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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


14.08.22

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Percebia que nos teus braços

Habitavam as andorinhas da Primavera,

Como habitam em mim,

As palavras que os teus lábios

Vomitavam na triste alvorada;

 

Percebia que nos teus braços

Brincavam as sílabas cansadas do luar,

Enquanto nas ribeiras,

Nas palavras do infinito,

Existiam as manhãs cansadas,

 

Que nas primeiras horas da madrugada

Desciam às vozes roucas da solidão.

Hoje, percebo que o corpo em dor

É um pedacinho de nada

Em direcção mar,

 

Em perpétuo silêncio.

Percebia que nos teus braços

Um menino traquino sonhava

Com as marés de um jardim

Construído sobre a sombra das mangueiras endiabradas…

 

E percebia que nos teus braços

Eu bebia todos os poemas

Que nas árvores dançavam,

Como dançaram num quarto escuro

Os gladíolos das tuas mãos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14/08/2022


09.08.19

Sabia que o teu corpo era porcelana madrugada.

Manuseio-o como se fosse uma sílaba engasgada no poema,

Com jeitinho,

Pinto-o, beijo-o,

Como se fosse uma pétala no jardim do silêncio;

Dois olhares cruzam-se na escuridão do desejo,

Um cigarro arde,

E recorda-se do beijo.

Oiço a tua voz silenciada na alvenaria,

Oiço os gemidos do luar suspensos nos cortinados da paixão,

Sou tão feliz, meu amor,

Tão feliz.

Não finjo,

Sinto-o dentro do peito,

Esta ressaca que me aprisiona aos teus braços,

Não finjo, meu amor,

Não finjo que somos donos do mar,

Não finjo que somos os únicos sobreviventes das tempestades da loucura…

E, no entanto,

Lá longe,

Um barco carregado de livros, aproxima-se,

E poiso nas tuas coxas.

São poemas, meu amor,

Poemas de amor.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

09/08/2019


12.01.16

Há arte abstracta no teu olhar

Uma sinfonia de cores

Que se diluem na madrugada

Se cruzam na avenida mais obscura da cidade

E se deitam em cada tela adormecida pela paixão,

 

Há palavras nos teus lábios

Sílabas extintas pelo vulcão da saudade

Casas ignoradas

Árvores envenenadas

Nos solstícios do desejo,

 

Há silêncios no teu corpo

Medusas embriagadas pelo cansaço

Sombras de aço

Sobrevoando o teu cabelo

Que o vento assassinou…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

terça-feira, 12 de Janeiro de 2016


22.11.14

Queimaste a insígnia da paixão no sonífero adeus da tempestade,

dormes profundamente só...

e te alimentas das insignificantes metáforas da saudade,

trazes nas lágrimas uma canção por escrever,

um poema se ergue na tua mão,

e sem o saberes...

habitas na calandra encaixotada do sofrimento,

não sei se algum dia serei teu,

não sei... não sei se lá fora há sol ou escuridão,

se é dia,

noite...

ou... uma mistura de tons com odor a infância,

um barco encalha nos teus seios,

transpiras... gemes as sílabas do prazer,

esperas pelo nascer da madrugada,

quando hoje não haverá madrugada,

quando hoje... não acontecerá nada...

se é dia,

noite...

ou... ou um pincel disparado pela espingarda da solidão,

e se entranha no teu sorriso...

e no entanto,

queimaste a insígnia da paixão,

como quem apaga um cigarro depois de te amar.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Novembro de 2014


15.06.14

foto de: Stéphane Spatafora Photographe

 

O vazio,

e falsas esperanças mergulhadas no buraco da solidão,

o vazio que se traveste de dor, o silêncio que embrulha o sofrimento,

este rio que são as tuas mãos, perdidas no musseque anónimo da paixão,

as crianças saltam até agarrarem as flores que habitam o tecto da noite,

vazio, sisudo... sentido proibido de amar,

o vazio imprevisto, descontínuo... o vazio agreste dos olhos da estátua de granito,

há sombras que embriagam os teus seios de porcelana e eles, eles a construir sorrisos desde...

 

(desde o último luar)

 

O amor,

também ele, vazio,

pobre,

ângulo obtuso quando alimentado pelo púbis da madrugada,

 

(hoje não corações, hoje não beijos – a esplanada recheada de vampiros)

 

O vazio,

homem rude, homem dos sete ofícios, o homem mendigo que descobriu a falsa esperança,

o fantasma,

o vazio dos telhados que a cidade ignora, despreza, que a cidade... não quer,

 

Que cidade é esta?

 

Vazia,

sem pessoas, sem imagens, sem..., sem nuvens,

o sombreiro carnívoro que devora todas as palavras que a tua pele transpira,

gotículas de poesia descendo o teu corpo, até que a falsa esperança ilumina o teu cabelo,

e sei que deixou de viver,

hoje... nada, a cidade provocadora, a cidade dos teus suspiros,

uma porta que se encerra, e morre, e levita,

a lanterna do Adeus, sempre acesa, sempre pronta a suicidar-te com os beijos de alvenaria cansada,

 

(hoje, hoje não)

 

Que cidade é esta?

 

(desde o último luar)

 

Que deixei de amar a espuma dos espelhos de amanhecer,

e sem o perceber,

descobri que a falsa esperança... que deixei de amar, não existe mais,

o vazio, o vazio corpo da sílaba encarnada...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Junho de 2014


02.03.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Há asas pinceladas nos teus verdes olhos de andorinha,

uma colmeia de palavras emerge da solidão nocturna,

há de ti as marés envergonhadas, tristes, marés... marés dos telhados de vidro,

sinto-te cambaleando sobre as nuvens cinzentas das janelas amarelas,

o jardim deixou de sorrir,

e partiu em direcção ao mar,

o amor de ti em mim... sem mim, uma coisa estranha, amarga, diluindo as ditas palavras castanhas,

há asas pinceladas,

há asas a arder sobre os teus ombros de melancolia,

e sei que no fundo do mar, vives, dormes... e passeias-te nua como ventos de nortada,

acendo a luz da paixão, e ao meu lado apenas uma imagens de néon...

gemendo sílabas e bebendo carícias de madrugada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 2 de Março de 2014


14.02.14

foto de: A&M ART and Photos

 

vês o meu velho e estranho corpo dentro da insónia madrugada

percebes que dentro de mim existe um conjunto de roldanas, rodas dentadas e alguns tristes veios mergulhados na escuridão da partida

um comprimento indefinido de corda em perfume sisal adormece no teu pescoço de porcelana

sinto-te nas pálpebras de granito que a manhã deixou sobre a mesa-de-cabeceira

é tarde

temos fome de partir

correr em direcção ao rio com palavras de azulejo apodrecido

tocar na pele do mar

olhar no relógio de pulso o pulsar do desejo...

é tarde

temos de partir... partir para o prometido beijo

… sem sentir o palpitar do vento entre os corações de areia e as rochas abandonadas

 

um candeeiro de água salgada semeado no centro do passeio libertino

dois esqueletos de saliva deambulam como se fossem a alegria transformada em silêncio

o medo que o desejo roube todas as esplanadas de vidro

o cheiro das janelas com mãos de putrefacção acordam em ti e alicerçam-se aos teus cabelos de estanho

estranho mundo onde vivemos porque não sentimos o que temos

porque não o sabemos

ainda... se amanhã acordarás sobre o meu peito

ou... enforcada paixão nos ombros do plátano de cinzeiro gaivota atravessando pontes invisíveis

lágrimas com sabor a pétalas de carvão escrevem-se em mim

fico envergonhado

sem jeito...

triste... assim... assim como ficam tristes os livros dos teus seios quando líamos abraçados num sótão de insulina...

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014


31.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

O absorto corpo teu imaginado pela louca espuma do mar,

há no silêncio pardas palavras e sons melódicos, ou tristes... há no silêncio os poéticos sonhos da ejaculação precoce,

o absorto corpo que mergulha na minha mão, não existe, não chora... e não grita,

o silêncio reparte-se sobre as pedras calçadas do abismo...

e o salário do poeta bebe-se nas almofadas coloridas que as nocturnas noites deixam sobre a pele...,

sei,

o absorver-te enquanto uma varanda balança na tempestade madrugada que da boca saciada acorda quando os electrões da cidade correm em direcção aos rochedos teus abraços,

sei, agora..., sei que as tuas janelas são tão frágeis como as finas folhas em papel onde invento desenhos sem palavras, as descoloridas manhãs, os cortinados doentes que deixam o sorriso do Sol atravessar a negrume sílaba da canção da saudade,

sei que te queixas do alienado coração de gelo,

das nuvens com olhos envernizados,

dos tapumes que não te deixam observar o meu corpo... o absorto corpo teu imaginado pela louca espuma do mar...

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014


18.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

Não sei o nome dos teus olhos molhados

quando chovem pedaços de saudade nas pedras íngremes do silêncio

convenço-me que sou um corpo putrefacto esquecido nos pingentes húmidos telhados de vidro

sentindo as tuas mãos em aço

e submergindo nas tempestuosas águas que as palavras trazem depois de escritas

ditas e perdidas nas calçadas com flores apaixonadas pelos candeeiros envidraçados do medo

e na areia da paixão sei que vivem vogais vestidas de negro vendendo o corpo por três moedas...

sei que o teu corpo é um fóssil mergulhado nas quatro pedras de gelo do meu invisível uísque

sinto-as como carícias sombras nas páginas do livro de poemas à procura do barco dos sonhos

apitam e choram apitam... e gritam... e apitam... e gritam o apito da melancolia

e em loucas orgias de sílabas licenciadas em nuvens de sémen...

não sei o nome... dos anzóis da solidão.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 18 de Janeiro de 2014


04.01.14

foto de: A&M ART and Photos

 

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados,

Estoy enamorado,

“Estoy enamorado” sem perceber que a cidade dorme, respira e sonha..., deixei de sonhar quando dei conta das árvores com braços de cinzentos cigarros de enrolar, tive medo que depois de adormecer, nunca, nunca mais acordaria para olhar o mar, dormi, não sonhei... e quando me acordaram, anos depois, voltei a olhar

“Estoy enamorado” pelo mar,

E conheci uma abelha por quem “estoy enamorado”, literáriamente é uma besta, sempre aos gritos, acorda todos os fantasmas da cidade dos peixes, sinto dentro de mim os barcos da desgraça, sinto dentro de ti os edifícios com alicerces de prata e telhados em colmo, a floresta deambula nos teus cabelos, e tu, estúpida abelha, literáriamente pareces uma lareira sempre extinta, apenas daquelas que servem apenas de adorno, um cão saltita de sofá em sofá, e do resto do mobiliário... apenas a escrivaninha com quatro gavetas encerradas a fechaduras de marfim, um velho e rabugento cinzeiro e claro... a porcaria de sempre das mesmas fotografias de sempre, família, fantasmas que hoje apenas o são, habitam dentro do nosso pequeno espaço, não respiram, não saem de casa... mas... também não bebem, dançam umas com as outras, fumas haxixe por prazer e lêem revistas com fotografias de gajos nus, eles e a minha abelha parecem a tromba de um elefante depois da congestão com percebes e algumas quitetas, lembro-me das asas dela, e sinto nojo das palavras que me escrevia, dizendo que

“Estoy enamorada”,

As barbatanas sentiam o cheiro intenso do sossego das conchas vermelhas, a lua em guindastes de orgasmo levanta-se do divã, e

“Estoy enamorada” por ti, por eles, por todos os homens com vestidos de prata, os olhos pintados com rímel e nos lábios um colorido desejo sobressaltava... ouvíamos do outro lado da ranhura do gesso

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

E as varandas balançavam e as escadas brilhavam e as ombreiras...

Se iluminavam,

E

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

Amávamos-nos como bijutarias da “feira da ladra”, levava livros para vender e trazia panfleto de heroína para fumar,

“Si mi querido”,

“Estoy enamorado de ti” e quando regressávamos a casa tínhamos um regimento de transeuntes à nossa espera, polícia, polícia e mais polícia, tudo porque tínhamos trocado alguns livros por outros tantos panfletos de ardósia tarde sem recreio,

“Estoy enamorado de ti”,

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, a canalização sempre em pequenos arrotos devido aos pigmentos de ferrugem, ouvíamos cair sobre nós os pingos longos da chuva sem

Nome?

“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, o nome pertencia à rua do abismo construído sobre os rochedos da coragem, estar e não pertencer estando, e nunca estive, e nunca estarei...

Disponível,

“Estoy enamorado”,

“Sí mi querido”,

E a abelha zarpou de mim, sinto-me livre, sinto-me... sinto-me como uma enxada vociferando os novelos de lã da minha mãe...

Amanhã, amanhã... amanhã “estoy enamorado”.

 

 

(não revisto - ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 4 de Janeiro de 2014

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