no rio e, ao longe, na varanda de um paquete que começava, aos poucos, em pequenas manobras, a aproximar-se de terra, mergulhava e só voltava depois de longas horas de espera, onde cadeiras e mesas já dormiam.

Hoje, ainda hoje, percebo que o poeta que sentado na margem do rio fumava cigarros de luz e o menino que na varanda do paquete via uma cidade imensa a entrar-lhe olhos adentro, eram um só; eu.

Anos depois, a cidade transformou-se num imenso sono de meninos em calções, sobre a mesa, o punhal com que ela numa noite inventada para a ocasião, espetou no peito do poeta, que ontem, sabia onde habitava o velho poema, e hoje, percebe que esse velho, que às vezes, vestido de marinheiro, pede esmola no musseque, deixou de pertencer aos jardins floridos do sonho.

Bebiam-se shots de fumo que apenas o cacimbo sabia onde se escondiam, depois do sexo, porque a cidade, aos poucos, começava a desaparecer do espelho tricolor da madrugada; e depois da chuva, o cheiro intenso da terra queimada. Levantava as mãos a Deus e agradecia por mais um dia que tinha terminado, e ele, ainda, mesmo a muito custo, se encontrava vivo e de boa saúde.

Depois, o velho poeta morreu numa noite de orvalho, mas deixando de acreditar no desejo, sabia que as margaridas que brincavam no jardim do sono, um dia, regressariam a mim. E hoje guardo com amor a pequena sílaba que ele me deixou de recordação e em testamento.

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, e mesmo assim, o puto trocava notas de cem escudos por ninharias que hoje habitam a casa das abelhas em flor.

E sempre que ele cerrava os olhos, via o imenso mar a entrar musseque adentro como o paquete, em pequenos roncos, atravessou o tejo até ao cais de desembarque e desfaleceu sem que ninguém o tenha, até hoje, ressuscitado.

Depois, morreste-me.

Depois, morri nas tuas mãos.

E sempre que invento o sono, vejo um musseque a entrar dentro do meu corpo como se fosse uma flecha envenenada, como se fosse um poema em delírio.

 

 

 

Alijó, 3/07/2022

Francisco Luís Fontinha


08.05.22

Descia a calçada descalça

Dentro da sombra imanada da solidão,

Descia a calçada envenenada

Pelas rosas do meu jardim,

Descia a calçada descalça

Acompanhada pelo perfume do Verão,

Descia a calçada cansada,

Cansada de tanta paixão,

 

Descia a calçada das estrelas

Como se o sopro da manhã

Se levantasse do chão;

Descia a calçada madrugada

Enquanto o enforcado poeta

Escrevia na mão…

Enquanto a desgraçada calçada

Morria de paixão.

 

Descia a calçada descalça

A menina das planícies além-mar,

Trazia um barco suspenso na saia

E um marinheiro acorrentado aos lábios…

Descia a calçada descalça

A menina luar,

Sem perceber que esta calçada

É apenas um pássaro de voar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/05/2022


03.05.22

Dos beijos ensonados

Às sílabas envergonhadas,

Dos pássaros cansados

Às tristes madrugadas,

Dos montes mimados

Às tardes revoltadas…

Da triste saudade

À misera esperança sem nome;

Do vinho martelado

Às poucas cartas que enviei,

 

À verdade,

À fome,

Ao poema que assassinei…

Do meu corpo enforcado

Às lágrimas que chorei,

Do vento,

Da solidão

E de todo o sofrimento…

E de todo o pão.

À chuva miudinha de Luanda,

 

Aos cheiros do amanhecer,

À fogueira…

Às espingardas sem coração.

Ao samba,

Ao prazer,

Ao uísque a bebedeira

Quando a noite parece esquecer,

Quando a noite parece morrer…

E o poeta dos beijos ensonados

Acredita em versos de dizer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/05/2022


07.12.21

Quando o teu corpo baloiça

Na tempestade,

E um pássaro de loiça,

Em pedacinhos, grita “Liberdade”.

 

E esse pássaro aos gritinhos

Suspenso na madrugada,

Oiço dos ninhos,

Os ninhos da passarada.

 

E quando no teu corpo se escreve a canção;

Grita a alvorada,

Grita o coração.

 

Grita o coração

E chora a madrugada,

Grita, grita a nação.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 07/12/2021


03.12.21

Olha para mim

Enquanto o sol brilha na tua mão.

Escreve em mim

As palavras estonteantes

Do desejo.

Olha para mim

Enquanto o meu pobre coração,

Em pedaços de beijo,

Voa em direcção às estrelas cadentes.

 

Suplico ao silêncio

Que se despeça do meu corpo,

Sabendo que lá fora,

Entre sombras e murmúrios,

As palavras estonteantes

Comem-me os duzentos e seis pobres ossos.

 

Duzentos e seis pedaços

De nada.

 

Olha para mim

Depois de acordares e abrires a janela,

Olha para mim

Enquanto o luar se deita na tua cama,

Olha, olha para mim

Sabendo que da tua voz tão bela,

Há um poema em chama,

 

Há um poema em trapos,

Com as palavras da alvorada.

 

Olha-me.

 

Olha para mim

Montanha esbelta da minha terra adormecida,

Com as árvores em papel colorido,

Olha para mim

Montanha minha amada querida,

Olha!

Olha para mim,

Corpo sofrido.

 

Olha para mim

Enquanto o sol brilha na tua mão.

Escreve em mim

As palavras estonteantes

Do desejo.

Olha para mim

E ouve esta pobre canção;

São palavras que não vejo,

São palavras que vão…

São as palavras dos amantes,

Dos amantes em construção.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/12/2021


02.12.21

Dentro do sono,

Viaja a cansada noite sem despertador,

- há dias que não como,

Como uma flor.

 

Vive-se e morre-se de quê?

Não comendo flor,

Não bebendo água congelada,

Morrer-se porquê?

Sabendo que na triste madrugada,

Em plena união,

Habita uma flor,

Uma flor sem coração.

 

Dentro do sono amanhecer,

Quando alguém sem nome

Abre a cancela da alvorada;

É o poeta que não consegue escrever,

Escrever no papel da fome,

A fome envenenada.

 

E depois de morrer,

O desgraçado do poeta vagabundo

Deixou sob a ponte,

Um pedacinho de geada.

Não consegue correr,

Correr até ao cimo do monte,

Sentar-se e olhar a imensidão do mundo,

Do mundo que é uma maçada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 02/12/2021


31.01.21

Nestes dias,

Tristes dias tem o dia.

Das tristes manhãs dos dias,

Respira a árvore a sombra do silêncio,

Brinca a criança,

A menina;

A menina dança?

Dança que dança

Nos tristes dias, dos dias.

Saber esperar que acorde a manhã,

Quando os alicerces da insónia,

Ainda dormem, dormem os tristes dias.

E, as noites?

Tristes noites têm os dias,

Nas tristes tardes de encantar,

Tristes, eles, dormem o sono em flor,

Sem vontade de acordar.

Morrem os tristes dias,

Deitam-se as tristes mulheres,

Quando à lareia, o triste poeta,

Desenha no sangue dos tristes dias; apetece-me falar.

Nestes dias,

Das tristes flores,

Há árvores em cantorias e,

Doces amores.

Vai ela à fonte, triste e desanimada,

Leva no cântaro um poucochinho de nada,

Tristes dias, tristes tardes estas de caminhar

Sobre a calçada, também ela triste, também ela envergonhada;

Todos os tristes dias, são dias de amar.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 31/01/2021


19.01.21

O poema dorme nas pernas da laranja.

As pernas da laranja, quando acordam, adocicam as palavras escritas pelo poeta,

Quando a mulher do poeta, é a própria laranja.

Sou, por vezes, apedrejado por energúmenos, mas não me importo.

Sou simples, como todas as palavras do poema.

Amo o poema,

Sou amado, como a amante do poeta, ama o poema e,

Todas as noites,

Uma laranja abre as coxas recheadas de sombra,

Lá fora, fios de geada brincam com a caneta do poeta,

Porque sendo ele, às vezes, apedrejado, continua a fabricar palavras quando cai a noite.

A caneta do poeta, apaixonou-se pela amante do poeta;

Podia ser trágico, podia ser infidelidade… mas o que os separa são apenas palavras,

Gritos ao ouvido que ela tanto adora.

Acabaram-se os cigarros. Sobre a mesa da sala, um volume de cigarros espera-o, como o espera a caneta, o papel e, os ouvidos da amante que ele a todos os momentos lhe sussurra; AMO-TE.

Poderia escrever-te a todas a horas, minutos, segundos, ou nunca te escrever.

As palavras invisíveis são as mais apetecidas, são escritas no silêncio entre o sono e o sonho.

São como a geada; leves, tranquilas, doces até.

O poema dorme nas pernas da laranja.

E se a laranja é as coxas da amante do poeta, como se apelidará o seu saboroso sumo, dúctil nas manhãs de Inverno?

Saltita.

Brinca na areia branca da manhã os esqueletos da noite passada,

Pequenas ranhuras nas paredes do cubículo que acesso ao sótão; sempre quis ter um sótão imaginário, apenas para mim.

Um sótão onde poderia brincar, escrever, pensar e, manusear a laranja.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-19/01/2021


16.08.20

Das palavras frias e esquecidas

Emerge o sonho do poeta,

Das palavras cansadas, vadias,

Correm nas mãos do poeta.

Nas ruas desertas e frias,

Entre janelas e clarabóias perdidas,

Que dormem na cidade inventada.

O sonho do poeta,

Quando escreve na esplanada deserta,

Vêm os milhões de gritos,

Desejos,

Do poeta,

Entre beijos.

O dia.

Quando o poeta acorda,

Dança sob a chuva miudinha,

São palavras, do poeta,

Aquelas que ficam esquecidas,

Nos olhos da amante do poeta.

Beijo.

O beijo do poeta

Nos lábios pincelados do poema,

As rosas, os jardins do poeta,

Numa qualquer cama.

(Das palavras frias e esquecidas

Emerge o sonho do poeta)

O medo.

A sombra que mata o poeta,

Quando a cidade se esconde no mar,

Quando o poeta desenha o próprio mar,

Na lareira da noite,

Quando a noite abraça o poeta,

Quando o poeta morre no poema.

Os versos,

As rosas das mãos do poeta,

São prosas,

São palavras…

São o fumo da montanha.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16/08/2020


10.08.19

Os teus beijos são o silêncio nocturno das estrelas de papel.

São os livros apinhados sobre uma secretária abandonada,

Triste,

Cansada.

Os teus beijos são o desejo da madrugada,

As flores do meu jardim,

As bananeiras que cuido e pinto,

Nos teus seios de menina mimada.

Os teus beijos transportam estórias,

Brincadeiras de crianças,

Os teus beijos são lembranças,

Quando cai a noite em mim.

Os teus beijos são as palavras envenenadas,

Os poemas crucificados nos teus lábios,

Derradeiro porto de abrigo,

Onde descanso,

Me deito…

E amo.

Os teus beijos são musicalidade,

Pintura,

Literatura,

Festa,

Farra,

Manifesta alegria do desejo…

Os teus beijos são o Luar,

A jangada esquecida no mar.

Os teus beijos são o telegrama,

A cama,

Onde em ti construo cabanas,

Plantas,

Árvores,

Cinemas.

Os teus beijos, meu amor,

Os teus beijos são a flor,

A ciência,

O cinema,

Que transpira melancolia…

Os teus beijos são crateras,

Rochedos,

Montanhas,

Em cio,

Quando ao fundo,

Lá longe,

Se vê um rio.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

10/08/2019

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