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francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.

francisco luís fontinha

Nunca vi o mar, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu... francisco luís fontinha.


26.09.22

Deixou cair as asas sobre o mar e adormeceu; no dia seguinte deu-se conta que todas as fotografias que tinha escondido dentro da pequena caixa de sapatos número trinta, rés-do-chão esquerdo, tinham desaparecido como anteriormente já tinham desaparecido dois livros de poesia de AL Berto, um livro do Pacheco e um outro de Lobo Antunes.

Com os livros de poesia de AL Berto, muitos anos antes de perder as asas, teve uma enorme discussão, pois estes quase sempre não gostavam de ser manuseados, folheados, quanto ao livro do Pacheco, esse, estava sempre com dor de cabeça.

O dia erguia-se entre os seios dela, da rua, regressavam aos poucos as loucas buzinas dos transeuntes em delírio, como regressam ao final da tarde os estorninhos parecendo uma orquestra de zumbis, mas quanto aos dois livros de poesia de AL Berto, hoje, e enquanto os folheava e manuseava, não se queixaram de tal, até que o livro do Lobo Antunes me questionou a razão do par de asas estar sentado sobre eles, quando poderiam muito bem estar na minúscula sala de jantar; e porque não suporto birras nocturnas, puxei de um cigarro e fui ver o maldito mar daquela última noite.

O mar estava chocho, a maré tinha acabado de deixar o quarto e nele deixou impregnado o invisível perfume que apenas as marés usam, junto à janela havia uma secretária onde dormiam pedaços de papel escritos no século passado e que ele já nem se recordava; que conste que tratava-se apenas de algumas cartas que nunca foram enviadas, portanto sem remetente, e duas ou três receitas de culinária que nunca se atreveu a experimentar.

O mar estava enjoado. Nos lençóis, uma pequena mancha de esperma, desenhava a manhã que mais tarde acordaria e ninguém saberia se ia terminar. Numa das paredes, pequenas frestas olhavam-no, e começou a acreditar que estava a ser observado pelo defeituoso silêncio que muitas vezes se alicerçava sobre o peito e, quase sempre não entendia a razão.

Sabia que um dia seria apelidado de anjo azul, de azul tinha o pulso pincelado, mas de anjo, de anjo nada tinha, apenas as asas que deixara cair sobre o mar.

Sabíamos que a noite trazia sempre uma pequena malga de sopa, uma sandes de nada e dois ou três cigarros, depois, acreditando que sabia voar, colocou as asas e lançou-se da clarabóia…

Estatelou-se no pavimento como se fosse um pássaro que acabasse de sofrer um AVC, até que do mar, em passo apressado, vieram em seu auxílio as fotografias que tinham desaparecido da pequena caixa de sapatos; ouviam-se os lobos que aos poucos se despediam da maré, e esta, partiu.

Ele, depois de acordar, abraçou-se aos pequenos lençóis e ainda hoje inventa o sono antes de regressar a noite às suas mãos.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha


24.09.22

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

Lamento informar vossa excelência,

Mas esta madrugada é de graça,

 

Puxo de um velho cigarro,

Não me lembro de nada,

Lamento,

Parece que acordaram agora as acácias,

E do outro lado da rua,

 

Nem um pequeno sorriso…

Lamento informar vossa excelência,

Mas o rio deixou de correr para o mar,

À janela, a menina das serpentes,

Chora,

 

Acreditava nos sonhos,

E dou-me conta que os sonhos são cadáveres de sono

Descendo a Calçada da Ajuda,

E se ajuda ou não ajuda,

Ela, dorme sobre a erva laminada da manhã,

 

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

E de um pequeno sorriso…

Observo-o… lamento informar vossa excelência.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


16.09.22

Invento o sono,

Invento as palavras que me acompanharão

Quando eu for um barco em pequenos voos sobre o mar,

Invento o sono,

Invento as imagens lapidadas e que poisam sobre o meu corpo,

E sem que eu perceba,

Trago ao pescoço uma corrente invisível…

De muitas palavras.

 

Invento o sono,

Sabendo que transporto nas mãos

A caneta assassina das manhãs de poesia,

Invento o sono,

Porque percebi que da noite alimento as minhas dores,

Sabendo que amanhã chove,

Que amanhã uma criança com fome

Irá para a escola carregando uma mochila sonâmbula

 

E prisioneira das pequenas lágrimas de saudade,

Invento o sono,

Queimo todas as fotografias,

Semeio sobre a tua sombra

As lâminas do desejo,

Invento o sono,

Enquanto sobre a mesa da sala…

Uma pilha de livros se despede de mim.

 

Invento o sono,

Invento o prazer carnívoro dos cinzentos pássaros

Que desde a minha infância habitam no meu peito,

Invento o sono,

Puxo de um cigarro,

Disparo a bala de prata que os teus olhos escrevem na maré…

Invento o sono,

Não percebendo que vivo, não percebendo que respiro… inventando o sono.

 

 

 

Alijó, 16/09/2022

Francisco Luís Fontinha


03.07.22

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, diga-se; tínhamos trazido da antiga ilha da solidão todos os leitos do amor proibido. Nas ruas da cidade, ouviam-se os gritos dos cacilheiros que durante o dia transformavam o tejo em pequenas estradas de transeuntes e, sob o viaduto em Cais do Sodré, putas finas guerreavam-se por cinquenta escudos.

O sono, que de algibeira em algibeira, de lapela em lapela, desenhava-se no pavimento lamacento em pequenas vozes sinusoidais e ao fim de alguns gritos e gemidos, acabava sempre por regressar a uma Belém envenenada pelos putos em busca de sexo e depois de alguns escudos, escondiam-se rio adentro como que crianças em fuga da literatura que nesta ou naquela rua, se vendia a preço de saldo.

Uma noite mergulhei no poema da saudade, acreditando que depois do sono, acordarias sobre as lâminas do medo, mas mal visto, nada poderia na altura vaticinar que as janelas do teu olhar, hoje, sejam apenas cacos e pequenas migalhas.

O poema, às vezes, enquanto o poeta fumava cigarros de luz, mergulhava no rio e, ao longe, na varanda de um paquete que começava, aos poucos, em pequenas manobras, a aproximar-se de terra, mergulhava e só voltava depois de longas horas de espera, onde cadeiras e mesas já dormiam.

Hoje, ainda hoje, percebo que o poeta que sentado na margem do rio fumava cigarros de luz e o menino que na varanda do paquete via uma cidade imensa a entrar-lhe olhos adentro, eram um só; eu.

Anos depois, a cidade transformou-se num imenso sono de meninos em calções, sobre a mesa, o punhal com que ela numa noite inventada para a ocasião, espetou no peito do poeta, que ontem, sabia onde habitava o velho poema, e hoje, percebe que esse velho, que às vezes, vestido de marinheiro, pede esmola no musseque, deixou de pertencer aos jardins floridos do sonho.

Bebiam-se shots de fumo que apenas o cacimbo sabia onde se escondiam, depois do sexo, porque a cidade, aos poucos, começava a desaparecer do espelho tricolor da madrugada; e depois da chuva, o cheiro intenso da terra queimada. Levantava as mãos a Deus e agradecia por mais um dia que tinha terminado, e ele, ainda, mesmo a muito custo, se encontrava vivo e de boa saúde.

Depois, o velho poeta morreu numa noite de orvalho, mas deixando de acreditar no desejo, sabia que as margaridas que brincavam no jardim do sono, um dia, regressariam a mim. E hoje guardo com amor a pequena sílaba que ele me deixou de recordação e em testamento.

Depois, tínhamos de inventar o sono. Enganávamos a noite construindo nas paredes do luar pequeníssimas flores em papel, e mesmo assim, o puto trocava notas de cem escudos por ninharias que hoje habitam a casa das abelhas em flor.

E sempre que ele cerrava os olhos, via o imenso mar a entrar musseque adentro como o paquete, em pequenos roncos, atravessou o tejo até ao cais de desembarque e desfaleceu sem que ninguém o tenha, até hoje, ressuscitado.

Depois, morreste-me.

Depois, morri nas tuas mãos.

E sempre que invento o sono, vejo um musseque a entrar dentro do meu corpo como se fosse uma flecha envenenada, como se fosse um poema em delírio.

 

 

 

Alijó, 3/07/2022

Francisco Luís Fontinha


13.01.22

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta.

Dos pássaros,

Regressam a mim

Os uivos apitos da saudade,

Como se eu fosse uma rocha indomável,

 

Disperso na manhã deserta das gaivotas.

Sei que há nas palavras

Verdadeiras equações de sono,

Versos invisíveis

Que durante a noite se transformam em sílabas,

No poema envenenado.

 

Deixei de escrever

Nos lábios amargos da floresta,

Os beijos nocturnos da insónia;

- Adoráveis submundos nas engrenagens da vida,

Ama-se. Mata-se.

Como se a vaidade fosse um pressuposto

 

Infinito do homem.

Ama-se e inverte-se a claridade lunar,

(e caso seja possível)

Ergue-se na humidade do silêncio,

Entre beijos

E abraços aprisionados.

 

Almoça o sono

Uma sanduiche de medo,

Na companhia dos beijos alicerçados à montanha do Adeus…

Ergue-se de mim e, deita-se na sombra tristeza da cidade,

Todos os automóveis e todas as rodas dentadas do passado,

Morrem de tédio; quantos aos pássaros,

 

Construídos em papel,

Dançam as cantigas desta triste caligrafia,

Que sublime e infinita,

Foge em direcção ao rio.

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta,

 

E começo a guardar retractos de sombras,

Que a memória vai apagando,

Dia após dia,

Noite após noite;

E assim, vivo neste habitáculo de espuma,

Esperando que dos pássaros regressem a mim os uivos apitos da saudade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13/01/2022


09.08.21

Dizem que o vento o levou e, semeou nas páginas da insónia o poema paixão.

 

Poema paixão

 

Escrevo a minha última carta

Para as longínquas estrelas.

Flores que se amam, há muitas,

Desde que as palavras escritas,

Adormeçam nas extintas lágrimas da noite;

A paixão levou-o num barco em papel

Dançando nas pequenas sílabas

Do Outono passado.

O dia desaparece na página de um velho livro,

O velho mendigo, de cigarro na algibeira,

Dá aulas de Filosofia numa esplanada invisível, junto ao Rio;

O pequeno-almoço, morreu-lhe

E sempre que se recorda do retracto junto ao pôr-do-sol,

O mar parece doido, cansado, de tanto vigiar os rochedos da morte.

Traz no rosto as lágrimas da saudade,

Reza religiosamente às sombras da cidade e,

Uma estátua aparece a cada vez que o mesmo mendigo

Consulta o relógio da ausente do pêndulo uniformemente acelerado.

Calcula a velocidade da queda,

Verifica que a aceleração é contante,

Dentro de uma máquina fotográfica.

Semeia imagens nos socalcos da infância,

Desenha tentáculos de esperma

Nas nuvens de antigamente e,

Travestido de sonífero, foge da cidade.

Cada noite é um colchão envenenado pelo silêncio,

Cada beijo,

Uma flor perfumada no sorriso da areia,

- “Escrevo a minha última carta

Para as longínquas estrelas”

Pudera;

A paixão é uma lágrima na cara do objecto,

Desenho tranquilo,

Deserto,

Faminto.

Ama-se de quê?

Como a morte.

Morre-se.

E, ama-se.

 

 

A noite é um emaranhado de fios condutores, vêem-se todas as lágrimas de electrões, protões e todos os cabrões das vaidades incompreendidas, a esmola é muito e, de gorro na cabeça, depois de nascer o sol, vomita as equações que silenciaram durante a noite; o cio.

A dor da mão quando escreve na terra húmida, todas as coisas mortas, visivelmente como uma janela virada para o mar.

Quatorze horas de fome, almoços cansados sobre a mesa e, o velho mendigo, de tanta Filosofia, entoirido de medos e lagartos sem nome. Primeiro vem o beijo desejado pelas palavras escritas, metáforas e animais mamíferos, toca o despertador;

- Morreu entre as duas e as três -
Entalado?

Cercado por uma cerca eléctrica, que só as cidades conseguem construir.

- É isto a loucura? -
Uma laranja embriagada nas cinzas de uma eira abandonada. E, toca o despertador para a ordinária equação de todos os gomos envenenados, desertores de uma guerra de palavras, sobre a cabeça dos homens.

- Isso dói? -
Mais rápido que a velocidade da luz, o anzol procurando a sua presa acabada de se enforcar nos seios de uma aranha, há música sobre os ombros dos alicerces não terminados, o carpinteiro procura a enxada, vomita pequenas línguas de fogos, aquece as mãos durante o Inverno

- Que horas são, meu primeiro poema? -
Ontem pertencias aos mares navegados por petroleiros de ossos, gaivotas de vidro e, pequenos adornos ao pescoço.

Durante o Inverno, perto da noitinha abençoada, acende a lareira do sono, deita a cabeça sobre o peito dela e,

Segreda-lhe muito baixinho;

Amo-te.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 09/08/2021


04.02.21

Guardo o teu nome

No granito sonolento da noite,

E, sabes? Oiço os pássaros

Que brincam nos teus lábios.

Caminho velozmente na solidão do entardecer

Como se fosse uma flecha

Ou uma espingarda preguiçosa.

As palavras que a espingarda preguiçosa

Dispara, são murmúrios,

Vozes em papel

Que descansam nas planícies do poema.

Apetecia-me suicidar o poema.

Matar todas as palavras escritas no poema,

Como fazem os ditadores aos seus opositores.

Guardo o teu nome

Na algibeira da insónia,

Lugar onde habitam as minhas memórias

E todas as minhas fotografias;

Tal como o cansaço, a solidão

É o alimento das flores sem nome.

A paixão,

O amor que dorme nas janelas transparente e,

Onde vivem os cérebros inadaptados do meu jardim.

Um pequeno passeio,

Uma lâmpada dispersa,

Na sepultura do adeus.

Tal como ontem,

Sessenta anos passara sobre a revolta,

O cansaço das armas

Nas palavras dos homens.

A covardia de não acordar,

Deitar-me sem sono,

Fingir que durmo numa sombra imaginária,

Onde brincou o meu pai.

E, uma cabana de sono

Sabe que nas minhas palavras,

Há um livro que se revolta

E pergunta; para quê?

O telegrama regressou,

Trazia na mão uma côdea de sangue,

Alguns pertences e,

Uma malga de nada; ninguém come nesta casa

Até a aldeia se libertar do cansaço dos pobres.

Oiço tiros de canhão,

Granadas importadas,

Lança-chamas improvisados e,

Esta maldita guerra não termina nunca.

A refeição chegou na marmita,

Um pedaço de pão é lançado aos crocodilos

Como se de pedras se tratasse.

O Rossio é lindo, mãe!

Cai a neblina sobre a cidade,

Das palmeiras veem-se as gaivotas em cio

Que disputam o campeonato nos musseques perdidos,

As pedras, achados de cerâmica,

Pássaros e abelhas,

Almotolias que transportam o salgado azeite da escuridão diurna,

Que apenas o soba sabia para que servia.

Hoje, depois de acordar,

Todos os sonhos são tristes palavras

Nos braços do mar.

Sabeis vós quanto custa um grama de sono?

- Meu rapaz; aqui é proibido ter sono.

E, adormeceu eternamente até se cansar de gritar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, 04/02/2021


11.08.20

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Acrílico s/tela 70x100 – Francisco Luís Fontinha

 

Um silêncio de espuma poisa suavemente no teu olhar, a manhã fria, passeia-se pelo jardim imaginário da sombra, o perfume do teu sorriso vagueia, lentamente, nas amoreiras em flor, cansada, a manhã, alicerça-se aos braços do poeta, que incendeia palavras junto à árvore do silêncio,

Ouves-me?

Grito.

O grito da corça, o vai-e-vem dos sons melódicos do desejo quando abraçam o corpo camuflado no silêncio de espuma, as flores, o amor quando as flores brincam na eira granítica do sono e, ao longe, o tão esperado fim-de-semana,

Amanhã, vens?

A sepultura do esqueleto ósseo dorme, as lâmpadas da noite, em queda livre, suicidam-se nos pequeninos pedaços de papel que o poeta amarrotou durante a tarde,

Sombras de néon sombreiam o teu no corpo embalsamado pelo silêncio, aquele de espuma, que habita na cidade dos pássaros,

Flores, meu amor, são apenas flores…

E, ninguém sabe a que horas abre o jardim do descanso, com banquinhos de madeira cansada pela tempestade da tarde,

Amanhã, vens?

Claro que sim,

Flores, donzelas, meninos e meninas, o circo chegou à cidade dos pássaros e, os pássaros, todos eles, vestiram-se de palhaço; o pobre, o rico e, o grande palhaço do Reino, que existe, mas que ninguém conhece.

Abrem-se ranhuras no gesso fendido da madrugada, todos os gemidos nocturnos, de variadas cores, alimentam o orgasmo imbecil da esperança, acreditava em pássaros, meu amor,

Amanhã, mãe?

Ai o amor, meu querido, quando dormes sobre uma lâmina de granito, encostas a cabeça ao meu ombro, depois desces a calçada em direcção ao rio e, beijas-me loucamente,

Acreditas no destino, meu amor?

Talvez meu filho, talvez,

Um zero à esquerda, sentou-se sobre o paralelepípedo do sono e, embarcou numa jangada para a ilha dos amantes.

Hoje, sou um pedaço de silêncio de espuma.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Agosto de 2020


29.01.20

Todas as coisas, possíveis, impossíveis,

Acontecem quando nasce em mim a noite.

O corpo range de sono, perco-me nas palavras da saudade,

Quando regressa a madrugada,

E, todos os pássaros voam em direcção ao mar.

Um barco chilreia, voa sobre o jardim das cantarias,

Flores dispersas, como mendigos apressados,

Brincando na eira,

Olham o cereal,

Deitam-se no chão,

E, sonham com o luar.

Todas as coisas,

Infinitas, finitas, nas mãos de Deus.

Um esqueleto de silêncio vagueia nas pálpebras da insónia,

Morrem as pedras do meu pobre jardim,

Levantam-se as migalhas da fome,

Quando um carnívoro de sombra, às vezes cansado, levita na escuridão da solidão.

Tenho fome;

Tive pai, mãe, e, nada mais…

Agora, tenho a floresta,

Os papagaios em papel, de três cores,

E, num pequeno caderno quadriculado, invento o sonho,

Imaculado, distante, ausente,

Como todas as coisas,

Possíveis, impossíveis.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

29/01/2020


16.01.20

A fragilidade do corpo embrulhada no sono,

O cansaço das palavras, inertes, mortas,

Nas páginas sonâmbulas da tristeza,

O vento chora,

Traz a chuva,

Vai embora.

 

Todo o silêncio é pouco,

Quando os farrapos da saudade,

Envelhecem na escuridão,

 

A metáfora,

O sorriso das plantas,

Junto ao mar,

 

E inventam-se rosas em papel,

Comestíveis, às vezes, quando a fome é invisível,

Descendo o rio,

Saltando a ponte metálica,

Em direcção ao Sol,

Em direcção ao abismo.

 

Não quero pertencer a este conflito de interesses,

Caixas em cartão,

Revoltadas contra a geada,

A chuva, miudinha, perde-se na calçada.

E, no entanto,

Estou aqui,

Esperando o regresso das lâminas lágrimas,

Como se fossem balas de raiva, contra as paredes de xisto.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

16/01/2020

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