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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


04.06.16

todas as noites

entre segundos de espera e minutos de silêncio

o derradeiro sofrimento do relógio de pulso

sem tempo

imenso longínquo abstracto do corpo submerso no vazio

a alma desesperada suspensa num cabide de prata

e nas mãos sangrentas poisa o amor…

todas as noites

ossos em fotografias esquecidas no sótão da saudade

todas as noites

perdido na idade

a palpitação sonolenta do cansaço

quando os astros se sobrepõem aos anéis geométricos do beijo

infinito secreto amar

que deambula nas metáforas da montanha desesperada

pela infinita solidão

o sentir não tocando a tua mão

todas as noites

vagabundas auréolas de açúcar

sobrevoando o teu sorriso…

no pulso

um relógio enlouquecido pela tempestade das palavras

todas as noites

o medo

a palavra da palavra

brincando num caderno de nata…

e todas as noites

a lata

o zinco telhado da casa húmida

no triciclo de chapa…

morre lentamente

sufoca na janela sem vista para o mar

todas as noites

os barcos na algibeira da vaidade

prisioneiros do meu perfume

entre segundos de espera e minutos de silêncio

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 4 de Junho de 2016


28.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Um relógio de pulso abraçado à mágoa dor,

a derradeira espera quando tudo à sua volta parecia voar como lençóis de água-doce,

queixava-se dos cortinados,

da cor aberrantes das paredes do corredor...

queixava-se da ponte em aço quando balançava com os beijos deles,

entre bocas remexidas,

convexas medalhas de prazer nos lábios da solidão,

um...

um relógio em paixão,

voando e dançando e sonhando,

um... um relógio de pulso... pulando os xistos muros do prazer,

hoje... percebi o que são palavras amorfas, doentes, palavras... palavras só minhas,

 

(palavras apenas escritas no meu corpo... e lidas,

e lidas pela tempestade do medo...)

 

Um relógio de pulso à janela do cansaço,

ouvíamos o vento entranhar-se nos orifícios das folhas em granito,

às lápides...

… às lápides as eternas fotografias tuas...

e dançávamos debaixo dos coqueiros,

davas-me a mão,

levavas-me até ao mar...

ai... ai o mar,

o relógio que escondeste na mesinha-de-cabeceira,

os óculos mergulhados em finos vidros de infestadas pétalas de ouro amedrontado...

e dos teus livros... tenho o cheiro do silêncio embrulhado em sílabas pinceladas com pedaços de amor,

e... e um relógio de pulso abraçado à mágoa dor.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

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