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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


03.07.22

A sanzala, aos poucos, adormeceu na tua mão. O cheiro da voz térrea depois das chuvas, ainda hoje, habita dentro de nós.

Tínhamos no quintal um velho triciclo com assento em madeira que apenas o meu amigo Chapelhudo, quando acordava das noites loucas de Luanda, levava a passear junto à marginal.

As gaivotas suicidavam-se contra os sonhos cansados das tardes de Domingo e, entre Cucas e sombras, o Chapelhudo inventava estórias de adormecer, que apenas as flores do quintal sabiam ouvir e, me transmitiam antes que a alvorada partisse para o Mussulo.

Tínhamos gaivotas em papel; alguma, ainda hoje, brincam na minha mão, como brincam as tuas palavras e o cheiro do teu sorriso.

A sanzala, aos poucos, voava em direcção ao mar, e eu com um velhíssimo cordel, lançava papagaios em papel como anos mais tarde, lancei sonhos para o poço da saudade. O Chapelhudo gostava de passear pelas invisíveis sombras da sanzala como hoje, o menino dos calções faz todas as manhãs antes de adormecer.

Tínhamos medo do mar. o Chapelhudo tinha medo do mar. O velhinho triciclo também ele, tinha medo do mar; e hoje, todos nós amamos o mar, desejamos o mar, brincamos com o mar.

A sanzala, aos poucos, adormeceu na tua mão. O cheiro da voz térrea depois das chuvas, ainda hoje, habita dentro de nós, como habitam as chapas zincadas da Primavera, onde todos os pássaros se enforcam nas ardósias manhãs da infância. Tínhamos as mangueiras que pertenciam ao avô Domingos, depois de um recheado dia a passear machimbombos nas ruas de Luanda. Depois, regressava o silêncio, regressava a morte que hoje, que ontem, nos transportou para o improvável poema que o poeta enforcado deixou esquecido na algibeira; tão pequenino, o meu filho. Tão pequenino!

Mãe, onde fica o mar?

Pai, falta muito?

Luisinho, não tenhas medo do mar…

Sim, mãe!

Sim.

Prometo.

E aos poucos a sanzala, adormeceu na tua mão… como adormecem todos os nomes e cheiros de Luanda.

 

 

Alijó, 3/07/2022

Francisco Luís Fontinha


16.02.21

Via-te dançar

Na sanzala dos beijos,

Via-te brincar

Na sombra dos desejos,

Via-te abraçar

As palmeiras distantes da baía,

Via.

Via-te encostada à planície da solidão,

Depois da tarde se recolher,

Via-te a correr,

Quando apressadamente te encostavas ao corrimão

Da escada de acesso ao mar.

Via-te caminhar

Sob a ténue escuridão,

Via-te escrever e,

Pegares na minha mão.

Via-te perdida

Na cidade.

Via-te quando te escondias na idade

Depois da partida.

Via-te na esplanada da fotografia,

Via.

Via-te nos lábios a saudade

Do frio que ontem fazia,

Via.

Via-te em mim depois do acordar

Sabendo que dançavas na sanzala dos beijos;

Via-te sentar,

Via.

Via-te desejar

Todas as sílabas entre parêntesis e ensejos,

Via-te sabendo que ver-te me causa saudade,

Via-te na areia fina de uma página aberta,

Via-te quando olhavas sem vaidade

A rua deserta.

Via-te saltitando as pedras da calçada,

Via-te quando me batias à porta do silêncio matinal,

Com a paixão de um livro agasalhado,

Via-te embrulhada ao jornal,

O mesmo, de sempre, que eu tinha comprado.

Via-te sem saber que te via,

Na sanzala dos beijos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 16/02/2021


29.08.20

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes.

Desenhava palavras de menino

Na mão tracejada pela escuridão dos pássaros,

E, um dia, das palavras de menino,

Ao amanhecer,

Vi os teus olhos semeados na areia;

Sabia que um dia, qualquer dia,

Sem perceber que tinha em mim, aos poucos, um jardim de papel,

Alicerçado à minha triste veia,

Acordaria o teu sorriso.

Demorou anos, eternidades,

Passei por tempestades,

Oceanos recheados de medo,

E, esse dia, um dia, talvez aquele dia…

Regressou à minha mão,

E, fiquei com os teus lábios de amêndoa.

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes,

Alimentava-me de sombras,

Triciclos em madeira,

Menino traquina,

Trapezista em construção,

E, procurava, na sanzala da saudade,

Os olhos do teu coração;

Amanhã, depois de amanhã, o dia, a noite,

E todos os pássaros,

Dormirão na tua boca.

Poço infinito dos beijos prometidos,

Canções, palavras… sonhos perdidos,

Que só a manhã sabe construir.

Hoje, sou o dia,

Hoje, sou aquele menino,

Que na tua mão,

Escreve a palavra Amo-te;

Eis o sorriso dos peixes.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, 29/08/2020


22.05.20

Os poemas da morte,

Palavras tristes no nevoeiro da manhã,

Cancelas à sorte,

Abertas, campestres sentimentos de partir,

Regressar sem regresso,

Fugir,

Cansaço premeditado que apenas os livros vivem,

Palavras,

Ditados,

Nos poisos sonolentos das montanhas.

As flores negras que a tarde come,

Que alimenta o silêncio da sombra,

Tem nos olhos uma lágrima de vidro,

Quando se levanta sobre o capim,

A sanzala do adeus.

Uma finíssima porta de luz,

Uma janela pincelada pelo desejo,

Um nome escrito na sombra,

Que incendeia a noite.

A melancolia,

Com fome de matar,

Uma enxada carregada sobre os ombros,

A terra, húmida vaidade,

Nas flores dos rochedos cinzentos.

Vive na sanzala do adeus,

O menino dos calções invisíveis,

Livros, papel cansado de sonhar,

Nos lábios de uma laranja.

Salto, grito, deito-me na água do rio,

Morro e, levo comigo a mensagem,

Trazem-me a toalha da poesia,

Porque neste caminhar,

Não caminho,

Apenas durmo,

Ou sonho que dormia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22-05-2020


01.12.19

Habito neste labirinto de lata.

Desta pobre sanzala abandonada.

Habito neste corpo de ossos,

Alicerçado às muralhas dessa pobre calçada.

Habito neste corpo de chapa,

Cansado da tristeza.

Vejo-me no espelho da beleza…

E apenas observo sombras, linhas rectas envergonhadas.

Habito neste poeirento cansaço,

Nas tardes infinitas,

Que os meus lábios vomitam…

Palavras malvadas.

Palavras bonitas.

Habito no teu cabelo desgovernado pela doença,

Entre gemidos e demência,

Habito na tua boca engasgada na madrugada,

Quando o silêncio não é nada,

Quando a vergonha,

Envenenada,

Dorme na tua mão calcinada.

Habito, meu amor, neste palácio assombrado,

Dentro de livros com personagens moribundas,

Entre xisto e calçado,

Nas montanhas fundas.

Habito.

Habito nos duzentos e seis ossos Outono,

Quando as árvores se despem, e o teu corpo, longe do mar,

Enaltece a maré de chorar.

Habito sem parar,

Neste labirinto do sono.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

01/12/2019


24.11.19

Vivia na sanzala de prata,

O menino dos calções doirados,

Tinha medo da claridade,

E dos livros ensanguentados;

Tinha no quintal uma sombra de lata,

Que na companhia dos pássaros da cidade,

Dormia docemente sem idade…

E sonhava com o mapa.

Queria fugir.

Desenhar na terra encharcada

O mar.

O medo de partir.

O medo de regressar…

À casa abandonada.

Vivia na sanzala de prata,

O menino do triciclo em madeira.

Brinca na sombra da mangueira,

Como um guerreiro vestido de chapa.

São palavras de brincar,

São rosas de sonhar,

São canções de embalar…

Embalar o menino da sanzala de prata.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

24/11/2019


24.03.19

O ponto final da vida.

A morte prometida,

Sobre uma mesa empobrecida,

Quando os livros revoltados,

Descem a avenida,

Como soldados.

 

Pum. Fim da vida.

 

O silêncio.

Amo o silêncio dos pássaros, poisados nos teus lábios,

Doirados,

Doces,

Dos eternos namorados.

 

Grandes sábios.

 

Descem, sobem,

Sobem e descem,

 

Avenidas, ruas e ruelas,

Coitados,

Dos pássaros enamorados,

 

Entre lágrimas e velas.

 

Morre o poema na minha mão,

Sinto-lhe o esqueleto de dor, junto à noite,

Morrem todas as palavras do poema que morre na minha mão…

E coitadas…

Das janelas empoeiradas,

Velhinhas,

E, cansadas,

Como sexos apaixonados,

Nas sanzalas de prata,

A chuva miudinha,

Dos marinheiros em flor,

O cansaço, a desgraça do cio da madrugada,

Do meu primeiro amor.

 

Como eu quero escrever no teu corpo de sombra,

Na rua, uma montra,

Um par de calças esperando-me…

Sem saber que no final do dia,

Eu sentia,

A fórmula mágica das árvores apaixonadas,

As areias,

Os insectos envenenados pela fúria,

Não o sei, meu amor,

Nunca soube, meu amor,

Que o amor é uma merda,

Uma canção de revolta,

À volta,

Da fogueira.

 

Pum. fim da vida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

24/03/2019


11.06.17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,

Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,

Entre livros e papelada,

Entre copos e corpos sofridos na madrugada,

Tenho nas veias o teu nome,

E na algibeira as réstias da fome…

Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,

O Domingo termina na sanzala…

No capim brincam as minhas mãos de fada…

Que um papagaio de papel inventou na alvorada,

Sinto neste meu corpo desajustado da realidade

O vício sintético da falsidade…

O orvalho clandestino,

O sorriso do menino…

Na praia do Mussulo,

Só e abandonado,

Só e amedrontado,

Só nos rochedos pincelados de palavras mortas

Pela caneta do poeta,

Fracassado,

Pateta…

O delírio fantasma

Dos arraiais da felicidade,

Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,

Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…

Sangrando as avenidas

Desta cidade perdida,

Um diário disperso, um livro desassossegado,

O vazio buraco negro do desgraçado…

Mendigo da multidão,

Haja alegria e pão na eira,

Que no corpo da feiticeira

Argamassam os lábios da solidão,

Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…

E passo a horas a desenhar,

No teu corpo, meu amor,

O delírio fantasma da paixão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Junho de 2017


08.06.15

Não sabias que a noite dormia no teu colo,

Sorrias pincelados lugares

Enquanto as estrelas desapareciam da tua boca,

A madrugada suspensa na tua mão,

A luz do teu olhar…

Silenciando-se,

O teu coração irá cessar de caminhar junto ao mar,

Os pássaros poisarão nos teus ombros,

Acordará o dia

E a madrugada entre parêntesis…

Extingue-se como se extinguiram todas as sanzalas da tua vida,

E todos os abraços da tua noite.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 8 de Junho de 2015


27.03.15

Tenho no corpo

o sentido proibido do silêncio

os ossos choram todas as madrugadas

das lágrimas

as palavras

e nas mãos o feitiço do amanhecer

querer

não quero

ser

sem o saber

a leveza insignificante dos meus braços

suspensos no sorriso do luar

não acredito

acreditar

nas nefastas sentinelas da noite

o amor camuflado

caminhando no capim

as pálpebras cinzentas

misturadas nos cigarros embriagados

que só o fumo consegue desenhar

no triste pavimento da sanzala

oiço a sombra da paixão

voando sobre os coqueiros

o papel colorido

inventando poemas

nas nuvens cortinas do meu aposento

os livros

os livros são como homens em cio

cansados

cansados das sílabas em flor

e do rio

onde adormece a ponte do desejo

não desejando

desejar

não desejando

desejar o perfume do mar…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 27 de Março de 2015

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